A carbonária e o Grande Oriente de Portugal: história, fundamentos e curiosidades
Quando li sobre a implantação da República Portuguesa, uma pergunta não me saía da cabeça: como é que duas organizações secretas, com princípios tão distintos, conseguiram unir forças para derrubar uma monarquia com séculos de história? De um lado, o Grande Oriente Lusitano, uma obediência maçónica institucional, com rituais solenes, hierarquias definidas e uma presença semi-pública. Do outro, a Carbonária, uma sociedade revolucionária violenta, que recrutava os seus membros à sombra da clandestinidade e não hesitava em usar o punhal e a dinamite para atingir os seus fins.
Confesso que, durante muito tempo, cometi o erro comum de as confundir. Para mim, “maçonaria” e “carbonária” eram quase sinónimos. Foi ao aprofundar a pesquisa que percebi a profundidade do meu equívoco. A Carbonária não era uma “ala radical” da Maçonaria, nem o Grande Oriente era uma “fachada” para os carbonários. Eram duas entidades separadas, com origens diferentes (Itália versus Inglaterra), estruturas hierárquicas distintas (choças e barracas versus lojas e obediências) e métodos radicalmente opostos (a conspiração armada versus o debate iniciático).
Neste artigo, convido-o a percorrer comigo essa linha ténue que separa (e ao mesmo tempo une) estas duas forças que mudaram para sempre o destino de Portugal. Explicarei a fundação do Grande Oriente Lusitano em 1802, os rituais secretos da Carbonária, a colaboração pragmática que levou ao regicídio de 1908 e à revolução de 1910, e partilharei algumas curiosidades que dificilmente encontrará nos livros de história convencionais – como as “barracas de mulheres” chamadas jardins, ou o selo da Carbonária com a deusa da Liberdade e um dragão aos pés. Acompanhe-me.
A implantação da República Portuguesa, a 5 de outubro de 1910, foi o culminar de um processo revolucionário no qual duas forças distintas – a Maçonaria e a Carbonária – desempenharam papéis complementares. Embora frequentemente confundidas, estas organizações tinham origens, estruturas e métodos radicalmente diferentes. Este artigo explora a história, os fundamentos e as curiosidades da Carbonária e do Grande Oriente Lusitano, a mais antiga obediência maçónica portuguesa.
1. O Grande Oriente Lusitano: a maçonaria institucional
Origens e fundação
A Maçonaria chegou a Portugal por volta de 1727, trazida por comerciantes britânicos que fundaram a primeira loja em Lisboa, conhecida nos registos da Inquisição como “Loja dos Hereges Mercantes”. Seguiram-se outras lojas ao longo do século XVIII, mas foi em 1802 que se deu o passo decisivo para a criação de uma obediência nacional: o Grande Oriente Lusitano (GOL).
Em abril de 1802, Hipólito José da Costa deslocou-se a Londres para negociar com a Grande Loja de Inglaterra o reconhecimento de uma Grande Loja em Portugal. A 12 de maio desse ano foi estabelecido o acordo que permitiu a constituição oficial do Grande Oriente Lusitano. Entre os seus primeiros dignatários contavam-se Gomes Freire de Andrade e o patrocínio do Duque de Sussex (Augusto Frederico), grão-mestre da maçonaria inglesa. O primeiro Grão-Mestre foi Sebastião José de Sampaio de Melo e Castro Lusignan, neto do 1.º Marquês de Pombal.
A GLRP surgiu de uma dissidência no seio do GOL, motivada por uma polémica sobre a legitimidade da reeleição do então grão-mestre.
Em 1996, uma cisão interna levou à formação da Grande Loja Legal de Portugal (GLLP), liderada por Luís Nandim de Carvalho. Durante anos, as duas organizações reivindicaram a liderança da maçonaria regular em Portugal. A cisão foi oficialmente resolvida a 17 de Dezembro de 2011, numa cerimónia de reconciliação entre Alexandre de Barahona (GLRP) e José Francisco Moreno (GLLP).
Atualmente, a obediência utiliza a designação composta: Grande Loja Legal de Portugal / Grande Loja Regular de Portugal (GLLP/GLRP).
Princípios e fundamentos
O Grande Oriente Lusitano integra-se na corrente maçónica de defesa da liberdade, da democracia e do combate ao dogmatismo. A Maçonaria é uma ordem iniciática e ritualista, universal e fraterna, baseada no livre pensamento e na tolerância, com o objetivo final do aperfeiçoamento da Humanidade através da elevação moral e espiritual do Ser Humano. Os grandes valores da Maçonaria expressam-se na divisa Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Historicamente, a Maçonaria portuguesa esteve intimamente ligada à vida académica e política, tendo servido de palco a muitas conspirações e sido acusada de ser uma organização de elites.
Evolução e consolidação
Ao longo do século XIX, o GOL passou por diversas vicissitudes, incluindo divisões internas e perseguições por parte de governos absolutistas. Em 1869, as três principais obediências maçónicas portuguesas (Grande Oriente Lusitano, Confederação Maçónica Portuguesa e Grande Oriente de Portugal) unificaram-se, dando origem ao Grande Oriente Lusitano Unido (GOLU).
Este período foi de grande crescimento, com a instalação de lojas não só em Portugal, como em Espanha, Roménia, Bulgária, Cabo Verde, Angola, Moçambique, Macau e Goa.
Figuras proeminentes da elite intelectual e política do país fizeram parte da obediência, incluindo Anselmo Braamcamp, Bernardino Machado, Carolina Beatriz Ângelo e muitos outros.
Aproximação à República e declínio
No início do século XX, o GOLU aproximou-se decididamente da causa republicana. Em junho de 1910, uma reunião no Palácio Maçónico (proposta pela Loja Montanha) levou à formação de um comité de resistência maçónica com o objetivo de auxiliar a organização da revolta. A revolução de 5 de outubro de 1910 não foi obra do GOLU, mas contou com a participação ativa de muitos maçons, com destaque para Machado Santos, o herói da Rotunda.
Com o advento da Ditadura Militar e, posteriormente, do Estado Novo, a maçonaria foi duramente perseguida. Em 1935, um decreto-lei proibiu as sociedades secretas, levando o GOLU a operar na clandestinidade até à Revolução de 25 de Abril de 1974.
2. A Carbonária: a “maçonaria guerreira”?
Origens e contexto
A Carbonária foi uma sociedade secreta revolucionária que atuou na Itália, França, Portugal, Espanha, Brasil e Uruguai nos séculos XIX e XX, notória por seu marcado anticatolicismo e por ações violentas, incluindo atentados e assassinatos políticos. Embora alguns autores remetam as suas origens para o século XIII, foi na Itália do início do século XIX que a Carbonária ganhou contornos mais definidos, consubstanciada com o aparecimento da “Jovem Itália” de Giuseppe Mazzini (fundada em 1831).
Estrutura e rituais
A Carbonária organizava-se numa hierarquia de choças (nível básico), barracas (nível intermédio), vendas (nível central) e uma Alta Venda (nível superior), impondo severa disciplina interna. Os membros tratavam-se por “Bons Primos” e utilizavam um simbolismo relacionado com a floresta e os trabalhos nela realizados (carvoeiros, lenhadores), contrastando com o simbolismo maçónico da construção. A Carbonária baseava-se em quatro graus iniciáticos: Rachador, Cavador, Mestre e Mestre-Sublime.
A Carbonária em Portugal
A Carbonária portuguesa foi fundada entre 1898 e 1900 por Artur Augusto Duarte da Luz de Almeida, que se tornou o seu Grão-Mestre. As quatro lojas da Maçonaria Académica – Independência, Justiça, Pátria e Futuro – foram transformadas em choças carbonárias, dividindo os seus membros em grupos de vinte. As primeiras reuniões realizavam-se num sótão na rua de Santo António da Glória, em Lisboa.
A Carbonária agiu em profundo sigilo, sendo os seus membros obrigados a possuir uma arma de fogo e um punhal. Os traidores ou dissidentes eram punidos, muitas vezes com morte, por meio de organizações como a Alta Venda. Em 1910, contava com cerca de 40 000 membros e foi o braço executivo do movimento republicano, estando por detrás do regicídio de 1 de fevereiro de 1908 (assassinato do Rei D. Carlos I e do Príncipe D. Luís Filipe) e da revolução de 5 de outubro.
Relação com o Grande Oriente Lusitano
A Carbonária Portuguesa era formalmente independente da Maçonaria, não tendo ligações orgânicas com o Grande Oriente Lusitano ou outras obediências. No entanto, colaborou com o GOLU para a implantação da República, utilizando as suas estruturas para alojar os órgãos superiores da Carbonária.
Confundir o papel da Maçonaria e da Carbonária é, nas palavras do historiador António Ventura, “um erro comum, mas grosseiro”. Enquanto a Maçonaria era uma organização relativamente pública (com boletins e anuários), a Carbonária agia no maior sigilo e recorria à violência política.
3. Curiosidades e fatos pouco conhecidos
3.1. O simbolismo carvoeiro
O termo “carbonário” deriva do italiano carbonaro, que significa carvoeiro. Os Guelfos (partidários do Papa) encontravam subterfúgio no interior das florestas, nas choças dos carvoeiros, daí a designação.
3.2. “Bons Primos” e tratamento
Os membros da Carbonária tratavam-se por “Bons Primos” e usavam a segunda pessoa do singular (“tu”), reforçando o espírito de fraternidade e igualdade.
3.3. As “Barracas de mulheres”
Existiam também barracas de mulheres, chamadas jardins, cujas membros eram designadas por jardineiras.
3.4. O selo da organização
O selo da Carbonária era ornado com a deusa da Liberdade, tendo um dragão aos pés e a legenda “Aniquilador do despotismo”.
3.5. A “Venda Jovem Portugal”
O órgão supremo da Carbonária Portuguesa era a “Venda Jovem Portugal”, uma estrutura ultra-secreta composta por Mestres Sublimes que nem sequer se conheciam entre si. O seu presidente era o Grão-Mestre Sublime, o único que conhecia toda a organização.
3.6. A “A Coruja”
Paralelamente à Carbonária, foi necessário fundar outra associação secreta, A Coruja, para agrupar republicanos que não queriam submeter-se às rigorosas fórmulas carbonárias. Posteriormente, foi dissolvida e os seus membros integrados na Carbonária.
3.7. A condenação papal
A Carbonária foi alvo de condenação papal em várias bulas, nomeadamente a Quo Graviora Maiora (1826), que denunciou a promoção da indiferença religiosa, indisciplina social, conspirações contra a autoridade papal e envolvimento em execuções para proteger os seus segredos.
3.8. O declínio pós-República
Depois de proclamada a República, a Carbonária manteve-se ativa enquanto existiram movimentos monarquistas. No entanto, com a divisão do antigo Partido Republicano, a Carbonária dividiu-se e dissolveu-se, sem nunca mais ter sido reconstituída.
4. Conclusão
A relação entre a Maçonaria (representada pelo Grande Oriente Lusitano) e a Carbonária foi uma aliança pragmática entre duas forças com origens e métodos distintos, mas com um objetivo comum: o fim da Monarquia e a implantação da República. Enquanto o Grande Oriente Lusitano forneceu a estrutura institucional, a legitimidade e grande parte dos quadros dirigentes, a Carbonária atuou como a “maçonaria guerreira”, o braço armado e clandestino que executou as ações mais violentas e decisivas. Juntas, mudaram para sempre o curso da história portuguesa.
Pesquisa e Redação Ivair Ximenes Lopes
Referências e Fontes para Aprofundamento
António Ventura, As sociedades secretas e a revolução, artigo no jornal Público (18 de agosto de 2010) e transcrito em A Viagem dos Argonautas.
Cadernos da História, “A Carbonária Portuguesa” (Marco Monteiro e Vera Grilo).
Freemason.pt, “A Carbonária em Portugal” e “Os Grão-Mestres do Grande Oriente Lusitano”.
Grande Oriente Lusitano – Maçonaria Portuguesa, página oficial: “Princípios e Valores”, “Cronologia”.
InfoEscola, “Carbonária – Sociedade Secreta”.
MAIS HISTÓRIA – Crónicas 01, “Carbonária”.
RTP Ensina, “Introdução à História da Maçonaria em Portugal”.
Wikipédia, verbete “Grande Oriente Lusitano” e “Carbonária Portuguesa”.
William J. Brito, “A Carbonária em Portugal” (Livros Horizonte, 2004) referenciado em diversas fontes.
Enciclopédia Britannica, verbete “Carbonária” e “Portuguese secret society”.

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MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
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