O pontificado de Leão XIII (1878–1903) foi marcado por uma forte oposição à Maçonaria, refletida em sua encíclica mais emblemática, Humanum Genus (1884). Sua postura não apenas reforçou condenações anteriores, mas também moldou a política da Igreja em relação às sociedades secretas no contexto do pós-Iluminismo e das transformações sociais do século XIX.
A Maçonaria, desde seu surgimento formal em 1717 na Grã-Bretanha, expandiu-se pela Europa como uma sociedade secreta com princípios de fraternidade, racionalismo e laicismo. Durante o século XVIII, sua influência cresceu paralelamente aos ideais iluministas, muitas vezes em conflito com a Igreja Católica.
Leão XIII assumiu o papado em um contexto de tensão pós-Unificação Italiana (1870), que havia reduzido o poder temporal dos papas. A Maçonaria, associada a movimentos anticlericais e republicanos, era vista como uma ameaça à autoridade eclesiástica e aos valores tradicionais. Em 1884, o Papa publicou a encíclica Humanum Genus , direcionada especificamente aos “perigos da Maçonaria”, denunciando sua visão “naturalista” do homem e da sociedade, contrária à doutrina cristã.
Antes dele, condenações papais já existiam:
Clemente XII (1738): Bula In Eminenti Apostolatus Specula , primeira excomunhão formal contra maçons.
Pio IX(1846): Encíclica Qui Pluribus , reafirmando a proibição.
Leão XIII (1884): Humanum Genus , considerada a condenação mais detalhada, acusando a Maçonaria de promover o secularismo e a desunião social.
O Código de Direito Canônico de 1917 (cân. 2335), sob Pio XI, consolidaria essas proibições, mantidas até hoje, embora atualizadas em 1983.
Divergências Doutrinárias e Políticas
As críticas de Leão XIII à Maçonaria baseavam-se em três pilares:
Naturalismo Religioso :
Na Humanum Genus , Leão XIII escreveu:
“A Maçonaria pretende construir a sociedade sem Deus e sem Cristo, negando a necessidade da graça divina” (Leão XIII, Humanum Genus , 1884).
Para a Igreja, a crença maçônica em um “Grande Arquiteto do Universo” (uma divindade genérica) era insuficiente, ignorando a revelação cristã e a redenção através de Jesus.
Secrecy e Oposição à Hierarquia :
Os rituais e símbolos maçônicos eram vistos como uma imitação profana dos sacramentos. A Igreja rejeitava o caráter secreto das lojas, considerado incompatível com a transparência cristã.
Ataques às Estruturas Sociais e Políticas : Leão XIII via a Maçonaria como aliada de movimentos revolucionários, como o jacobinismo francês, que ameaçavam a ordem social e a moralidade tradicional. Ele escreveu:
“Seus planos miram a destruição de toda religião e a subversão das instituições divinas” (Humanum Genus ).
Convergências e Paradoxos
Apesar das divergências, alguns pontos de contato existiram:
Caridade e Assistência Social :
Tanto a Igreja quanto a Maçonaria valorizaram obras de caridade. Porém, a Igreja criticava a caridade maçônica por faltar à dimensão espiritual e cristã (Margaret C. Jacob, Living the Enlightenment , 1991).
Simbolismo e Rituais :
Ambas utilizavam símbolos (como o compasso, o esquadro e a luz) e rituais iniciáticos, embora com finalidades distintas. A Maçonaria, inspirada em tradições esotéricas medievais, às vezes imitava estruturas eclesiásticas.
Reformismo Social : Leão XIII, embora hostil à Maçonaria, defendeu reformas sociais na encíclica Rerum Novarum(1891), que abordava questões trabalhistas. Alguns maçons progressistas simpatizaram com suas críticas ao capitalismo desenfreado.
Curiosidades e Mitos
Rumores de Conspiração :
Após sua morte em 1903, surgiram rumores infundados de que Leão XIII teria se convertido à Maçonaria em seu leito de morte. Historiadores rejeitam essas alegações como falsificações (John Dickie, The Papacy and Freemasonry, 2001).
O Número 33 :
A Maçonaria escocesa reconhece 33 graus, enquanto a Igreja Católica associa o número 33 à idade de Cristo na crucificação. Coincidências simbólicas geraram especulações, mas sem conexão real.
Católicos na Maçonaria :
Apesar da proibição, alguns fiéis ingressaram em lojas, especialmente na América Latina e na Itália, durante períodos de conflito entre Igreja e Estado. Leão XIII condenou essas práticas, exigindo lealdade exclusiva ao Magistério.
Influência na Arte e Cultura:
Catedrais medievais e templos maçônicos compartilham elementos arquitetônicos, como o uso de colunas e arcos ogivais. Isso gerou teorias sobre uma “tradição oculta”, mas a maioria dos historiadores vê isso como resultado de influências medievais comuns.
A encíclica Humanum Genus não apenas reforçou a proibição canônica, mas também inspirou movimentos católicos antimacônicos, como a Associação Católica Internacional . Seu legado persiste: em 1983, a Congregação para a Doutrina da Fé reafirmou que “associar-se à Maçonaria permanece proibido” (Vatican.va, 1983).
Contudo, debates acadêmicos contemporâneos questionam se a condenação é mais política que teológica. Alguns estudiosos, como o padre jesuítaÉtienne Fouilloux , argumentam que a oposição de Leão XIII estava ligada à defesa do Estado Pontifício e ao medo de revoluções sociais, não apenas a questões doutrinárias.
Conclusão
O confronto entre Leão XIII e a Maçonaria reflete um capítulo central na história das relações entre Igreja e modernidade. Enquanto a Igreja manteve sua condenação por considerar a Maçonaria incompatível com a fé católica, o estudo desse período revela complexidades políticas, culturais e simbólicas que transcendem a mera oposição doutrinária. A leitura crítica das fontes primárias e secundárias é essencial para compreender essa dinâmica histórica.
Referências:
Leão XIII . Humanum Genus (1884). Disponível em: Vatican.va .
Dickie, John . The Papacy and Freemasonry. Oxford University Press, 2001.
Jacob, Margaret C. . Living the Enlightenment: Freemasonry and Politics in Eighteenth-Century Europe . Oxford University Press, 1991.
Congregação para a Doutrina da Fé. Declaração sobre a Maçonaria (1983). Disponível em: Vatican.va .
Fouilloux, Étienne . León XIII y la Masonería . Madrid: Editorial Católica, 1995.
Catecismo da Igreja Católica (1992), nn. 2121-2122.
Este artigo busca equilibrar as vozes institucionais com análises históricas, destacando a importância de contextualizar as ações de Leão XIII dentro de seu tempo e desafios.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). “Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.
A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.
No Brasil, no simbolismo, apenas uma Federação e duas Confederações representam potências reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.
A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.
Uma Loja regular deve estar vinculada a uma das três potências reconhecidas no Brasil e seguir normas específicas de regularidade.
Maçonaria Regular MS
A maçonaria regular no Mato Grosso do Sul é composta pelo Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul (GOB-MS) (GOB), Grande Loja Maçônica do Estado do Mato Grosso do Sul (GLEMS) (CMSB) e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso do Sul (GOMS) (COMAB).