Jean-Baptiste Poquelin, Molière – O Gênio da Comédia que Fez o Rei e a Corte rirem de si mesmos
setembro 15, 2026
Jean-Baptiste Poquelin, Molière – O Gênio da Comédia que Fez o Rei e a Corte rirem de si mesmos
pesquisa e redação: Ivair Ximenes Lopes
Ao longo dos meus anos de estudo sobre a literatura que moldou o imaginário ocidental, poucos nomes me provocaram uma admiração tão profunda quanto o de Molière.
Ele não foi apenas um dramaturgo; foi um observador implacável da alma humana, um artista que, com a arma do riso, ousou expor a hipocrisia, a vaidade e a estupidez dos poderosos.
Nascido Jean-Baptiste Poquelin, filho de um tapissier real, ele renunciou a uma vida de respeitabilidade burguesa para se entregar ao palco — e, ao fazê-lo, transformou a comédia francesa para sempre.
Sua trajetória, marcada por dívidas, prisões, escândalos e um sucesso retumbante sob a proteção do Rei Sol, é um testemunho de que a verdadeira genialidade não se curva às convenções. Neste artigo, convido o leitor a conhecer a vida, as obras e as curiosidades que cercam este que é, sem dúvida, o maior comediógrafo da história.
Origens e Formação: O Filho do Tapissier que Escolheu o Palco
Jean-Baptiste Poquelin nasceu em Paris, em 1622 (batizado a 15 de janeiro). Seu pai, Jean Poquelin, era um rico comerciante de tapetes e tapissier du roi — um cargo prestigioso que lhe garantia acesso à corte e uma posição de respeitabilidade burguesa.
A mãe de Jean-Baptiste faleceu quando ele tinha apenas dez anos, deixando-o aos cuidados do pai e da madrasta.
Recebeu uma sólida educação jesuíta no Collège de Clermont (a futura Lycée Louis-le-Grand), onde estudou latim, retórica e filosofia. O pai esperava que ele assumisse o negócio da família e o cargo na corte, mas o jovem Jean-Baptiste tinha outros planos.
Em 1643, aos 21 anos, renunciou à sucessão do cargo real e decidiu-se pelo teatro — uma escolha que, na época, significava estigmatização social e a perda da respeitabilidade burguesa.
A Fundação do Ilustre Teatro e os Anos de Peregrinação
Em junho de 1643, Molière fundou, com nove companheiros, a companhia L’Illustre Théâtre.
Entre eles estava Madeleine Béjart, uma atriz talentosa e refinada que se tornaria sua parceira artística e amorosa por muitos anos . O nome artístico “Molière” aparece pela primeira vez num documento de 28 de junho de 1644.
O início foi desastroso. A trupe alugou uma sala espaçosa, endividou-se para a equipar e, após alguns meses de sucesso inicial, viu a assistência cair drasticamente. Em 1645, Molière foi preso duas vezes por dívidas.
O pai teve de intervir para saldar as contas, e a aventura do Ilustre Théâtre terminou em fracasso completo.
A Peregrinação pelas Províncias: Treze Anos de Aprendizagem
Do final de 1645 até 1658, Molière e a sua trupe percorreram o interior da França. Foram treze anos de peregrinação, passando por Nantes (1648), Toulouse (1649), Lyon (1652-1655), Montpellier (1654-1655) e Béziers (1656).
Esses anos de estrada foram uma escola rigorosa. Molière aprendeu a lidar com autores, colegas, públicos e autoridades. Sob a proteção de nobres importantes, a trupe conseguia atuar nas principais cidades e obter gratificações generosas.
Foi nesse período que escreveu as suas duas primeiras peças conhecidas: L’Étourdi (O Atrapalhado), em Lyon (1655), e Le Dépit amoureux (O Despeito Amoroso), em Béziers (1656).
O caminho para a fama abriu-se em 24 de outubro de 1658. No salão dos guardas do Louvre, a trupe apresentou a tragédia Nicomède, de Corneille, diante do jovem Luís XIV. Em seguida, Molière apresentou a farsa Le Docteur amoureux (O Doutor Apaixonado), que obteve enorme êxito.
A companhia foi tomada sob a proteção de Filipe, Duque de Orleães, irmão do rei. Em 1659, a apresentação de Les Précieuses ridicules (As Preciosas Ridículas) tornou Molière famoso e adorado em Paris. A peça criticava a afetação e o preciosismo dos salões, estabelecendo o tom da sua obra: crítica social através do riso.
Em 1662, Molière casou-se com Armande Béjart, supostamente irmã de Madeleine, mas que na verdade seria sua filha ilegítima — um escândalo que alimentaria rumores maliciosos por toda a sua vida . No mesmo ano, encenou L’École des femmes (A Escola de Mulheres), uma das suas obras-primas, que suscitou a inveja dos adversários e a hostilidade dos devotos.
O maior escândalo da sua carreira foi Tartuffe (Tartufo), apresentado em Versalhes em 1664. A peça, que retratava a hipocrisia religiosa, foi imediatamente interditada por influência da rainha-mãe e do Partido dos Devotos.
Molière respondeu escrevendo Dom Juan (1665), uma obra ainda mais ousada, que também foi proibida.
Apenas em 1669, após a morte da rainha-mãe, Tartufo pôde ser encenada, obtendo estrondoso sucesso.
O Burguês Fidalgo e o Doente Imaginário
Animado pelo apoio do rei, Molière compôs Le Bourgeois gentilhomme (O Burguês Fidalgo, 1670), uma “amável caricatura dos esforços de um novo rico para adquirir boas maneiras”.
Em 1672, apresentou Les Femmes savantes (As Sabichonas), uma comédia de costumes na qual vinha trabalhando desde 1668 .
A sua última comédia, Le Malade imaginaire (O Doente Imaginário), foi apresentada em 1673. Molière, já doente, insistiu em representar o papel principal.
A Morte e a Batalha pela Sepultura
Molière morreu em 17 de fevereiro de 1673, poucas horas após a quarta apresentação de O Doente Imaginário.
Durante a peça, sofreu um colapso; levado para casa, morreu pouco depois.
O cura de Saint-Eustache recusou-se a dar-lhe sepultura cristã, pois Molière morrera sem receber os sacramentos e era ator — uma profissão considerada imoral pela Igreja.
A viúva Armande apresentou uma petição ao arcebispo de Paris, argumentando que Molière havia pedido um sacerdote e morrido “em bons sentimentos cristãos”.
O arcebispo autorizou o sepultamento, mas sem qualquer cerimônia religiosa. Molière foi enterrado à noite, no cemitério de Saint-Joseph, ao pé da cruz. Apenas três eclesiásticos acompanharam o cortejo, e cerca de 1.200 libras foram distribuídas aos pobres.
Quando tentaram exumar o corpo em 1792, abriram o túmulo errado. O túmulo de Molière permanece desconhecido. Em 1817, uma tumba cenotáfia foi erguida no Cemitério do Père-Lachaise, onde permanece até hoje, ao lado do túmulo de La Fontaine.
Curiosidades
O nome “Molière” O pseudônimo foi adotado para poupar a família da vergonha de ter um ator entre os seus. Segundo a tradição, teria sido emprestado de um antigo ator.
A origem do casamento Molière casou-se com Armande Béjart em 1662. Corria o rumor de que Armande erafilha ilegítima de Madeleine Béjart com o Duque de Modena, e que Molière teria casado com a própria filha. Luís XIV respondeu aos boatos tornando-se padrinho do primeiro filho do casal.
A “Guerra Cômica” Após A Escola de Mulheres, Molière envolveu-se numa “guerra cômica” com rivais como Donneau de Visé, Boursault e Montfleury, respondendo às críticas com peças como La Critique de l’École des femmes e L’Impromptu de Versailles.
A pensão do rei Luís XIV concedeu a Molière uma pensão de 6.000 libras e tornou-se patrocinador oficial da companhia — um privilégio sem precedentes para um comediante.
O apoio de Boileau O grande crítico Nicolas Boileau apoiou Molière em várias passagens da sua Art poétique, reconhecendo o seu gênio apesar das polêmicas.
A “Comédie-Ballet” Molière colaborou com Jean-Baptiste Lully em várias comédies-ballets, que misturavam teatro, dança e música — um gênero que ele ajudou a criar e que renovou o espetáculo cortesão.
A comparação com Chaplin O crítico britânico observou que a frescura da visão de Molière é tão grande que Charlie Chaplin, séculos depois, foi comparado a ele.
Considerações Finais
Molière foi, como procurei mostrar, muito mais do que um comediante.
Foi um crítico social implacável, um renovador da forma teatral e um observador da alma humana que utilizou o riso como instrumento de verdade.
A sua vida, marcada por escândalos, perseguições e um sucesso extraordinário, é um testemunho de que a arte pode desafiar o poder sem deixar de ser amada.
A sua morte, digna de uma tragédia, e a batalha pela sua sepultura revelam o quanto a sua obra incomodava os poderosos — e o quanto continua a incomodar, porque as hipocrisias que ele ridicularizou nunca desapareceram.
Pesquisa e redação: Ivair Ximenes Lopes
Fontes de Referência
L&PM Editores – Vida & Obra: Molière
Historia National Geographic – Cómo Molière conquistó al Rey Sol a golpe de ingenio
Prefeitura de Porto Alegre – Resumo “O Doente Imaginário”
Archive.org – Vie de J.-B. P. Molière (documento original sobre a morte e sepultura)
University of California, Berkeley – Sections: Molière
Wikisource – Encyclopædia Britannica, Ninth Edition (registro de La Grange)
Britannica – Sganarelle | play by Molière
Britannica – Molière | Plays, Tartuffe, Dom Juan, Misanthrope, & Facts
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). “Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.
A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.
No Brasil, no simbolismo, apenas uma Federação e duas Confederações representam potências reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.
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