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Edmund Lee Gettier III

Edmund Lee Gettier III

Ao longo dos meus anos de estudo sobre a teoria do conhecimento, sempre me impressionou como um único artigo de três páginas pode abalar os alicerces de uma disciplina inteira.

Edmund Gettier é, talvez, o exemplo mais extremo disso na história da filosofia: um homem cuja reputação repousa quase inteiramente sobre um breve texto publicado em 1963, que expôs uma falha fundamental na definição clássica de conhecimento e desencadeou um debate que se estende por mais de seis décadas.

A sua trajetória é um testemunho de que, por vezes, uma ideia precisa de poucas palavras para mudar o curso do pensamento. Neste artigo, convido o leitor a conhecer a vida, a obra e o legado desse filósofo que, com um punhado de páginas, redefiniu a epistemologia contemporânea.

Biografia de Edmund Lee Gettier III

Origens e Formação

Edmund Lee Gettier III nasceu em 31 de outubro de 1927 em Baltimore, Maryland, nos Estados Unidos. Filho de uma família americana, desde cedo demonstrou inclinação para os estudos filosóficos. Em 1949, obteve o título de Bacharel em Artes (B.A.) pela Universidade Johns Hopkins.

Em seguida, ingressou na Universidade Cornell, onde completou seu doutorado em filosofia em 1961. Sua tese de doutorado, intitulada “Bertrand Russell’s Theories of Belief” (As Teorias da Crença de Bertrand Russell), foi orientada por Norman Malcolm, um filósofo influenciado pelo pensamento de Ludwig Wittgenstein. Na Cornell, Gettier também foi aluno de Max Black, outro importante filósofo da linguagem ordinária.

Carreira Acadêmica

Gettier iniciou sua carreira docente em 1957, na Universidade Wayne State, em Detroit, Michigan. Ali permaneceu por uma década, progredindo de instrutor a professor assistente e, posteriormente, a professor associado. Seus colegas na Wayne State incluíam filósofos de destaque como Alvin Plantinga e Héctor-Neri Castañeda.

Durante o ano acadêmico de 1964-1965, Gettier foi bolsista de pós-doutorado Mellon na Universidade de Pittsburgh.

Em 1967, foi contratado pela Universidade de Massachusetts Amherst (UMass Amherst), como parte de um esforço do departamento para construir um programa de doutorado de primeira linha. Foi promovido a professor titular em 1972 e permaneceu na UMass pelo resto de sua carreira, aposentando-se e tornando-se Professor Emérito em 2001.

Morte

Edmund Gettier faleceu em 23 de março de 2021, aos 93 anos, em decorrência de complicações causadas por uma queda.

A Obra: O Artigo que Mudou a Epistemologia

O Contexto

Em 1963, Gettier publicou um breve artigo de três páginas na revista Analysis, intitulado “Is Justified True Belief Knowledge?” (A crença verdadeira justificada é conhecimento?). Na época, ele lecionava na Wayne State University e, segundo relatos, seus colegas o incentivaram a publicar suas ideias para cumprir as exigências administrativas da instituição.

O artigo foi escrito de forma direta e concisa, mas seu impacto foi imediato e duradouro.

O Problema de Gettier

O alvo de Gettier era a definição clássica de conhecimento, que remonta ao diálogo Teeteto de Platão e era aceita pela maioria dos filósofos até então. Segundo essa definição, para que alguém saiba que uma proposição é verdadeira, três condições devem ser satisfeitas:

  1. A proposição deve ser verdadeira.

  2. A pessoa deve acreditar na proposição.

  3. A pessoa deve ter justificativa (boas razões) para acreditar nela.

Gettier demonstrou, por meio de dois contraexemplos, que essas três condições, embora necessárias, não são suficientes. Ou seja, é possível que uma pessoa tenha uma crença verdadeira e justificada, mas que, ainda assim, não possua conhecimento — porque a verdade de sua crença se deveu a uma coincidência ou a um acaso.

Seus contraexemplos envolviam personagens chamados Smith e Jones e situações envolvendo uma oferta de emprego e um carro. A partir deles, Gettier demonstrou que a definição tripartida de conhecimento era insuficiente, inaugurando o que ficou conhecido como o “Problema de Gettier” (ou Gettier problem).

O Legado do Artigo

A repercussão do artigo foi imensa. As respostas dos epistemólogos ao longo dos anos ao “Problema de Gettier” preenchem muitos volumes nas bibliotecas de filosofia. O filósofo David Lewis chegou a afirmar que as teorias filosóficas raramente são refutadas de forma conclusiva — e que Gödel e Gettier podem ter conseguido. Já Alvin Plantinga, que foi colega de Gettier na Wayne State, escreveu:

“Knowledge is justified true belief: so we thought from time immemorial. Then God said, ‘Let Gettier be’; not quite all was light, perhaps, but at any rate we learned we had been standing in a dark corner.”
(O conhecimento é crença verdadeira justificada: assim pensávamos desde tempos imemoriais. Então Deus disse: ‘Haja Gettier’; não foi exatamente toda a luz, mas pelo menos aprendemos que estávamos em um canto escuro.)

O “Problema de Gettier” tornou-se um dos debates mais fecundos da filosofia contemporânea, gerando inúmeras tentativas de reformular a definição de conhecimento — seja acrescentando uma quarta condição, como a “indefeasibilidade” ou a “ausência de premissas falsas”, seja adotando abordagens alternativas, como a teoria da “verdade-rastreamento” de Robert Nozick.

Curiosidades sobre Edmund Gettier

1. Um Artigo, Uma Carreira

Gettier publicou apenas dois artigos e uma resenha ao longo de toda a sua carreira, todos na década de 1960. Há especulações sobre um terceiro artigo traduzido e publicado em espanhol em alguma revista centro-americana, mas sua existência não foi confirmada.

2. O “Índice de Significância”

O filósofo Alvin Plantinga cunhou a expressão razão de significância” (significance ratio) para descrever a relação entre o número de páginas escritas em resposta ao artigo de Gettier e o tamanho do próprio artigo. Nas palavras de Plantinga: “Nunca tantos aprenderam tanto com tão poucas páginas”.

3. Surpreso com o Impacto

Ninguém ficou mais surpreso com a repercussão de seu artigo do que o próprio Gettier. Ele nunca se envolveu seriamente com as tentativas de “resolver” o problema que criou, preferindo dedicar sua energia filosófica à lógica e à semântica.

4. Atraído por Wittgenstein

Gettier era originalmente atraído pelas ideias do filósofo Ludwig Wittgenstein. Essa influência pode ter contribuído para sua abordagem precisa e seu foco em contraexemplos.

5. Métodos Inovadores em Lógica

Após mudar-se para a UMass Amherst, Gettier dedicou-se ao ensino de lógica e semântica, desenvolvendo novos métodos para encontrar e ilustrar contramodelos em lógica modal, bem como semânticas simplificadas para várias lógicas modais.

Legado

O legado de Edmund Gettier é singular na história da filosofia. Diferentemente de outros grandes filósofos, sua fama repousa sobre uma única obra — mas uma obra que abalou os alicerces da teoria do conhecimento e gerou um campo inteiro de investigação.

O “Problema de Gettier” continua a desafiar epistemólogos e a inspirar novas teorias sobre a natureza do conhecimento. A pergunta que ele levantou — “O que mais é necessário, além de crença verdadeira e justificada, para que possamos dizer que alguém realmente sabe algo?” — permanece em aberto, e as respostas propostas ao longo das últimas décadas são um testemunho da fertilidade de sua provocação.

Gettier nos ensinou que a filosofia não precisa de volumes para ser revolucionária. Às vezes, três páginas bem escritas são suficientes para reorientar uma disciplina inteira.

Pesquisa e Redação Ivair Ximenes Lopes

Fontes

  • In Memoriam: Edmund L. Gettier III (1927–2021) – University of Massachusetts Amherst, Department of Philosophy
  • Edmund Gettier – Wikipedia, the free encyclopedia
  • Edmund Gettier – Wikiwand
  • Edmund Gettier – Wayback Machine (archive of Wikipedia entry)
  • In Memoriam: Edmund L. Gettier III (1927–2021) – Wayback Machine (archive of UMass page)
  • Edmund Gettier – Viquipèdia (Catalan Wikipedia)
  • Edmund Gettier – Wikipedia (Italian)

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MM Ximenes

"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.

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A Maçonaria Regular

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A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.

 No Brasil, no simbolismo, apenas três "potências" são reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.

 A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.

 Uma Loja regular deve estar vinculada a uma das três potências reconhecidas no Brasil e seguir normas específicas de regularidade.

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A maçonaria regular no Mato Grosso do Sul é composta pelo Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul (GOB-MS) (GOB), Grande Loja Maçônica do Estado do Mato Grosso do Sul (GLEMS) (CMSB) e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso do Sul (GOMS) (COMAB).

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