Martha Nussbaum: A Filósofa que Trouxe as Emoções para o Coração da Justiça
Introdução
Em um cenário filosófico frequentemente dominado por abstrações e linguagem técnica, poucas vozes foram tão audaciosas e influentes quanto a de Martha C. Nussbaum. Descrita pelo New York Times como “a filósofa mais proeminente dos Estados Unidos”, Nussbaum transcendeu as fronteiras tradicionais da disciplina para explorar raça, gênero, sexualidade, o envelhecimento, a natureza do mal e a raiva coletiva na política. Com mais de duas dúzias de livros e mais de quinhentos artigos, ela defende com fervor que a filosofia deve ser útil — não esotérica — e que os filósofos deveriam ser, antes de tudo, “advogados da humanidade”.
Juventude e Educação: A Formação de uma Mente Inquieta
Martha Craven Nussbaum nasceu em 6 de maio de 1947, em Nova York, no seio de uma família abastada da elite WASP (branca, anglo-saxônica e protestante) da Costa Leste. Seu pai, George Craven, era um advogado da Filadélfia; sua mãe, Betty Warren, uma designer de interiores e dona de casa.
A formação inicial de Nussbaum foi marcada por um ambiente intelectual exigente. Seu interesse pela filosofia foi despertado ao ler Platão, ainda na adolescência. Estudou teatro e literatura clássica na Universidade de Nova York (NYU), onde se graduou em 1969. Posteriormente, ingressou na Universidade Harvard, onde obteve o mestrado (1971) e o doutorado (1975) em Filologia Clássica. Em sua própria descrição, recebeu “uma educação maravilhosamente tradicional dos clássicos gregos e romanos, tanto em língua quanto em literatura, bem como em história e arqueologia”.
Carreira Acadêmica: Uma Trajetória entre Controvérsias e Triunfos
A carreira de Nussbaum começou com uma promessa e um baque. Sua tese de doutorado sobre Aristóteles lhe rendeu uma posição de prestígio na Society of Fellows de Harvard — onde foi a primeira mulher a ser admitida. No entanto, sua trajetória em Harvard foi abruptamente interrompida quando o Departamento de Clássicos lhe negou a estabilidade (tenure) em 1982. Nussbaum sempre atribuiu essa decisão, ao menos em parte, ao machismo institucional, destacando a “falta de apoio para mães” e o “assédio sexual” que sofreu na academia.
Após passagens por Harvard, Wellesley, Brown e Oxford, ela se estabeleceu definitivamente na Universidade de Chicago, onde ingressou em 1995. Atualmente, é Ernst Freund Distinguished Service Professor of Law and Ethics, com nomeações conjuntas na Faculdade de Direito e no Departamento de Filosofia, além de ser associada nos departamentos de Clássicos, Divindade e Ciência Política.
Principais Contribuições Filosóficas
O pensamento de Nussbaum é vasto e se desdobra em quatro grandes áreas, interconectadas por um fio condutor: a defesa da vida humana em sua concretude, vulnerabilidade e dignidade.
1. A Abordagem das Capacidades
A contribuição mais conhecida e influente de Nussbaum é a Abordagem das Capacidades (Capabilities Approach), desenvolvida em colaboração com o economista Amartya Sen. Ela argumenta que a justiça social não pode se limitar a medir a riqueza material ou a distribuição de recursos (como faz o utilitarismo), mas deve se perguntar: “O que cada pessoa é capaz de ser e fazer?”. A pobreza é reinterpretada como privação de capacidade, e não apenas como falta de dinheiro.
Nussbaum elaborou uma lista de dez capacidades centrais que um governo justo deve garantir a todos os seus cidadãos para que possam viver uma vida digna: vida; saúde corporal; integridade corporal; sentidos, imaginação e pensamento; emoções; razão prática; afiliação; outras espécies; lazer; e controle sobre o próprio ambiente (político e material).
2. As Emoções e a Vida Política
Inspirada pelos estoicos, Nussbaum sustentou que as emoções não são impulsos irracionais, mas julgamentos de valor sobre o que é importante para o nosso bem-estar. O amor, a compaixão, o medo, a raiva e a vergonha têm uma estrutura cognitiva e podem ser avaliados moralmente. Em suas próprias palavras, “a questão política é sempre sentimental”; a tarefa não é eliminar as emoções da política, mas distinguir quais delas promovem a justiça (como a compaixão) e quais a corroem (como a raiva vingativa e o medo irracional).
3. Filosofia do Direito e Intolerância
Em livros como Hiding From Humanity (2004) e From Disgust to Humanity (2010), Nussbaum analisou o papel de emoções negativas como o nojo e a vergonha na formulação de leis. Ela demonstrou que o nojo foi usado historicamente para justificar a perseguição de minorias (homossexuais, judeus, pessoas com deficiência) e argumentou que tal “política do nojo” não tem lugar em uma democracia liberal baseada no princípio do dano (harm principle).
4. Humanidades e Democracia
Nussbaum é uma das mais ferrenhas defensoras do papel das humanidades na formação de cidadãos democráticos. Em Not For Profit (2010), ela argumentou que a educação deve formar pessoas capazes de imaginar a situação do outro, de pensar criticamente e de cultivar a cidadania global — habilidades que a redução pragmática do ensino superior tem ameaçado.
Principais Obras
A produção intelectual de Nussbaum é monumental. A seguir, uma seleção de suas obras mais influentes.
| Obra (Ano) | Descrição |
|---|---|
| The Fragility of Goodness (1986) | Um estudo seminal sobre a vulnerabilidade da vida ética diante da sorte, contrastando o otimismo platônico com a sobriedade trágica dos gregos |
| Love’s Knowledge (1990) | Defende que a literatura, com sua narrativa e imaginação, é uma forma de conhecimento moral insubstituível |
| The Therapy of Desire (1994) | Um mergulho na filosofia helenística (epicurismo, estoicismo, ceticismo), entendendo-a como uma terapia para as paixões humanas |
| Women and Human Development (2000) | Aplica a Abordagem das Capacidades aos desafios da justiça de gênero em contextos de pobreza e desigualdade |
| Upheavals of Thought (2001) | Sua obra monumental sobre as emoções, desenvolvendo a teoria de que elas são julgamentos de valor |
| Frontiers of Justice (2006) | Expande sua teoria da justiça para três fronteiras negligenciadas: pessoas com deficiência, cidadãos de outras nações e animais não humanos |
| The Clash Within (2007) | Um estudo sobre a democracia e a violência religiosa na Índia, analisando as tensões internas que ameaçam a convivência pacífica |
| Not For Profit (2010) | Um alerta sobre a crise das humanidades na educação, mostrando sua importância crucial para a saúde da democracia |
| Anger and Forgiveness (2016) | Uma análise filosófica da raiva, argumentando que ela é frequentemente “estúpida” e que o perdão transicional é um caminho mais produtivo |
| The Monarchy of Fear (2018) | Um retrato do clima de medo que assola a política contemporânea e uma proposta para substituí-lo pela esperança e pela cooperação |
| Justice for Animals (2023) | Expande a Abordagem das Capacidades para todos os seres sencientes, argumentando que eles têm direito a uma vida digna e que a crueldade animal é uma questão de justiça |
Prêmios e Reconhecimento
Ao longo de sua carreira, Martha Nussbaum foi agraciada com alguns dos mais prestigiados prêmios do mundo, consolidando seu status como uma das intelectuais mais influentes de nossa era.
| Prêmio (Ano) | Descrição |
|---|---|
| Prêmio Príncipe de Astúrias de Ciências Sociais (2012) | Concedido pela Espanha a “uma das vozes mais inovadoras e influentes da filosofia atual” |
| Prêmio Kyoto (2016) | Frequentemente descrito como o “Prêmio Nobel de Filosofia”, recebido por suas contribuições à justiça global |
| Prêmio Berggruen de Filosofia e Cultura (2018) | Um dos maiores prêmios em filosofia, concedido por suas ideias sobre justiça, emoções e democracia |
| Prêmio Holberg (2021) | Reconhecimento por sua “pesquisa inovadora” e seu compromisso em tornar o conhecimento acessível ao público |
| Prêmio Balzan de Filosofia Moral (2022) | Concedido por seu trabalho inovador na interseção entre filosofia antiga e problemas contemporâneos |
Além disso, Nussbaum recebeu 69 títulos de doutor honoris causa de universidades ao redor do mundo e é membro da Academia Americana de Artes e Ciências, da Academia Britânica e da Sociedade Filosófica Americana.
Curiosidades
Corredora compulsiva: Foi uma atleta dedicada até os 45 anos, praticando apenas corrida. Mesmo depois, continuou com uma rotina de treinos, incluindo natação, para lidar com as lesões.
Ex-atriz e amante de ópera: Antes de decidir pela filosofia, estudou teatro e chegou a atuar por dois anos. É uma entusiasta da ópera e escreveu sobre o compositor Benjamin Britten.
Dois relacionamentos célebres: Foi casada com Alan Nussbaum de 1969 a 1987. Após o divórcio, teve um longo relacionamento com o também jurista e filósofo Cass Sunstein (que durou mais de uma década) e manteve um breve relacionamento com o economista Amartya Sen.
A conversão ao judaísmo e o Bat Mitzvah tardio: Convertida ao judaísmo, ela realizou a cerimônia de Bat Mitzvah aos 61 anos (em 2008), algo incomum, reafirmando seu compromisso com a fé e a tradição.
A tragédia pessoal: Sua única filha, Rachel, faleceu em 2019, aos 49 anos, vítima de uma infecção generalizada. Rachel era advogada e ativista dos direitos animais, e as duas chegaram a coautorar quatro artigos sobre bem-estar animal.
Legado e Morte
Martha Nussbaum continua ativa e produtiva, escrevendo e se posicionando sobre os grandes dilemas contemporâneos. Em 2026, ainda estava plenamente engajada, com previsão de lançamento de seu novo livro, The Republic of Love: Opera, Breath, and Freedom.
Seu legado é duradouro e multifacetado: ela reconfigurou o campo da ética ao colocar a vulnerabilidade humana no centro; deu às emoções o status de objetos legítimos de investigação filosófica; e desenvolveu uma teoria da justiça que é ao mesmo tempo rigorosa e profundamente humana. Ela demonstrou que a filosofia não é uma disciplina isolada em uma torre de marfim, mas uma ferramenta indispensável para a defesa da dignidade humana em todas as suas dimensões.
Autor e pesquisa Ivair Ximenes Lopes
Fontes Citadas
- NUSSBAUM, Martha C. The Fragility of Goodness: Luck and Ethics in Greek Tragedy and Philosophy. Cambridge: Cambridge University Press, 1986. [7†L3-L5].
- NUSSBAUM, Martha C. Love’s Knowledge: Essays on Philosophy and Literature. Oxford: Oxford University Press, 1990. [8†L13].
- NUSSBAUM, Martha C. The Therapy of Desire: Theory and Practice in Hellenistic Ethics. Princeton: Princeton University Press, 1994. [1†L6-L8].
- NUSSBAUM, Martha C. Women and Human Development: The Capabilities Approach. Cambridge: Cambridge University Press, 2000. [1†L24-L25].
- NUSSBAUM, Martha C. Upheavals of Thought: The Intelligence of Emotions. Cambridge: Cambridge University Press, 2001. [1†L10-L11].
- NUSSBAUM, Martha C. Hiding From Humanity: Disgust, Shame, and the Law. Princeton: Princeton University Press, 2004. [1†L28-L29].
- NUSSBAUM, Martha C. Frontiers of Justice: Disability, Nationality, Species Membership. Cambridge: Harvard University Press, 2006. [13†L42-L44].
- NUSSBAUM, Martha C. The Clash Within: Democracy, Religious Violence, and India’s Future. Cambridge: Harvard University Press, 2007. [10†L10-L11].
- NUSSBAUM, Martha C. From Disgust to Humanity: Sexual Orientation and Constitutional Law. Oxford: Oxford University Press, 2010. [1†L10-L11].
- NUSSBAUM, Martha C. Not For Profit: Why Democracy Needs the Humanities. Princeton: Princeton University Press, 2010. [13†L46-L48].
- NUSSBAUM, Martha C. Creating Capabilities: The Human Development Approach. Cambridge: Harvard University Press, 2011. [10†L11-L13].
- NUSSBAUM, Martha C.; LEVMORE, Saul. Aging Thoughtfully: Conversations about Retirement, Romance, Wrinkles, and Regret. Oxford: Oxford University Press, 2017. [10†L14-L16].
- NUSSBAUM, Martha C. The Monarchy of Fear: A Philosopher Looks at Our Political Crisis. New York: Simon & Schuster, 2018. [10†L15-L17].
- NUSSBAUM, Martha C. Justice for Animals: Our Collective Responsibility. New York: Simon & Schuster, 2023. [10†L19-L20].
- NUSSBAUM, Martha C. The Republic of Love: Opera, Breath, and Freedom. 2026. [24†L59-L60].
- Documentos e sítios institucionais:
- “2016 Kyoto Prize Laureates: Martha Craven Nussbaum.” Inamori Foundation. Disponível em: https://www.kyotoprize.org/en/laureates/martha_craven_nussbaum/. [14†L1-L56].
- “2021 Holberg Prize: Martha C. Nussbaum.” Holberg Prize. Disponível em: https://holbergprize.org/laureates/holbergprize/martha-c-nussbaum/. [9†L1-L52].
- “Balzan Prize 2022: Martha C. Nussbaum.” Fondazione Internazionale Premio Balzan. Disponível em: https://www.balzan.org/en/prizewinners/martha-c-nussbaum. [1†L37-L39].
- “Martha C. Nussbaum – Faculty Profile.” University of Chicago Law School. Disponível em: https://www.law.uchicago.edu/faculty/nussbaum. [13†L1-L63].
- “Martha Nussbaum – Britannica Academic.” Encyclopaedia Britannica. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Martha-Nussbaum. [7†L1-L46].
- Nussbaum, Martha C. “Martha C. Nussbaum CV.” University of Chicago. [24†L62-L63].
- “Príncipe de Asturias Award for Social Sciences 2012 – Martha Nussbaum.” Fundación Princesa de Asturias. Disponível em: https://www.fpa.es/en/social-sciences/. [6†L3-L28].
- Artigos e entrevistas:
- Atica, Pablo. “Como Martha Nussbaum firmou-se como a mais proeminente pensadora americana.” Época (O Globo), 9 ago. 2018. Disponível em: https://oglobo.globo.com/epoca/como-martha-nussbaum-firmou-se-como-mais-proeminente-pensadora-americana-22953483. [11†L1-L220].
- Keller, B. (2002). “The Philosopher of the Human Heart.” The New York Times Magazine. [20†L155-L160].
Enciclopédias e verbetes:
“Oxford Reference: Martha Nussbaum.” Oxford University Press. Disponível em: https://www.oxfordreference.com/display/10.1093/oi/authority.20110803100242426. [8†L1-L18].
“Treccani: Nussbaum, Martha.” Istituto della Enciclopedia Italiana. Disponível em: https://www.treccani.it/enciclopedia/martha-nussbaum/. [10†L1-L22].
“Wikipedia: Martha Nussbaum.” Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Martha_C._Nussbaum. [12†L1-L458].

“Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau.
Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.












