O Mito de Er é a última palavra de Platãosobre a justiça, a virtude e o destino da alma humana. Mais do que um apêndice ou uma fábula decorativa, ele é a coroação de todo o edifício filosófico construído ao longo dos dez livros da obra.
Neste artigo, convido o leitor a percorrer comigo as paisagens do além-mundo descritas por Platão e a compreender por que essa narrativa, há mais de dois milênios, continua a nos confrontar com a pergunta mais fundamental de todas: como devemos viver?
O Mito de Er encontra-se noLivro X da República de Platão (614b-621b). Er é um guerreiro panfílio, filho de Armênio, morto em batalha.
Quando os corpos dos soldados caídos são recolhidos, dez dias após a morte, o corpo de Er ainda está incorrupto. Dois dias depois, já na pira funerária, ele revive e conta o que viu no além-mundo.
A narrativa de Er é uma viagem escatológica. Sua alma, ao deixar o corpo, viaja com outras almas até umlugar divino com duas aberturas na terra e duas no céu. Ali presidem juízes que, após se pronunciarem, decidem o destino de cada alma: as justas seguem para a abertura da direita, que sobe ao céu; as injustas seguem para a da esquerda, que desce.
As almas justas são recompensadas, as injustas são castigadas. As almas injustas pagam a pena por quanto houverem feito em vida, a fim de purificarem a alma.
Após mil anos de purificação e recompensa, as almas retornam a uma planície, onde lhes são apresentados inúmeros modelos de vida — de animais a seres humanos. Cada almadeve escolher o seu próximo destino. A escolha, porém, não é aleatória: a alma que escolhe uma vida justa será feliz; a que escolhe uma vida injusta sofrerá as consequências.
O mito enfatiza que a responsabilidade é de quem escolhe: “a virtude não tem dono; cada um a terá mais ou menos conforme a honra ou desonra que der a si mesmo”.
O Mito de Er é uma das passagens mais comentadas do corpus platônico. Nele, Platão sintetiza, em forma de imagem, sua filosofia, poesia, ciência e religião. A riqueza simbólica do mito é imensa:
Er: O guerreiro que retorna do Hades é o mensageiro, a testemunha que traz aos vivos a verdadesobre o que aguarda os mortos. Sua ressurreição é umsinal de que a alma é imortal e de que a virtude tem repercussões para além da vida.
O Julgamento: As almas são julgadas por juízes divinos. As justas sobem ao céu; as injustas descem à terra. A justiça, portanto, não é apenas uma virtude terrena; ela tem consequências cósmicas.
O Período de Mil Anos: O ciclo de recompensa e purificação dura mil anos. Esse período simboliza a purificação necessária para que a alma esteja pronta para uma nova encarnação.
A Escolha da Alma: O momento central do mito é a escolha da vida futura. Diante das almas, são dispostos todos os modelos de vida possíveis.
Cada alma escolhe o seu destino. A escolha é livre e responsável: a alma que escolhe a justiça será feliz; a que escolhe a injustiça sofrerá. Como observa a comentadora Annie Larivée, a ideia mais notável do mito é a responsabilidade que cada alma tem na escolha da sua própria encarnação. O mito desperta na alma a capacidade de se moldar e se transformar.
Por que Platão, após quase trezentas páginas de argumentação filosófica, escolhe encerrar A República com ummito? A pergunta tem dividido comentadores. Alguns veem o Livro X como um apêndice desconectado. Outros, como a comentadora Julia Annas, chegam a acusá-lo de conter “um dos poucos argumentos realmente embaraçosamente ruins em Platão”.
No entanto, descartar o mito como um acréscimo ou um erro seria ignorar sua função essencial.
O Mito de Er não é um argumento filosófico no sentido estrito, mas uma “mentira útil” (pseudos) — uma narrativa que, embora não sejaverdadeira no sentido factual, é verossímil e benéfica. Ela atua onde a razão pura não consegue alcançar: na persuasão da alma para a justiça.
Conclusão Dramática: Ele encerra a obra com uma imagem poderosa, que fixa na mente do leitor a mensagem central: a justiça vale a pena, mesmo que suas recompensas não sejam visíveis nesta vida.
Exortação Moral: O mito é umprotréptico — umdiscurso que exorta o leitor a agir. Não basta compreender a justiça; é preciso praticá-la. A escolha da vida futura no mito é uma metáfora para a escolha que cada um de nós faz a cada momento: viver de acordo com a virtude ou entregar-se ao vício.
Fundamento Teológico: O mito oferece uma teodiceia — uma justificação da ordem divina. Se a justiça nem sempre é recompensada nesta vida, ela o será na próxima. O universo, para Platão, é moralmente ordenado.
O Mito de Er é uma das mais influentes narrativas escatológicas da tradiçãoocidental. Durante séculos, moldou o pensamento religioso, filosófico e científico. Sua visão de umjulgamento pós-morte, de recompensas e punições, e da escolha da vida futura ecoa em tradições que vão do cristianismo ao hinduísmo.
Mas seu legado mais profundo talvez seja a afirmação da responsabilidade humana.
No mito de Er, a alma não é vítima do destino; ela é autora do seu próprio destino. A escolha que fazemos — pela justiça ou pela injustiça, pela virtude ou pelo vício — determina não apenas nossa felicidade nesta vida, mas também nosso destino após a morte.
Como observa um estudioso, o mito “abre umespaço para a liberdade e a responsabilidade políticas na polis comum e corrente”. Ele nos lembra que a filosofia não é um exercício teórico, mas uma prática de vida. O Mito de Er nos convida a cuidar da alma, a refletir sobre nossas escolhas e a viver de tal forma que, quando chegar a nossa hora, possamos, como Er, retornar com a certeza de que escolhemos bem.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). “Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.
A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.
No Brasil, no simbolismo, apenas uma Federação e duas Confederações representam potências reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.
A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.
Uma Loja regular deve estar vinculada a uma das três potências reconhecidas no Brasil e seguir normas específicas de regularidade.
Maçonaria Regular MS
A maçonaria regular no Mato Grosso do Sul é composta pelo Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul (GOB-MS) (GOB), Grande Loja Maçônica do Estado do Mato Grosso do Sul (GLEMS) (CMSB) e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso do Sul (GOMS) (COMAB).