Trajano (53 – 117 d.C.): O Imperador que Levou Roma ao Apogeu e Foi Aclamado o “Melhor Governante”
Introdução (Marco Úlpio Trajano)
Confesso que, antes de mergulhar na figura de Trajano, eu o via como uma figura um tanto opaca — um bom imperador, sem dúvida, mas ofuscado pelo brilho de Augusto ou pela complexidade de Marco Aurélio. No entanto, à medida que avancei na pesquisa, deparei-me com um personagem que surpreende por sua humanidade, sua energia inesgotável e sua popularidade inigualável. Ao contrário de muitos governantes que impuseram seu poder pelo terror, Trajano conquistou o respeito e a afeição do Senado, do exército e do povo, sendo declarado ainda em vida Optimus Princeps — “o melhor governante”.
Ele foi o primeiro romano nascido fora da Itália a vestir a púrpura imperial, prova viva da integração e da vitalidade das elites provinciais.
Sua história — a de um militar brilhante que também construía estradas, mercados e pontes, a de um conquistador que chorou por seus soldados feridos e os socorreu com suas próprias vestes, a de um imperador que, no leito de morte, declarou à sua esposa “Verei vocês em breve, mas com um nome mais nobre e imortal” — é, a meu ver, uma das mais humanas e edificantes da história de Roma.
Neste artigo, convido o leitor a conhecer a trajetória desse homem que, no apogeu do Império Romano, encarnou como nenhum outro o ideal do governante justo, guerreiro e construtor.
Biografia
Origens e Primeiros Anos: O Primeiro Imperador Provincial
Marco Úlpio Trajano nasceu na Itálica, uma cidade romana situada na província da Hispânia Bética (atual Santiponce, província de Sevilha, Espanha), em 18 de setembro do ano 53 d.C.. Sua família, de origem local turdetana, ascendera socialmente ao longo das gerações e já possuía cidadania romana. Seu avô, Marco Trahio, servira como pretor, e seu pai — também chamado Marco Úlpio Trajano — foi o primeiro da linhagem a ingressar na carreira senatorial, alcançando o consulado e o governo da Síria, após ter comandado uma legião ao lado do imperador Vespasiano durante a guerra contra os judeus. A origem da família, possivelmente da região turdetana, foi preservada em mosaicos do foro velho de Itálica, nos quais se menciona um pretor chamado Marco Trahio, que pode ter sido um ancestral distante do imperador.
Desde a juventude, Trajano foi educado nos valores militares e seguiu os passos do pai, cumprindo todas as etapas da carreira senatorial — o cursus honorum. Serviu durante dez anos como tribuno no exército e atuou como questor, pretor e legado. Com apenas 24 anos, já comandava uma legião na Hispânia. Em 89 d.C., foi enviado à Germânia para ajudar a conter uma revolta contra o imperador Domiciano; dois anos depois, foi nomeado cônsul. Sua experiência militar e sua popularidade entre as tropas seriam a base de seu poder.
Adoção por Nerva e Ascensão ao Trono
O reinado de Domiciano (81-96 d.C.) terminou com seu assassinato, perpetrado por uma conspiração palaciana. O idoso senador Nerva foi então escolhido como imperador pelo Senado, mas sua autoridade era frágil: os comandantes militares, em particular as legiões do Danúbio, não aceitavam plenamente sua liderança. Para garantir a estabilidade e apaziguar os ânimos, Nerva, em 97 d.C., adotou Trajano — então governador da Germânia Superior — como seu filho e sucessor, concedendo-lhe o título de César e associando-o formalmente ao poder.
No início do ano seguinte, 27 de janeiro de 98 d.C., Nerva morreu. Trajano, que se encontrava ainda na Germânia, foi proclamado imperador. Contudo, em vez de se apressar para Roma, permaneceu por quase um ano inteiro nas fronteiras do Reno e do Danúbio, reorganizando a defesa das províncias e consolidando sua autoridade militar. Quando finalmente chegou à capital, em 99 d.C., fez questão de demonstrar humildade e respeito pelas instituições: apresentou-se ao prefeito do pretório, entregou-lhe a espada e disse: “Toma esta espada e, se eu governar bem, usa-a por mim; se não, usa-a contra mim.”
As Grandes Conquistas: Dácia e Oriente
O reinado de Trajano foi marcado por duas grandes campanhas militares que expandiram o Império Romano à sua máxima extensão histórica.
As Guerras Dácias (101-102 e 105-106 d.C.)
O reino da Dácia, situado ao norte do Danúbio (atual Romênia), era governado pelo hábil e ambicioso rei Decébalo. Cerca de dez anos antes, Decébalo obtivera do imperador Domiciano um tratado humilhante, que incluía o pagamento de um vultuoso subsídio anual — mancha que Trajano estava decidido a apagar. Além disso, as ricas minas de ouro e prata da Dácia eram uma tentação para o erário romano.
Primeira Campanha (101-102 d.C.) : Trajano mobilizou doze legiões (cerca de 150.000 homens), cruzou o Danúbio por uma ponte de barcas projetada pelo engenheiro Apolodoro de Damasco e obteve vitórias em Tapae e Adamclisi. Apesar das pesadas baixas — a ponto de Trajano ter rasgado as próprias vestes para fazer ataduras para seus feridos —, a campanha obrigou Decébalo a pedir a paz.
Segunda Campanha (105-106 d.C.) : Quando Decébalo violou o tratado, Trajano voltou com força redobrada. Cruzou o Danúbio por uma ponte de pedra de extraordinárias dimensões (também projetada por Apolodoro), arrasou a capital, Sarmizegetusa, e anexou a Dácia como província romana, extraindo dela um imenso tesouro. O ouro e a prata dácios seriam a principal fonte de financiamento das grandiosas obras públicas que se seguiram em Roma.
A Guerra contra os Partos (113-117 d.C.)
Com o tesouro abastecido e a moral do exército altíssima, Trajano voltou seus olhos para o Oriente, contra o velho inimigo parto. O objetivo era resolver a questão da Armênia, reino-tampão tradicionalmente disputado entre Roma e os partos. Em 113 d.C., lançou a ofensiva:
Armênia: foi anexada como província.
Assíria e Mesopotâmia: os exércitos de Trajano conquistaram Nísibis e Babilônia, ocuparam Selêucia e Ctesifonte (a capital parta) e alcançaram o golfo Pérsico — façanha que nenhum outro general romano repetiria.
O imperador chegou a declarar, emocionado, que as legiões haviam alcançado um território superior ao conquistado por Alexandre. Contudo, a prolongada ocupação mostrou-se impossível; revoltas na Mesopotâmia e nas províncias recém-criadas começaram a minar o domínio romano.
A Morte e o Fim do Sonho Oriental
No verão de 117 d.C., já debilitado por uma doença (provavelmente um acidente vascular cerebral ou edema), Trajano decidiu retornar a Roma. A comitiva imperial parou em Selinonte, na Cilícia (atual Gazipaşa, Turquia). Ali, em 8 de agosto de 117 d.C., com 63 anos de idade, Marco Úlpio Trajano faleceu. Diz a tradição que, nos últimos momentos, declarou à sua esposa, Plotina: “Verei vocês em breve, mas com um nome mais nobre e imortal”. Seus restos mortais foram transladados para Roma, onde receberam honras divinas e foram depositados na base da Coluna de Trajano.
Feitos e Conquistas
O legado de Trajano é vasto e multifacetado, consolidando-o como um dos maiores governantes da história:
Extensão máxima do Império Romano: Sob seu governo, o império atingiu sua maior extensão territorial, ultrapassando o Danúbio (com a província da Dácia) e penetrando na Mesopotâmia. O Mediterrâneo tornou-se inteiramente romano, e as fronteiras chegaram à Armênia, à Assíria e à Mesopotâmia.
Conquista e romanização da Dácia: O ouro dácico financiou as obras públicas e consolidou o tesouro imperial; a província tornou-se um pilar do império.
O Fórum de Trajano e o mercado: O complexo monumental (fórum, coluna, bibliotecas e mercado) transformou a paisagem urbana de Roma e continua a ser um dos mais impressionantes testemunhos da arquitetura romana.
Infraestrutura viária: Trajano construiu estradas em todo o império, notadamente a Via Trajana, na Itália, e a ponte de pedre sobre o Danúbio, ambas projetadas por Apolodoro de Damasco.
Política social (alimenta): Estabeleceu um sistema de crédito fundiário (os alimenta) para ajudar as crianças pobres da Itália — o primeiro programa de bem-estar social patrocinado pelo Estado na história.
Título de Optimus Princeps: Foi o primeiro imperador a receber oficialmente do Senado este título, que expressava o reconhecimento de sua bondade, eficiência e justiça.
Ponte do Danúbio: Uma obra-prima da engenharia romana, com 20 pilares de pedra que sustentavam uma estrutura de madeira, permitiu o controle definitivo da margem norte.
Curiosidades
O primeiro imperador “estrangeiro”: Trajano foi o primeiro romano nascido fora da Itália a alcançar a púrpura imperial — um feito que demonstrava a crescente integração das elites provinciais e a vitalidade do império.
Optimus Princeps: O Senado concedeu-lhe esse título em 114 d.C. em reconhecimento ao seu governo justo e às suas vitórias. A inscrição permaneceu em seus monumentos.
A ponte secreta de Apolodoro: Na segunda campanha dácica, a ponte de pedra construída por Apolodoro foi planejada com tanta precisão que as tropas podiam atravessar o Danúbio em menos de uma hora — um feito de engenharia militar sem precedentes.
O imperador que se fez pastor: Trajano não usava diadema ou roupas vistosas fora das cerimônias. Preferia a lã simples e passeava pela cidade sem guarda-costas visíveis, reforçando a imagem de “primeiro cidadão”.
A biblioteca dupla: O Fórum de Trajano abrigava duas bibliotecas monumentais (grega e latina), que continham milhares de rolos e eram acessíveis ao público — um centro de saber inédito no mundo antigo.
O Colosseum dos mercadores: O Mercado de Trajano, construído na encosta do monte Quirinal, era uma estrutura de tijolo e concreto com seis andares e mais de 150 tabernas — uma espécie de antigo shopping center que abrigava lojas, escritórios e até um centro de distribuição de alimentos.
A inscrição desaparecida: A Coluna de Trajano originalmente trazia no topo uma estátua de Trajano (substituída no século XVI por uma de São Pedro). Na base, uma inscrição em bronze dourado resumia seus feitos.
O legado invisível: As minas de ouro da Dácia, abertas por Trajano, continuariam a produzir até o século III; o metal extraído ajudou a cunhar moedas que circularam por todo o Mediterrâneo.
Obras de Trajano
Trajano não foi um escritor, mas a propaganda artística e arquitetônica de seu reinado foi tão poderosa quanto qualquer texto:
A Coluna de Trajano: Monumento em mármore de 38 metros, ricamente esculpido com uma espiral contínua de 155 cenas que narram as guerras dácicas. Além de propaganda, servia como cenotáfio — as cinzas do imperador foram depositadas na base.
O Fórum de Trajano: O maior fórum imperial de Roma, composto por pórticos, basílica, bibliotecas e o mercado — uma obra-prima da arquitetura e da engenharia.
O Mercado de Trajano: Um complexo de tijolo e concreto de seis andares, com mais de 150 lojas e escritórios, esculpido na encosta do monte Quirinal.
Obras de Engenharia: A ponte do Danúbio, a Via Trajana (estrada que ligava Brindisi ao Adriático) e o sistema de estradas na Hispânia.
Fontes Antigas
Plínio, o Jovem: Seu Panegírico de Trajano, pronunciado em 100 d.C., é o elogio oficial que estabeleceu a imagem do “bom imperador” em contraposição ao “mau tirano” Domiciano.
Dion Cássio: A História Romana dedica vários livros a Trajano, narrando suas guerras e seu governo a partir de fontes hoje perdidas.
A Coluna de Trajano: A própria coluna é uma fonte histórica autônoma; os baixos-relevos transmitem informações precisas sobre o exército, as vestimentas, as armas e as táticas.
Obras Modernas
Trajano (Julian Bennett, 2001) : Uma das biografias mais completas e acessíveis, baseada na análise das fontes antigas e da arqueologia.
Trajano: optimus princeps (Javier Arce, 1998) : Publicado pela Real Academia de la Historia, aborda a construção da imagem do imperador.
Trajano, o Imperador que Fez Roma Grande (documentário da History Channel, 2005) : Reconstitui o reinado, a conquista da Dácia e as obras públicas.
Ponte do Danúbio: a engenharia que domou um rio (National Geographic, 2009) : Episódio que explora a ponte de Apolodoro.
Trajano: a glória e o martírio (romance de Santiago Posteguillo, 2008) : Parte da trilogia Africanus, narra as campanhas dácicas e a rivalidade com Decébalo, com grande sucesso de público na Espanha.
Considerações Finais
Ao final desta pesquisa, fica evidente que Trajano foi uma das figuras mais extraordinárias e humanas da história imperial. Herdou um império em crise e o transformou na maior potência mundial; conquistou territórios que nenhum imperador antes havia sequer sonhado; mas, ao contrário de muitos conquistadores, jamais esqueceu o bem-estar de seus súditos. Sua maior obra talvez tenha sido a reconciliação entre a espada e a toga — entre o imperador-soldado e o primeiro cidadão, entre o conquistador e o benfeitor. Em sua morte, o Senado lhe concedeu o título de Divus Traianus. Mas o que realmente o tornou imortal não foi a deificação — foi a certeza, que ecoou por séculos, de que um homem podia, sim, governar com justiça e bondade. Como escreveu Plínio, o Jovem: “Nem mesmo os deuses são tão fortes quanto ele, mas ninguém é mais justo.”
Pesquisa e redação Ivair Ximenes Lopes
Fontes de Pesquisa
Wikipédia, a enciclopédia livre. “Trajano”. [pt.wikipedia.org]
Wikipédia, a enciclopédia livre. “Campanha dácia de Trajano”. [pt.wikipedia.org]
National Geographic Portugal. “Trajano, o primeiro imperador de Roma de origem provincial”. 21 de outubro de 2021. [www.nationalgeographic.pt]
Real Academia de la Historia | Historia Hispánica. “98 28/i Trajano”. [historia-hispanica.rah.es]
EcuRed. “Trajano”. [www.ecured.cu]
Historia National Geographic. “Trajano, el hispano que se convirtió en emperador de Roma”. [historia.nationalgeographic.com.es]
Historia National Geographic. “Trajano conquista la Dacia, el gran triunfo del emperador”. [historia.nationalgeographic.com.es]
El Debate. “Cinco curiosidades sobre el emperador Trajano, el mejor príncipe romano”. 1 de outubro de 2023. [www.eldebate.com]
Infopédia. “Dinastia Antonina (96 d. C.-192 d. C.)”. [www.infopedia.pt]
Infopédia. “Trajano”. [www.infopedia.pt]
UOL Notícias. “Passeios por relíquias do auge do Império Romano desvendam a Cidade Eterna”. 22 de setembro de 2014. [www.uol.com.br]

“Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
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