O Mestre Instalado
Volveremos nossa atenção para a data de 12 de outubro de 1804, quando da fundação do segundo Supremo Conselho do Mundo, o da França, oriundo dos EUA, com a finalidade de difundir o R∴E∴A∴A∴ na Europa. Denominado, inicialmente, como Rito para os Altos Graus, chegou sem ritual próprio para os três primeiros Graus. O conjunto desses Graus, ainda, não era denominado de Simbolismo, sendo, conhecido, na época, por Lojas Azuis ou Blue Lodges.
Dez dias depois, foi realizada uma Assembleia do Supremo Conselho, também, em Paris, na qual foi fundada a Grande Loja Geral Escocesa, que teve como primeira missão a organização do ritual francês das Lojas Azuis do R∴E∴A∴A∴, que se baseou no ritual da Grande Loja Inglesa dos Antigos (1751), sendo que o Grande Oriente da França praticava o mesmo Rito Escocês da Grande Loja dos Modernos, o que era, na verdade, o Rito Francês ou Moderno. Pouco tempo depois, formalizou-se um acordo entre o GOF e o Supremo Conselho para a prática do R∴E∴A∴A∴.
O G∴O∴F∴, que tinha a decoração de seus Templos baseada no Rito Francês, começou a praticar o R∴E∴A∴A∴ sem fazer as devidas alterações, misturando aspectos desses Ritos, fruto disso, hoje, o R∴E∴A∴A∴ é o mais enxertado do mundo, principalmente, aqui no Brasil, com a ajuda do criador das Grandes Lojas, o Irmão Mário Bhering, que buscou agradar a G∴L∴U∴I∴, a fim de conquistar sua simpatia e reconhecimento.
Em 1816, após momentos conturbados com o Supremo Conselho, o G∴O∴F∴ assumiu a jurisdição de parte do Rito Escocês Antigo e Aceito, decidindo que ficaria com o poder sobre o conjunto dos Graus 1º ao 18º. Essa escolha baseou-se na intenção de dirigir o Rito Escocês Antigo e Aceito com a mesma abrangência simbólica, como já fazia com o Rito Moderno, ou seja, do Grau de Aprendiz ao de Rosa-Cruz. No Rito Moderno, o de Rosa-Cruz é o 7º, e no Escocês Antigo, o 18º. Em 1820, o Grande Oriente reorganizou o R∴E∴A∴A∴, voltando-o para o funcionamento sequencial do Grau de Aprendiz ao de Rosa-Cruz. A esse conjunto de Graus, sob a mesma direção, foi atribuída a denominação de Loja Capitular, presidida, preferencialmente, por um Cavaleiro Rosa-Cruz.
Surge uma nova concepção obediencial no Rito Escocês Antigo e Aceito na França: Lojas Simbólicas, Lojas de Perfeição, Capítulos, obedientes ao G∴O∴F∴; Conselhos Kadosh, Consistórios, Supremo Conselho, obedientes ao Supremo Conselho do Grau 33º. Posteriormente, a Maçonaria Brasileira seguiria esse formato francês, permanecendo assim até o ano da criação das Grandes Lojas, por Bhering, em 1927, quando o Supremo Conselho conseguiu recuperar seu poder nos Graus 4º ao 33º.
Com o surgimento das Grandes Lojas no Brasil, essas tiveram a missão de organizar e coordenar a prática dos três primeiros Graus, então, já chamados de Simbólicos. As modificações produzidas pelo G∴O∴F∴, em 1820, com o Ritual que criou as Lojas Capitulares, não foram desfeitas, sendo incorporadas aos Graus Simbólicos do Rito definitivamente.
Surge, com isso, uma modificação que perdura até os dias de hoje, e muitos não têm conhecimento: o piso do Oriente em desnível com o do Ocidente, próprio das Lojas Capitulares, conforme o Ritual de 1820. Pode-se observar que, no Ritual de 1804, o piso do Templo é todo plano, apenas o Trono do Venerável Mestre era mais elevado e não havia separação com balaustrada.
O Oriente elevado foi criado para simbolizar o Santuário do Grau Rosa-Cruz. O Venerável Mestre, preferencialmente, deveria ter, no mínimo, o Grau 18º, assim como os que tinham assento no Oriente.
O Oriente elevado, jamais fez parte da ritualística dos Graus Simbólicos e, portanto, não deveria ter permanecido na descrição do Templo após o desaparecimento das Lojas Capitulares, pois isso contribuiu para desinformar a respeito do Templo adequado para as Lojas Simbólicas.
Com o surgimento das Grandes Lojas Brasileiras, o Templo das Lojas, que se transferiram do Grande Oriente do Brasil para as Grandes Lojas, antes ajustado para os Graus Capitulares, e alguns, ainda carregados em sua ornamentação de influências do Rito Francês (Moderno), não foi readaptado para o modelo original do Rito Escocês Antigo e Aceito, anterior a 1820, ou seja, o piso plano em toda a extensão.
Após esse introito, passaremos a falar de mais um enxerto no R∴E∴A∴A∴, tema principal desta matéria: a figura do Mestre Instalado. A cerimônia de Instalação do Mestre da Loja é, até, mais antiga do que o próprio Grau de Mestre Maçom, já que, antigamente, quem dirigia a Loja era um eleito entre os Companheiros; não existia o Grau de Mestre Maçom. Posteriormente, surgiria tal Grau. E, com a figura do Past Master (Mestre Instalado) pairava uma dúvida, pois o Grau maior do Simbolismo, sendo o de Mestre Maçom, não poderia aceitar a participação de aludida figura na Cerimônia de Instalação do Mestre da Loja, nem mesmo os que já tivessem ingressado no estudo dos Graus Superiores.
Afinal, o Mestre Instalado é um Grau ou não?
A cerimônia de Instalação do Mestre da Loja remonta ao início do século XVIII, sendo introduzida em toda a Maçonaria, somente, a partir de 1810. Tal cerimônia é anterior à criação do Grau de Mestre Maçom, em 1724, e, somente, efetivado em 1738. O título de Venerável Mestre teve origem nos meados do século XVII, com a transição da Maçonaria Operativa para Especulativa. Deriva da palavra inglesa “Worship”, significando “culto”, “adoração”, “reverência”. Como forma de tratamento, a palavra inglesa “Worshipful”, significa “adorado”, “reverente”, “venerável”. Portanto, “Worshipful Master” significa Venerável Mestre.
Na Alemanha, o Venerável Mestre recebe o nome de “Meister vom Stuhl”, ou seja, Mestre de Cátedra. A Cátedra é o significado mais importante do Veneralato. O Catedrático é mais um doutrinador, um ensinador, um sábio, que inaugura uma nova era de conhecimento, que dá nova visão do mundo e que a ninguém presta obediência doutrinária. Portanto, um Venerável Mestre não pode ser sagrado, e sim, consagrado por uma Comissão de Três Mestres Instaladores, devidamente, nomeada pelo Grão-Mestre.
A palavra instalação é oriunda do latim medieval, “in” e “stallum”, cadeira. Chamamos de Instalação o ato que concede o direito de exercer privilégios de um ofício. Um aspecto importante e específico da Instalação Maçônica é o que dá direito de sagrar homens e objetos. A Instalação do Venerável se dá no Trono de Salomão, na Cadeira do mais Sábio dos Reis, conquistando o mesmo o poder de ungir Maçom, de fazer Maçom.
No Ritual Emulation, existe o chamado Santo Real Arco, criado por volta de 1751, baseado no retorno do povo judeu da Babilônia e em uma antiga lenda sobre a descoberta de um altar, de uma cripta e da Palavra Sagrada. Não chega a ser um Grau em si, embora essa não seja a interpretação de boa parte dos maçons ingleses, mas, sim, uma extensão do Grau de Mestre, tendo ritualística própria, e parte do ritual reservada, apenas, aos “Past Masters”.
Em meio à tentativa de união das Grandes Lojas Inglesas (Modernos e Antigos), isso chegou a ser um impasse. Em 1813, concretizou-se a união dessas Potências, sendo que a Maçonaria Inglesa considerou que, no Simbolismo, existem, apenas, os três Graus conhecidos, porém o Santo Arco Real, nesses, está inserido (vai entender!), embora exista um Supremo Grande Capítulo que o administra separadamente.
No Brasil, até 1928, nem no Rito Moderno nem no R∴E∴A∴A∴, foi realizada qualquer Cerimônia de Instalação. Com o surgimento das Grandes Lojas, o R∴E∴A∴A∴ adotou essa prática, que, anos mais tarde, também, foi imitada pelo G∴O∴B∴. A pedido do Grão-Mestre Álvaro Palmeira, o insigne escritor Nicola Aslan, que, em 1966, havia se desligado das Grandes Lojas e se filiado ao G∴O∴B∴, foi incumbido de escrever um Ritual de Instalação, adotado no ano seguinte.
O Templo com o piso do Oriente elevado, oriundo das Lojas Capitulares, passou a ser reservado aos Mestres Instalados, o que veio a fortalecer essa nova categoria, que possui segredos próprios e exclusivos.
Voltamos a perguntar: Mestre Instalado é um Grau? A resposta é não. Porém, sua superioridade hierárquica sobre o Mestre Maçom se caracteriza na Cerimônia de Instalação, no momento em que todos os Mestres Maçons Não-Instalados, mesmo os portadores dos Altos Graus, são obrigados a cobrirem o Templo.
Dada a sua experiência, adquirida por haver presidido uma Loja, compõe o Colégio de Mestres Instalados de sua Oficina, e aí, até, justificando sua presença no Oriente, servindo como consultores, em auxílio ao Venerável Mestre.
A dignidade do Mestre Instalado é compatível, tão somente, com Ritos Anglo-Americanos, como o Craft e o York, que permitem, no Ritual, a supremacia hierárquica do Mestre Instalado sobre o Mestre Maçom Não-Instalado, embora, oficialmente, a Grande Loja Unida da Inglaterra não reconheça essa supremacia.
O termo Past Master tem sua origem na Maçonaria Inglesa e é próprio do Rito Emulation, servindo para designar o Ex-Venerável Mestre. De forma errônea, algumas Grandes Lojas, como a Americana e a Brasileira o adotaram. Para os americanos, é válido pelo idioma inglês adotado e por praticarem o Craft no Simbolismo, mas, para nós brasileiros, usuários da língua portuguesa, esse termo nada tem a ver, principalmente, por não existir no R∴E∴A∴A∴.
Temos visto muitos Irmãos pronunciarem o termo “Past Venerável”, o que vem a ser pior ainda, já que não define qual idioma se pretende usar. O certo é tratar o Mestre Instalado, que recém encerrou seu Veneralato, de Ex-Venerável.
Há cerca de 10 anos, quando proferimos uma palestra no Rio de Janeiro sobre “Cabala e Maçonaria”, relacionamos a Árvore da Vida com os cargos em Loja e tivemos a oportunidade de fazer uma analogia da invisível e misteriosa Sephira Daat, cujo significado é “Conhecimento”, posicionada, ocultamente, na coluna central da Árvore da Vida, entre Kether (Coroa – a origem de Tudo) e Tiphereth (local do Eu Superior), com a figura do Mestre Instalado. Tal Sephira, somente, surge após a realização das 10 Sephiroth, interligadas através dos 22 caminhos da Sabedoria, relacionados aos 22 Arcanos Maiores do Tarô, que, somando-se às 10 Sephiroth, aludem ao número 32, os 32 Portais da Sabedoria.
Em relação ao corpo humano, são os nossos 32 dentes, localizados na boca, de onde vem a força do Verbo, da Vibração, o Poder da Criação Espiritual. O surgimento da Sephira Daat soma o cabalístico número Mestre, o 33, tão nosso, porém oriundo de Antigas e Ocultas Tradições, do qual pouquíssimos Iniciados nos Verdadeiros Mistérios têm conhecimento, como a Ordem dos Traichu-Marutas. Mas esse já é outro assunto, que poderemos, até, tratar em outra oportunidade.
Autor: Francisco Feitos

“Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau.
Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.











