O Grande Inquisidor
Ao longo dos meus anos de estudos sobre a literatura que moldou a consciência ocidental, poucas passagens me provocaram uma inquietação tão duradoura quanto “O Grande Inquisidor”.
Não se trata de um simples capítulo de um romance, mas de uma ferida aberta na alma da modernidade — um confronto entre duas visões de mundo que, dois séculos depois, continuam a definir os contornos da nossa existência.
O que podemos nos apropriar deste monumental escrito de Fiódor Mikhailovitch.
De um lado, a liberdade radical, a responsabilidade individual, o fardo insuportável de escolher o bem sem garantias. De outro, a segurança, a ordem, a promessa de felicidade em troca da submissão.
Dostoiévski, através do personagem Ivan Karamázov, não nos oferece uma resposta fácil; ele nos apresenta um dilema que ecoa em cada decisão política, em cada instituição religiosa, em cada promessa de salvação coletiva.
A genialidade do texto reside na sua ambiguidade: o Grande Inquisidor não é um vilão, e Cristo não é um herói.
Ambos estão certos, e ambos estão errados.
E é precisamente essa tensão irresolvida que torna a “Lenda do Grande Inquisidor” uma das mais poderosas e perturbadoras alegorias já escritas.
Neste artigo, convido o leitor a adentrar a cela de Sevilha e a escutar, com atenção, o monólogo do velho cardeal — pois, ao fazê-lo, estará, talvez, escutando a si mesmo.

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