Casuísticas: O Homem à Procura de Si Mesmo
Após refletir sobre as grandes teorias que cercam a busca do homem por si mesmo, sinto que é chegado o momento de descer do plano abstrato das ideias e encarar a concretude da vida. As questões filosóficas não habitam apenas os livros; elas se manifestam em crises silenciosas, em escolhas dolorosas e em momentos de virada que definem toda uma existência.
A “casuística” do tema — o estudo dos casos concretos — revela que a procura por si mesmo não é um luxo intelectual, mas uma urgência que pulsa no cotidiano de cada pessoa. A seguir, apresento algumas situações paradigmáticas que ilustram como essa busca se desenrola na vida real, e como os pensadores que estudamos podem lançar luz sobre cada uma delas.
1. O Executivo e a Crise da Meia-Idade
O caso: Um homem de 48 anos, bem-sucedido financeiramente, diretor de uma multinacional, casado e com dois filhos. Do ponto de vista externo, sua vida é um sucesso. No entanto, ele acorda todas as manhãs com uma sensação de vazio, de que sua vida não lhe pertence, de que está apenas representando um papel. Ele se pergunta: “É isto? É para isso que trabalhei tanto?”.
Análise filosófica: Este é o arquétipo da crise existencial. Rollo May diria que ele construiu sua identidade sobre valores externos (status, dinheiro, reconhecimento) e negligenciou o desenvolvimento de seu “eu interior”. A sociedade lhe deu um roteiro, e ele o seguiu à risca, mas nunca perguntou se aquele era realmente o seu roteiro.
Sartre enxergaria aqui a “má-fé” (mauvaise foi): ele se objetificou como “diretor de empresa” e esqueceu que é, antes de tudo, um projeto livre que pode se reinventar. Kierkegaard diagnosticaria uma vida estética — vivida na busca do prazer e do sucesso exterior — que precisa dar o salto para uma existência ética ou religiosa, onde a escolha seja feita a partir do interior, e não das expectativas alheias.
A crise, portanto, não é um fracasso, mas uma oportunidade: a angústia que ele sente é o chamado da consciência heideggeriano para que ele saia do impessoal (das Man) e assuma o seu poder-ser mais próprio.
2. A Jovem que Abandona a Medicina para se Tornar Artista
O caso: Uma jovem de 22 anos, matriculada no sexto período de Medicina, pressionada pela família para seguir a carreira médica, descobre que sua verdadeira paixão é a pintura. Ela sempre desenhou nas margens dos cadernos, mas nunca levou a sério. Agora, sente que precisa escolher: continuar num caminho seguro que a deixará infeliz, ou arriscar tudo por uma vida de incertezas, mas de autenticidade.
Análise filosófica: Este caso exemplifica o confronto entre o “dever social” e o “dever para consigo”. Nietzsche aplaudiria a sua coragem de “tornar-se quem ela é”, de forjar sua identidade através de uma escolha que afirma a sua vontade de potência.
Sócrates, por sua vez, indagaria: “O que é uma vida que não é examinada? Você está vivendo a vida que seus pais querem, ou a vida que você quer?” A jovem está diante do que Kierkegaard chamaria de “ou isto ou aquilo” — uma escolha radical que não pode ser mediada por cálculos racionais de segurança. Se ela escolher a Medicina por medo, estará escolhendo a “multidão” e perdendo a sua singularidade.
Se escolher a Arte, estará dando um salto no escuro, confiando na sua paixão como guia. Heidegger diria que a sua angústia diante da escolha é o que a arranca da “decadência” cotidiana e a coloca diante da sua própria finitude e liberdade.
A decisão, seja qual for, será um ato de autoconstrução.
3. O Jovem que não Sabe que Carreira Seguir
O caso: Um jovem de 18 anos, recém-saído do ensino médio, é bombardeado por conselhos: a família quer que ele faça Direito, os amigos sugerem Engenharia, a escola incentiva “algo com futuro”. Ele não sente vocação por nada em particular, e isso o paralisou. Ele não sabe quem ele é, porque ainda não se descobriu, e a pressão para “decidir o seu futuro” é sufocante.
Análise filosófica: Este é o drama da “identidade em formação”. Sócrates diria que o primeiro passo não é escolher uma carreira, mas escolher um método de vida: o diálogo consigo mesmo para descobrir o que ele realmente valoriza.
Nietzsche o alertaria contra a “moral do rebanho” que tenta empurrá-lo para caminhos pré-definidos. Sartre diria que ele não precisa ter uma “essência” prévia; ele é o que ele fizer de si. A paralisia é a angústia da liberdade, mas ela pode ser transformada em ação: ele pode experimentar, errar, mudar de rumo.
Heidegger veria aqui o perigo de se perder no “impessoal” — fazer Direito porque “todo mundo faz” — e a necessidade de ouvir o chamado da consciência, que não vem de fora, mas de uma escuta atenta do seu próprio ser.
Rollo May encorajaria este jovem a encarar a ansiedade não como um obstáculo, mas como um sinal de que ele está vivo e consciente da sua liberdade de escolha. A busca, neste caso, não é por uma resposta definitiva, mas pela coragem de começar a caminhar.
4. O Idoso que Resgata a sua História
O caso: Um senhor de 75 anos, aposentado, viu seus filhos partirem, perdeu a esposa e agora vive sozinho. Ele passou a vida inteira trabalhando e cuidando dos outros, e nunca se perguntou o que ele queria para si. Agora, diante do silêncio e do vazio, ele começa a escrever um livro de memórias. Ao revisitar o passado, ele se reencontra com o jovem que foi, redescobre sonhos adormecidos e, pela primeira vez, sente que está se conhecendo de verdade.
Análise filosófica: Este caso mostra que a busca por si mesmo não tem idade. Na verdade, é muitas vezes na velhice, quando as máscaras sociais caem, que a questão central pode emergir com mais força. Montaigne, que fez de si mesmo o objeto dos seus ensaios, aplaudiria este gesto de introspecção: o conhecimento de si é uma ciência que se cultiva a vida inteira.
Agostinho, nas suas Confissões, mostrou que a memória e o exame da própria vida são caminhos para a verdade. Heidegger diria que, ao confrontar a sua finitude (a proximidade da morte), este homem finalmente despertou para a sua “propriedade” — aquilo que é mais próprio e único em si.
Nietzsche veria neste ato de escrever a memória um ato de “criação de si”: ele está reinterpretando o seu passado, dando-lhe um novo sentido, e com isso, transformando o seu presente. Rollo May, por fim, reconheceria que a autorrealização não é uma meta juvenil, mas um processo contínuo que pode culminar numa vida integrada e plena de sentido, mesmo na velhice
Considerações Finais
Os casos acima mostram que a “busca por si mesmo” não se restringe a crises dramáticas ou a momentos de exceção. Ela se manifesta em todas as fases da vida, em todas as classes sociais e em todas as configurações humanas. Cada pessoa carrega consigo a sua própria pergunta, e cada resposta é única.
O que une essas experiências é a consciência de que viver exige mais do que seguir roteiros pré-estabelecidos: exige o ato corajoso de se olhar no espelho, de encarar a própria sombra e de aceitar a responsabilidade de construir o próprio destino.
Os filósofos que percorremos neste artigo — Sócrates, Kierkegaard, Nietzsche, Heidegger, Sartre, Rollo May — não nos deram respostas prontas, mas nos ofereceram ferramentas para perguntar melhor. E essa, talvez, seja a maior lição: a busca por si mesmo não é um destino a ser alcançado, mas uma arte a ser praticada diariamente.
Como bem resumiu o próprio Rollo May, o homem moderno precisa aprender a “suportar a solidão” para, a partir dela, “ouvir a sua própria voz”
Pesquisa e Redação Ivair Ximenes Lopes
📚 Fontes
MAY, Rollo. O homem à procura de si mesmo. Petrópolis: Vozes, 2011.
CASSIRER, Ernst. Ensaio sobre o homem: introdução a uma filosofia da cultura humana. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada: ensaio de uma ontologia fenomenológica. Petrópolis: Vozes, 2015.
KIERKEGAARD, Søren. O conceito de angústia. São Paulo: Hemus, 2003.
HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Petrópolis: Vozes, 2012.
PLATÃO. Diálogos. São Paulo: Nova Cultural, 2000.
SANTO AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Paulus, 2017.
MONTAIGNE, Michel de. Ensaios. São Paulo: Nova Cultural, 2000.
Webartigos: O CONHECIMENTO DO HOMEM SOBRE SI MESMO
Gazeta do Povo: A solidão e o vazio existencial
Descomplica: O autoconhecimento em Filosofia – Sócrates

“Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau.
Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.












