Grande Loja Regular de Portugal (GLRP)
Ao longo dos meus estudos sobre a história da maçonaria em Portugal, deparei-me repetidamente com uma questão que poucos conseguem responder com clareza: afinal, o que distingue uma obediência maçônica “regular” de uma “irregular”? E por que razão este conceito, tão técnico e aparentemente árido, gerou cisões, rivalidades e até mesmo escândalos mediáticos no país? Foi para responder a estas perguntas que decidi investigar a fundo a história da Grande Loja Regular de Portugal.
O que descobri surpreendeu-me. Longe de ser um mero detalhe. A regularidade maçônica é a chave que abre as portas do reconhecimento internacional e da legitimidade histórica. A GLRP, nascida em 1991 de uma dissidência do Grande Oriente Lusitano, não é apenas “mais uma Grande Loja” – é a única obediência portuguesa que pode reivindicar uma linha direta de sucessão aos princípios estabelecidos pela primeira Grande Loja de Inglaterra em 1717, hoje membro da CMI e Reconhecida por muitas Grandes Lojas pelo mundo, inclusive pela GLEMS.
Neste artigo, conduzo-o por essa jornada: desde a fundação no Hotel Palácio do Estoril, passando pela turbulenta cisão que deu origem à Grande Loja Legal de Portugal, até à reconciliação histórica de 2011. Explicarei os fundamentos que tornam a GLRP regular aos olhos de cerca de duzentas Grandes Lojas no mundo, e partilharei curiosidades que raramente constam dos comunicados oficiais – incluindo o polémico “Caso Moderna” e o lobby maçónico. Acompanhe-me nesta viagem ao coração da maçonaria regular portuguesa.
A criação da Grande Loja Regular de Portugal (GLRP) é um marco fundamental na história recente da maçonaria portuguesa e um exemplo claro do conceito de “regularidade maçónica“. Este artigo explora a sua história, fundamentos, reconhecimento internacional e algumas curiosidades sobre a única obediência maçónica portuguesa internacionalmente reconhecida como “Regular”.
História e Fundação
Contexto: A Crise no Grande Oriente Lusitano
A génese da GLRP remonta ao início da década de 1980, no seio do Grande Oriente Lusitano (GOL), a mais antiga obediência maçónica portuguesa (fundada em 1802). A GLRP surgiu de uma dissidência no seio do GOL, motivada por uma polémica sobre a legitimidade da reeleição do então grão-mestre.
Um grupo de maçons, insatisfeito, considerou que a obediência havia perdido a “regularidade” maçónica (um conjunto de princípios tradicionais).
A cisão foi liderada por Fernando Teixeira, que em 1984 saiu do GOL e fundou a Grande Loja de Portugal.
O Caminho para a Regularidade
A cisão não foi imediata. O grupo liderado por Fernando Teixeira iniciou um processo de reaproximação à maçonaria regular, solicitando a (re)iniciação junto da Grande Loja Nacional Francesa (GLNF). Este processo culminou com a criação, em 1989, do Distrito de Portugal da GLNF, do qual Fernando Teixeira foi nomeado Grão-Mestre.
Fundação Oficial (1991)
A 29 de Junho de 1991, numa cerimónia no Hotel Palácio, no Estoril, com a presença do Grão-Mestre da GLNF, André Roux, o Distrito de Portugal tornou-se uma Grande Loja independente: a Grande Loja Regular de Portugal (GLRP).
A sua constituição legal como associação de direito civil foi formalizada a 15 de Julho de 1991, em Lisboa. Na sua fundação, contava com cerca de 150 maçons e o seu primeiro Grão-Mestre foi Fernando Teixeira.
A Unificação com a Grande Loja Legal de Portugal (GLLP)
A história da GLRP teve um capítulo conturbado.
Em 1996, uma cisão interna levou à formação da Grande Loja Legal de Portugal (GLLP), liderada por Luís Nandim de Carvalho.
Durante anos, as duas organizações reivindicaram a liderança da maçonaria regular em Portugal. A cisão foi oficialmente resolvida a 17 de Dezembro de 2011, numa cerimónia de reconciliação entre Alexandre de Barahona (GLRP) e José Francisco Moreno (GLLP).
Atualmente, a obediência utiliza a designação composta: Grande Loja Legal de Portugal / Grande Loja Regular de Portugal (GLLP/GLRP).
Fundamentos: O que é a Maçonaria Regular?
A GLRP é a única obediência maçónica em Portugal que se rege pelos princípios da “Maçonaria Regular“. Estes princípios, estabelecidos pela primeira Grande Loja de Inglaterra em 1717 e codificados nas Constituições de Anderson (1723), asseguram a autenticidade e a continuidade da tradição maçónica. Os seus fundamentos essenciais incluem:
Fé num Ser Supremo: A crença em Deus, referido como o “Grande Arquitecto do Universo”, é um requisito inegociável para todos os membros.
O Volume da Lei Sagrada: Um livro sagrado (como a Bíblia, o Torah ou o Alcorão) está sempre presente nas reuniões da Loja, e os juramentos são feitos sobre ele.
Admissão de Homens Apenas: A Maçonaria Regular é uma ordem exclusivamente masculina. Os candidatos devem ser “homens livres e de bons costumes”.
Proibição de Discussões Políticas e Religiosas: O debate sobre temas político-partidários ou religiosos dogmáticos é estritamente proibido nas Lojas, de forma a preservar a harmonia entre irmãos de diferentes crenças e ideologias.
Princípios Fundamentais: A obediência segue os “Antigos Deveres” e os “Landmarks” (marcos ou princípios imutáveis) da maçonaria, com especial ênfase nos rituais e simbolismo.
Reconhecimento e Regularidade Internacional
A “regularidade” de uma obediência é reconhecida internacionalmente quando esta cumpre os princípios acima mencionados. O principal garante deste sistema é a Grande Loja Unida de Inglaterra (UGLE), a mais antiga obediência maçónica do mundo, fundada em 1717.
Reconhecimento pela UGLE
O reconhecimento da Grande Loja Regular de Portugal (GLRP) pela UGLE foi um passo crucial. Esta legitimação confirmou, aos olhos da comunidade maçónica internacional, que a GLRP era uma obediência regular. A UGLE estabelece princípios rígidos para este reconhecimento, como a “regularidade de origem” (ter sido criada legalmente por outra Grande Loja regular). As duas obediências portuguesas (GLLP e GLRP) disputaram esta liderança até à sua reconciliação em 2011.
Uma Rede Global
A legitimidade da GLLP/GLRP é hoje amplamente aceite. De acordo com o seu site, a GLLP/GLRP reconhece e é reconhecida por “perto de duzentos Grandes Orientes e Grandes Lojas em todo o Mundo“, incluindo as principais potências maçónicas regulares da Europa, como a Grande Loja Nacional Francesa (França), a Grande Loja de Itália, a Grande Loja da Grécia, entre muitas outras. Em 2020, o site especializado “Maçonaria e Maçon(s)” afirmava que a GLRP era uma “Potência Maçónica respeitada em todo o Mundo pela clareza e coerência das suas atitudes”.
Curiosidades e Fatos Pouco Conhecidos
1. O “Fantasma da Moderna”
No final da década de 1990, a GLRP envolveu-se num escândalo de “negocismo e tráfico político” relacionado com a Universidade Moderna, uma instituição de ensino superior privada. A polémica, que ficou conhecida como o “Caso Moderna”, foi um dos fatores que precipitou a cisão da Casa do Sino e a criação da GLLP.
2. Abertura a Membros Católicos e de Direita
Ao contrário do Grande Oriente Lusitano, que tradicionalmente se associou a uma corrente mais agnóstica e de esquerda, a GLRP posicionou-se como uma obediência “aberta a membros católicos e mais ligada à direita”.
3. Reconciliação Histórica
A reconciliação de 2011 entre a GLRP e a GLLP foi descrita como o fim de uma “disputa fratricida” que durou 14 anos, devolvendo à maçonaria regular portuguesa um rosto unificado.
4. Maçonaria “Inglesa” em Portugal
Em paralelo com a GLLP/GLRP, a UGLE mantém a sua própria jurisdição em Portugal, sob a autoridade da “Grande Loja Distrital de Gibraltar“, que consagra Lojas que trabalham em inglês no Algarve e Lisboa.
5. A “Casa do Sino”
A sede da GLRP, durante o mandato de Fernando Teixeira, foi o Palacete na Casa do Sino, em Cascais. Este local tornou-se um símbolo do poder e da ambição da GLRP na década de 1990, bem como da sua posterior cisão.
6. O Lobby Maçónico
Embora a maçonaria regular proíba formalmente a discussão política dentro das Lojas, há relatos de que membros da GLRP fazem “lobby”. O jornal “Correio da Manhã” publicou em 2004 uma entrevista com o então grão-mestre, José Manuel Anes, intitulada “O Maçon tem de fazer lobby”.
7. Influência na CPLP
A GLLP/GLRP teve um papel ativo na expansão da maçonaria regular nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), ajudando a fundar e a reconhecer Grandes Lojas regulares em Angola, Cabo Verde e Moçambique.
Conclusão
A Grande Loja Regular de Portugal (GLLP/GLRP) é mais do que uma simples obediência maçónica. É a materialização do conceito de regularidade maçónica em Portugal, legitimada pela mais antiga e respeitada potência maçónica mundial, a UGLE.
Nascida de uma cisão e consolidada através de um rigoroso processo de alinhamento com os princípios tradicionais da maçonaria inglesa, a GLRP representa uma alternativa conservadora e deísta ao Grande Oriente Lusitano. Apesar de uma história turbulenta marcada por cisões e polémicas como o “Caso Moderna”, a sua reconciliação interna em 2011 e o amplo reconhecimento internacional (cerca de 200 Grandes Lojas) consolidaram a sua posição como a única e legítina representante da Maçonaria Regular em Portugal.
Pesquisa e Redação Ivair Ximenes Lopes
Referências e Fontes para Aprofundamento
Grande Loja Legal de Portugal / Grande Loja Regular de Portugal. “HISTÓRIA”.
Grande Loja Legal de Portugal / Grande Loja Regular de Portugal. “RECONHECIMENTO INTERNACIONAL”.
Grande Loja Legal de Portugal / Grande Loja Regular de Portugal. “As Doze Regras da Maçonaria Regular”.
Grande Loja Legal de Portugal / Grande Loja Regular de Portugal. “Página de Reconhecimentos Internacionais – GLLP”.
Wikipedia. “Grande Loja Regular de Portugal”.
Wikipedia. “Grande Loja Legal de Portugal (GLLP)”.
Maçonaria e Maçon(s) (freemason.pt). “Consagração da GLRP – 29/06/1991 – discurso de Fernando Teixeira”.
Maçonaria e Maçon(s) (freemason.pt). “Os Grão-Mestres da Grande Loja Legal de Portugal / GLRP”.
Maçonaria e Maçon(s) (freemason.pt). “Relações internacionais e regularidade maçónica”.
Rui Bandeira (rlmad.net). “O Grão-Mestre Fundador – Respeitável Loja Mestre Affonso Domingues”.
Jornal Público. “Dissipar o fantasma da Moderna”.
Jornal Correio da Manhã (CM). “O MAÇON TEM DE FAZER LOBBY”.

“Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau.
Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.











