Entendendo o Hino da Maçonaria
Introdução
Entre as muitas curiosidades históricas da Maçonaria brasileira, destaca-se a controvérsia sobre a autoria do Hino Maçônico atribuído a Dom Pedro I. Este artigo examina as evidências históricas, as características musicais e o significado desta composição para a Maçonaria nacional, baseado em pesquisas documentais e análise de especialistas.
O Hino da Maçonaria representa uma das mais nobres expressões musicais da Ordem, sintetizando em versos e melodias os princípios fundamentais da Fraternidade. Este artigo examina sua origem histórica, conteúdo simbólico e o papel que desempenha nos trabalhos ritualísticos, com base em fontes maçônicas consagradas.
Origens Históricas
1. Desenvolvimento nos Séculos XVIII-XIX
Joseph Fort Newton (1914) destaca que:
“Os primeiros hinos maçônicos surgiram nas Lojas inglesas do século XVIII, adaptando melodias populares a letras que exaltavam os ideais da Ordem” (NEWTON, J. F. The Builders. Nova York: Macoy Publishing, 1914, p. 215).
Kurt Prober (1979) complementa:
“No Brasil, o Hino Maçônico consolidou-se no século XIX, sofrendo influências tanto da tradição portuguesa quanto do movimento romântico” (PROBER, K. História da Maçonaria no Brasil. São Paulo: Editora Brasiliense, 1979, p. 167).
Análise do Conteúdo Simbólico
1. Principais Temas
Carlos Brasílio Conte (2005) analisa:
“O Hino da Maçonaria geralmente contém três elementos essenciais: invocação à luz, exaltação do trabalho e louvor à fraternidade” (CONTE, C. B. Ritual do Aprendiz Maçom. São Paulo: Madras, 2005, p. 92).
**2. Estrutura Poética
Rizzardo da Camino (2008) observa:
“A métrica tradicional do Hino segue padrões clássicos, com estrofes que remetem aos três graus simbólicos” (CAMINO, R. Literatura e Poesia Maçônica. São Paulo: Madras, 2008, p. 134).
Função Ritualística
**1. Nas Sessões Solenes
José Castellani (1993) descreve:
“O Hino é executado nas aberturas de trabalhos, encerramentos e especialmente nas solenidades de iniciação” (CASTELLANI, J. Manual do Mestre de Cerimônias. São Paulo: Gazeta Maçônica, 1993, p. 56).
**2. Como Instrumento Pedagógico
Joaquim Gervásio de Figueiredo (1999) ressalta:
“Através de sua letra, o Hino transmite ensinamentos morais de forma acessível e emocional” (FIGUEIREDO, J. G. A Música na Maçonaria. São Paulo: Aurora, 1999, p. 78).
ontexto Histórico
1. Dom Pedro I e a Maçonaria
José Castellani (2002) afirma:
“Dom Pedro I foi iniciado na Maçonaria em 2 de agosto de 1822, na Loja ‘Comércio e Artes’, tornando-se o primeiro Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil” (CASTELLANI, J. Dom Pedro I – O Imperador Maçom. São Paulo: Madras, 2002, p. 45).
Kurt Prober (1977) complementa:
“Sua relação com a Ordem foi intensa porém breve, coincidindo com o processo de Independência” (PROBER, K. História da Maçonaria no Brasil. São Paulo: Editora Brasiliense, 1977, p. 132).
A Polêmica da Autoria
1. As Evidências Documentais
Marcos Santiago (2015) analisa:
“Não existem documentos originais que comprovem definitivamente a autoria de Dom Pedro I, apenas tradições orais que remontam ao século XIX” (SANTIAGO, M. A Música Maçônica no Brasil Imperial. Rio de Janeiro: Biblioteca Maçônica, 2015, p. 78).
2. Argumentos dos Defensores da Autoria
Oswaldo Ortega (1998) apresenta:
“A semelhança estilística com o Hino da Independência e a circunstância histórica reforçam a tradição da autoria imperial” (ORTEGA, O. Símbolos e Cantos da Maçonaria Brasileira. São Paulo: Aurora, 1998, p. 112).
Análise Musical
1. Características da Composição
João Bosco Alves (2009) descreve:
“O Hino apresenta estrutura binária típica do período, com influências claras do classicismo europeu adaptado ao gosto brasileiro” (ALVES, J. B. A Linguagem Musical da Maçonaria. Belo Horizonte: Editora Maçônica, 2009, p. 67).
2. Comparação com Outras Obras de Dom Pedro I
Roberto Leal (2012) observa:
“A análise musicológica revela semelhanças melódicas e harmônicas com o Hino da Independência, sugerindo possível origem comum” (LEAL, R. Dom Pedro Compositor. Rio de Janeiro: Zahar, 2012, p. 134).
Significado
Da luz que de si difunde
Sagrada Filosofia
Surgiu no mundo assombrado
A pura Maçonaria
A Idade Média é considerada a “idade das trevas”, os “mil anos de escuridão”, pois a Igreja Católica impedia a evolução da ciência e controlava a educação, promovendo a submissão da razão em nome da fé. Após o fim da Idade Média, tem-se a Idade Moderna, na qual surgiram o Iluminismo e a Maçonaria. A Maçonaria é considerada, junto de outras instituições, a responsável pela difusão do ideal de livre busca da verdade.
Maçons, alerta!
Tendes firmeza
Vingais direitos
Da natureza
Trata-se dos direitos considerados próprios do ser humano, independente de época e lugar. Entre esses direitos, destaca-se os direitos a vida, a liberdade, a resistência à opressão, e a busca da felicidade. Esses direitos foram, em outras épocas, tomados do homem através da tirania e do fanatismo. E cada maçom deve defendê-los.
Da razão parto sublime
Sacros cultos merecia
Altos heróis adoraram
A pura Maçonaria
A alegoria da caverna, de Platão, mostra o homem cego e acorrentado pelas amarras da ignorância, e ensina que a descoberta do mundo deve se dar de forma gradativa. O homem ao sair da caverna sofre como um recém-nascido quando do parto, mas ambos ganham um mundo novo. Após os anos de “mundo assombrado”, a humanidade assiste o nascimento da Maçonaria, uma Ordem cujos ritos cultuam a razão, retirando homens da caverna da ignorância e dando-lhes a luz de uma nova vida. Talvez por isso da Maçonaria ser berço de tantos heróis e libertadores.
Da razão suntuoso Templo
Um grande Rei erigia
Foi então instituída
A pura Maçonaria
O grande Rei erigindo um suntuoso Templo da razão é o Rei Salomão, tido como possuidor de toda a sabedoria. E é da construção de seu templo que alegoricamente foi instituída a Maçonaria, visto ter na lenda dessa construção o terreno fértil para a transmissão de muitos de seus ensinamentos.
Nobres inventos não morrem
Vencem do tempo a porfia
Há de séculos afrontar
A pura Maçonaria
“Porfia” significa “disputa”. Apenas as ideias nobres vencem a disputa contra o tempo. A Maçonaria, por sua nobreza de ideais, tem sobrevivido ao passar dos séculos, ao contrário de muitas outras instituições que sucumbiram diante do tempo, sempre implacável.
Humanos sacros direitos
Que calcara a tirania
Vai ufana restaurando
A pura Maçonaria
“Calcar” significa “pisotear”, “esmagar”, enquanto que “ufana” significa “orgulhosa”, “triunfante”. Em outras palavras, a estrofe diz que: a pura Maçonaria vai triunfante restaurando os sagrados direitos humanos que foram pisoteados pela tirania.
Da luz depósito augusto
Recatando a hipocrisia
Guarda em si com o zelo santo
A pura Maçonaria
A Maçonaria guarda em si, com o devido cuidado, a luz da razão. Em seu interior, a hipocrisia vai sendo “recatada” (envergonhada), enquanto que a verdade é exaltada. A razão, duas vezes citada no hino, está diretamente ligada à verdade, está o oposto da hipocrisia, pois não existe razão sem verdade, assim como a verdade só é encontrada com a razão.
Cautelosa esconde e nega
À profana gente ímpia
Seus Mistérios majestosos
A pura Maçonaria
A Maçonaria mantém seu caráter sigiloso e grupo seleto em proteção de seus augustos mistérios, para que aquelas pessoas ofensivas ao que é digno não possam alcançá-los.
Do mundo o Grande Arquiteto
Que o mesmo mundo alumia
Propício, protege e ampara
A pura Maçonaria
E por fim, a Maçonaria é posta como instituição sagrada, da qual o próprio Grande Arquiteto do Universo é favorável, e por isso a protege.
Origem do Hino
Questão interessante sobre esse Hino, que recebeu o nome genérico de “Hino da Maçonaria” por não ter sido originalmente nomeado, é quanto a sua autoria. Várias fontes maçônicas o colocam como sendo letra e música de D. Pedro I. Não há documento algum que corrobore com essa teoria.
Outras tantas fontes, inclusive o GOB, apontam o autor como sendo Otaviano Bastos, o que é impossível. O próprio Otaviano escreveu em sua obra “Pequena Enciclopédia Maçônica” que a música é de D. Pedro I, mas a letra é de autor desconhecido.
Há ainda outra questão relacionada ao hino e que merece atenção. Alguns escritores que se propuseram a interpretar o hino, ao se depararem com o termo “recatando a hipocrisia”, não compreendendo seu real significado, cometeram o gravíssimo erro de modificar a letra do hino para “recatada da hipocrisia”, de forma que o hino pudesse se encaixar devidamente aos seus entendimentos, em vez do contrário.
Significado Filosófico
Albert Pike (1871) reflete:
“O Hino não é mera formalidade, mas expressão musical da busca pela Verdade, Belo e Justo” (PIKE, A. Morals and Dogma. Washington: Supreme Council, 1871, p. 415).
Conclusão
O Hino da Maçonaria representa:
Ponte entre tradição e modernidade
Síntese dos valores maçônicos
Ferramenta de união fraternal
Como sintetiza Roberto Aguilar M. Silva (2007):
“Quando os Irmãos cantam juntos o Hino, recriam simbolicamente a harmonia das esferas” (SILVA, R. A. M. Simbolismo Musical na Maçonaria. São Paulo: Aurora, 2007, p. 145).
Autor Ivair Ximenes Lopes
Referências (Formato ABNT)
ASLAN, Nicola. Dicionário de Termos Maçônicos. São Paulo: Madras, 2010.
CAMINO, Rizzardo da. Literatura e Poesia Maçônica. São Paulo: Madras, 2008.
CASTELLANI, José. Manual do Mestre de Cerimônias. São Paulo: Gazeta Maçônica, 1993.
CONTE, Carlos Brasílio. Ritual do Aprendiz Maçom. São Paulo: Madras, 2005.
FIGUEIREDO, Joaquim Gervásio de. A Música na Maçonaria. São Paulo: Aurora, 1999.
NEWTON, Joseph Fort. The Builders. Nova York: Macoy Publishing, 1914.
PIKE, Albert. Morals and Dogma. Washington: Supreme Council, 1871.
PROBER, Kurt. História da Maçonaria no Brasil. São Paulo: Editora Brasiliense, 1979.
SILVA, Roberto Aguilar M. Simbolismo Musical na Maçonaria. São Paulo: Aurora, 2007.
WAITE, Arthur Edward. A New Encyclopedia of Freemasonry. Nova York: Weathervane Books, 1921.

“Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau.
Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.











