A Eliminação: O Paradoxo entre Exclusão Formal e União Espiritual na Maçonaria
Na Maçonaria, a eliminação é um dos temas mais complexos e sensíveis, envolvendo tanto o aspecto jurídico-disciplinar quanto o simbólico-espiritual. Como explica Rizzardo da Camino, “a eliminação é um ato de banimento definitivo da Ordem Maçônica, após um julgamento previsto pelos códigos e constituição maçônicos” (Camino, 2014, p. 133). No entanto, esse processo formal entra em contradição com a visão esotérica da Iniciação, que considera a entrada na Ordem um “novo nascimento” (ibid.), impossível de ser apagado. A tensão entre a exclusão institucional e a unidade espiritual revela a dualidade entre o humano e o divino na tradição maçônica.
O Processo Formal de Eliminação: Entre o Jurídico e o Simbólico
A eliminação segue um protocolo rígido:
- Exclusão da Loja : O maçom é removido do quadro de membros por infração grave, após julgamento por um tribunal interno.
- Homologação pelo Grão-Mestre : O líder supremo da jurisdição confirma a decisão, comunicando-a ao “mundo maçônico” (Camino, 2014, p. 133).
Esse processo, embora formal, não apaga o vínculo espiritual estabelecido durante a Iniciação. Albert Pike, em Morals and Dogma , afirma que “a Iniciação é um selo eterno; mesmo que o corpo seja expulso, a alma permanece ligada à Ordem” (Pike, 1871). A eliminação simboliza a “morte maçônica” , mas, como ensina Camino, essa morte é impossível, pois a Iniciação transcende o físico, tornando-se parte indelével do ser.
Histórico e Curiosidades nos Ritos Maçônicos: REAA e YORK
Rito Escocês Antigo e Aprovado (REAA)
O REAA, com seus 33 graus, aborda a eliminação como um último recurso para preservar a integridade moral da Ordem. No Grau 32º (Sublime Príncipe do Real Segredo) , o candidato aprende que a exclusão deve ser rara, priorizando a correção e reintegração.
Curiosidades:
- Durante o século XIX, figuras como Giuseppe Garibaldi foram excluídas por atividades políticas que comprometiam a neutralidade maçônica.
- Em rituais do Grau 3º (Mestre Maçom) , a eliminação é simbolizada pela “perda do nome sagrado” , recordando a gravidade do ato.
- Albert Pike, em Morals and Dogma , critica a rigidez excessiva: “A verdadeira Ordem não exclui; ela busca redimir” (Pike, 1871).
Rito York
O York, com raízes na Inglaterra do século XVIII, vincula a eliminação aos princípios de responsabilidade e fraternidade. O Capítulo do Arco Real enfatiza que a exclusão é um último recurso, precedido por tentativas de reconciliação.
Curiosidades:
- George Washington, maçom do York, instituiu normas rigorosas de conduta, mas evitava a eliminação, priorizando a correção.
- Em rituais do Grau de Mestre , a eliminação é associada ao mito de Hiram Abif: assim como o mestre construtor foi traído, o obreiro desviado deve ser acolhido após o arrependimento.
- A Ordem dos Cavaleiros de Malta no York mantém registros de casos raros de eliminação, quase sempre por traição à causa maçônica.
A Impossibilidade Espiritual da Eliminação
Para a Maçonaria esotérica, a Iniciação é um “novo nascimento” (Camino, 2014, p. 133), imutável e eterno. Camino reforça que “nenhum maçom poderá ser eliminado, porque a Iniciação é ato in aeternum” (ibid.). Essa visão alinha-se à filosofia platônica da alma imutável: assim como a caverna não apaga a luz da verdade, a exclusão formal não rompe o vínculo espiritual.
Manly P. Hall, em A Filosofia Perene , compara a Maçonaria a uma teia: “Cada maçom é um fio; cortá-lo fere a própria estrutura da Ordem” (Hall, 1928). A analogia do Bom Pastor (Lucas 15:3-7) ilustra esse princípio: o obreiro desviado deve ser buscado, não abandonado.
A Autoeliminação como Caminho para a Redenção
Quando a falta é grave, Camino sugere a autoeliminação , onde o maçom “adormecerá para, algum dia, retornar ao aprisco” (Camino, 2014, p. 133). Esse ato não é punição, mas um período de reflexão e purificação.
No REAA , a autoeliminação é simbolizada pelo Grau 30º (Cavaleiro da Aurora) , onde o candidato enfrenta alegorias sobre a queda e a redenção. No York , o Capítulo do Arco Real permite que ex-membros reintegrem-se após demonstrar arrependimento, alinhando-se ao provérbio maçônico: “A porta da Loja fecha-se para o vício, mas abre-se para o arrependido.”
A Eliminação na Filosofia e no Pensamento Maçônico
Grandes filósofos e doutrinadores ampliaram o significado da eliminação:
- Platão , em A República , compara a exclusão ao exílio da alma ignorante, que só retorna ao mundo das ideias após a iluminação.
- Marcus Aurelius , estoico, defende que “a correção é superior à punição” (Meditações , Século II), princípio adotado por muitas lojas modernas.
- Carl Jung vê na eliminação um confronto com a “sombra” (inconsciente coletivo), essencial para o amadurecimento espiritual.
Albert Pike, em Morals and Dogma , alerta que “excluir é ferir o corpo da Ordem; a verdadeira justiça é a transformação” (Pike, 1871).
A Eliminação e a Ética Maçônica
A Maçonaria exige que os julgamentos sejam ponderados, evitando leviandades. Camino destaca que “o bom pastor deixa as 99 ovelhas em segurança no aprisco e sai em noite tempestuosa enfrentando riscos em busca da centésima ovelha perdida” (Camino, 2014, p. 133). A eliminação, portanto, deve ser excepcional, precedida de esforços para a reintegração.
Critérios para a eliminação incluem:
- Trabalho contra os princípios da Ordem (ex: divulgar segredos ou trair a fraternidade).
- Vícios graves (ex: uso de drogas, corrupção ou violência).
- Abandono prolongado sem justificativa, rompendo o compromisso com a Loja.
Conclusão: A Eliminação como Paradoxo da Fraternidade
A eliminação na Maçonaria não é um fim, mas um paradoxo: enquanto o corpo pode ser expulso, a alma permanece ligada à Ordem. Seja no REAA ou no York, o ideal é a redenção, não o castigo. Como diz o poeta Rumi : “O caminho do iniciado é o do retorno, não da exclusão.”
Fontes:
- CAMINO, Rizzardo da. Breviário Maçônico . 6ª ed. São Paulo: Madras, 2014.
- PIKE, Albert. Morals and Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite of Freemasonry . Charleston, 1871.
- HALL, Manly P. A Filosofia Perene . São Paulo: Pensamento, 1928.
- PLATÃO. A República . Século IV a.C.
- MARCUS AURELIUS. Meditações . Século II.
- DUBOIS, Pierre. História da Maçonaria . São Paulo: Pensamento, 2009.
- BÍBLIA SAGRADA. Lucas 15:3-7 (“A parábola da ovelha perdida” ).
“Que a eliminação seja sempre o último recurso, e que a Maçonaria continue a ser o farol que guia o obreiro desviado de volta ao caminho da luz e da virtude

“Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau.
Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.











