Home / Livre / Pesquisa / Voltaire – François‑Marie Arouet 

Voltaire – François‑Marie Arouet 

Voltaire  François‑Marie Arouet 

Voltaire – François‑Marie Arouet 

Ao longo dos anos pesquisando os grandes expoentes do Iluminismo, poucos me fascinaram tanto quanto Voltaire. O que mais me impressiona é como um único homem — poeta, dramaturgo, ensaísta, historiador e polemista incansável — conseguiu sintetizar em sua vida e obra as contradições e as esperanças de todo um século.

Ele não foi um filósofo de sistema, como Kant ou Hegel; foi, antes, um guerreiro da razão, um ativista da liberdade que usou a pena como arma e o sarcasmo como escudo.

Franco‑Marie Arouet, que o mundo conheceria como Voltaire, personificou o espírito do Iluminismo: a crença inabalável de que a razão poderia combater o fanatismo, que a tolerância poderia vencer o dogma e que o riso poderia abalar tronos e altares. Sua vida foi uma montanha‑russa de prisões, exílios, sucessos literários e polêmicas ferozes. Sua morte, aos 83 anos, foi um triunfo: o velho combatente retornou a Paris e foi aclamado como um herói. Onze anos depois, suas ideias estavam na linha de frente da Revolução Francesa.

Origens e Primeiros Anos

François‑Marie Arouet nasceu em Paris, em 21 de novembro de 1694 (embora algumas fontes indiquem 22 de novembro), no seio de uma família da alta burguesia. Seu pai, François Arouet, era notário e conselheiro do rei; sua mãe, Marie Marguerite Daumart, faleceu quando ele tinha apenas sete anos. Órfão cedo, François foi educado pelos jesuítas no prestigiado colégio Louis‑le‑Grand, onde se destacou como aluno brilhante e fez amizade com herdeiros das principais famílias da nobreza francesa.

Incentivado pelo pai, matriculou‑se na Faculdade de Direito, mas jamais concluiu o curso. Preferia os salões literários e a companhia de libertinos e pensadores livres. Apresentado pela madrinha ao círculo da cortesã Ninon de Lenclos, uma mulher culta e hedonista, Voltaire impressionou‑a tanto que ela lhe deixou uma herança em testamento para comprar livros.

A Invenção de Voltaire e as Prisões na Bastilha

A carreira literária de Voltaire começou cedo e, desde o início, foi marcada por conflitos com as autoridades. Em 1717, acusado de ser o autor de dois poemas satíricos contra o regente Filipe II de Orleães, foi preso na temida Bastilha, onde ficou durante onze meses. Foi nesse período de cárcere que adotou o pseudônimo Voltaire (provavelmente um anagrama de “Arouet le jeune”) e começou a escrever sua tragédia Édipo.

Libertado em 1718, teve a pena comutada para exílio em Châtenay‑Malabry. No mesmo ano, Édipo estreou no Théâtre Français com enorme sucesso, consagrando Voltaire como dramaturgo. Em 1723 publicou a epopeia A Henríada, em homenagem a Henrique IV, que consolidou sua reputação literária.

O Exílio na Inglaterra e a Virada Política

Em 1726, uma ácida discussão com o cavaleiro de Rohan, membro da alta nobreza, levou Voltaire novamente à Bastilha. Para evitar uma pena mais longa, propôs às autoridades o desterro voluntário na Inglaterra, onde passou três anos (1726‑1728). Essa temporada nas ilhas britânicas foi transformadora.

Voltaire entrou em contato com as ideias de John Locke e Isaac Newton, conheceu o parlamentarismo inglês e a tolerância religiosa que então vigorava. Ao voltar à França, tornou‑se um ativista ferrenho da liberdade de expressão, do direito a um julgamento justo e da separação entre Igreja e Estado.

Publicou as Cartas Filosóficas ou Cartas Inglesas (1734), onde comparava favoravelmente a liberdade inglesa ao atraso da França absolutista e clerical. O governo francês considerou a obra um ataque, apreendeu os exemplares e os queimou publicamente.

O Relacionamento com Émilie du Châtelet

Pouco depois, Voltaire iniciou um relacionamento intelectual e amoroso com Émilie Le Tonnelier de Breteuil, marquesa de Châtelet — uma das mais ilustres matemáticas e físicas de seu tempo. Durante quinze anos, eles viveram no castelo de Cirey, onde Voltaire escreveu grande parte de sua obra científica e filosófica, enquanto Émilie traduzia e comentava Newton. Com a morte prematura de Émilie, em 1749, Voltaire ficou profundamente abalado.

O Rei Filósofo: Frederico, o Grande

Em 1750, Voltaire aceitou o convite de Frederico II, rei da Prússia, para viver em sua corte. Ali, atuou como conselheiro do monarca, acreditando no ideal do “despotismo esclarecido”um rei cercado de pensadores que governa segundo a razão. Contudo, as desavenças com o soberano e com outros intelectuais da corte logo se acumularam.

Voltaire deixou a Prússia em 1753 e, após uma breve passagem pela corte de Catarina II da Rússia, estabeleceu‑se na Suíça, perto de Genebra.

Ferney: O “Reino” de Voltaire

Em 1758, Voltaire adquiriu o castelo de Ferney, na fronteira franco‑suíça. Ali, o velho filósofo transformou a propriedade em um pequeno principado intelectual. De Ferney, produziu uma enxurrada de panfletos, peças, contos filosóficos e cartas (mais de 20.000), que chegavam a todos os cantos da Europa.

Foi nesse período que escreveu sua obra‑prima, Cândido, ou o Otimismo (1759), uma sátira mordaz ao otimismo metafísico de Leibniz e à filosofia de que “tudo está bem no melhor dos mundos possíveis.

Os Últimos Dias e a Apoteose em Paris

Aos 83 anos, Voltaire decidiu retornar a Paris para assistir à estreia de sua última peça, Irene. A viagem, em fevereiro de 1778, transformou‑se em um triunfo. Multidões o aplaudiam nas ruas, e a Academia Francesa — da qual era membro desde 1746 — recebeu‑o em sessão solene. O ancião, já doente, foi saudado como o patriarca do Iluminismo.

Voltaire faleceu em Paris em 30 de maio de 1778. A Igreja recusou‑lhe sepultura em terra consagrada, mas, em 1791, durante a Revolução, seus restos mortais foram transladados para o Panteão, ao lado de Rousseau. Sua urna traz uma inscrição lapidar: “Poeta, historiador, filósofo. Ele engrandeceu o espírito humano e ensinou‑o a ser livre”.

Principais Obras e Ideias

Cândido, ou o Otimismo (1759)

A obra‑prima de Voltaire é um conto filosófico satírico que ridiculariza a doutrina leibniziana do “melhor dos mundos possíveis”. O ingênuo protagonista, Cândido, assiste a catástrofes e crueldades sem fim enquanto seu mestre, Pangloss, insiste em que tudo é para o melhor. Somente ao final, depois de todas as desventuras, Cândido conclui que “é preciso cultivar o nosso jardim” — uma metáfora para a ação prática e o trabalho concreto, em oposição às elucubrações metafísicas. A obra foi condenada e queimada em vários países, mas tornou‑se um clássico universal.

Cartas Filosóficas (1734)

Nesta coletânea de cartas, Voltaire compara a monarquia absolutista francesa com a monarquia constitucional inglesa, exaltando a liberdade de imprensa, a tolerância religiosa e o sistema parlamentar britânico. A obra foi queimada publicamente pelo parlamento francês, mas circulou clandestinamente e se tornou um dos textos fundadores do Iluminismo.

Tratado sobre a Tolerância (1763)

Escrito após o caso Calas — um comerciante protestante injustamente executado por assassinato —, o tratado é uma defesa veemente da tolerância religiosa e da separação entre Igreja e Estado. Voltaire argumenta que todos os seres humanos, independentemente de sua , merecem respeito e julgamento justo.

Dicionário Filosófico (1764)

Uma coletânea de verbetes satíricos e polêmicos sobre temas como “alma”, “liberdade”, “fanatismo” e “Deus”. A obra é um compêndio do pensamento de Voltaire: anticlerical, deísta e radicalmente crítico das instituições estabelecidas.

O Século de Luís XIV (1751)

Voltaire inovou a historiografia ao abandonar a narrativa centrada em reis e batalhas para enfatizar os costumes, as artes, as ciências e o progresso da civilização.

 Curiosidades sobre Voltaire

  1. O pseudônimo e a loteria
    A origem exata do nome “Voltaire” permanece incerta. A versão mais aceita é que se trata de um anagrama de “Arouet le jeune”. Após sair da prisão, o jovem Arouet usou o novo nome para marcar sua reinvenção.

  2. O “golpe” da loteria
    Em 1729, Voltaire aliou‑se a um amigo matemático para explorar uma falha nas regras da loteria estatal francesa. Compraram bilhetes estratégicos, garantiram um prêmio astronômico e conquistaram a independência financeira para o resto da vida.

  3. Mestre da sátira e da polêmica
    Voltaire escreveu mais de 2.000 livros e panfletos e cerca de 20.000 cartas. Sua pena foi sua principal arma contra o fanatismo religioso e o absolutismo.

  4. A frase que ele nunca disse
    A célebre máxima “Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê‑la” é frequentemente atribuída a Voltaire, mas na verdade foi escrita pela biógrafa Evelyn Beatrice Hall em 1906, para resumir o pensamento do filósofo.

  5. Deísmo e a frase sobre Deus
    Voltaire não era ateu, mas deísta: acreditava em um Deus “relojoeiro” que criou o universo e depois o deixou funcionar por suas próprias leis. Sua frase “Se Deus não existisse, seria preciso inventá‑lo” resume sua visão pragmática: a crença em Deus é socialmente útil para conter os excessos humanos.

  6. O “Rei” de Ferney
    Nos últimos vinte anos de vida, Voltaire viveu no castelo de Ferney, onde se comportou como um verdadeiro soberano iluminado: recebia visitas ilustres, escrevia incansavelmente e polemizava com toda a Europa. Por isso, foi apelidado de “o Rei de Ferney”.

  7. O último gesto irônico
    Ao saber que sua morte era iminente, um padre foi chamado para exortá‑lo a renunciar ao diabo. Voltaire teria respondido: “Agora não é hora de fazer novos inimigos”.

  8. Morte e ressurreição cívica
    A Igreja recusou‑lhe sepultura em solo consagrado. Seu corpo foi levado às pressas para a abadia de Scellières. Em 1791, a Assembleia Revolucionária ordenou a transferência de seus restos para o Panteão, onde repousam ao lado de Rousseau.

Legado de Voltaire

O legado de Voltaire é imenso e multifacetado. Na política e nos direitos civis, ele foi um dos primeiros a defender abertamente a liberdade de expressão, a liberdade religiosa e a separação entre Igreja e Estado. Suas campanhas em favor de vítimas da intolerância — como os casos Calas e Sirven — estabeleceram o paradigma do intelectual engajado, aquele que usa sua influência para denunciar injustiças.

Na filosofia, Voltaire não criou um sistema, mas disseminou as ideias de Locke, Newton e dos empiristas britânicos para o continente europeu, combatendo o racionalismo abstrato e o otimismo metafísico. Seu combate ao fanatismo religioso e sua defesa da tolerância continuam urgentes em um mundo ainda marcado por conflitos de .

Na literatura, Voltaire aperfeiçoou o conto filosófico como gênero de intervenção, usando o humor e a sátira para criticar instituições poderosas. Cândido permanece um dos textos mais lidos, traduzidos e adaptados da literatura ocidental. Seu estilo ágil, irônico e polêmico influenciou gerações de escritores — de Stendhal a Machado de Assis.

Na historiografia, Voltaire rompeu com a tradição centrada em reis e batalhas para incorporar a história dos costumes, das artes, do comércio e da civilizaçãoO Século de Luís XIV é um marco nessa transição.

Por fim, Voltaire personificou o intelectual público moderno. Ele mostrou que a filosofia não precisa ficar confinada às universidades; pode (e deve) descer às praças públicas, polemizar nos panfletos e confrontar o poder. Onze anos após sua morte, suas ideias estavam na linha de frente da Revolução Francesa. Dois séculos depois, sua frase “O homem é o dono do seu próprio destino” ecoa em cada movimento que luta por liberdade e dignidade.

Seu epitáfio, escrito por si mesmo, resume bem o espírito do velho combatente:
“Ele amou a humanidade, detestou a tirania e defendeu a verdade até o último dia.”

Pesquisa e redação Ivair Ximenes Lopes

Fontes

Marcado:

MM Ximenes

"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter. No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.

Deixe uma resposta

A Maçonaria Regular

3
4
1
2

 

A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.

 No Brasil, no simbolismo, apenas três "potências" são reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.

 A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.

 Uma Loja regular deve estar vinculada a uma das três potências reconhecidas no Brasil e seguir normas específicas de regularidade.

Maçonaria Regular MS

glems
goms
gob ms
glems

 

A maçonaria regular no Mato Grosso do Sul é composta pelo Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul (GOB-MS) (GOB), Grande Loja Maçônica do Estado do Mato Grosso do Sul (GLEMS) (CMSB) e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso do Sul (GOMS) (COMAB).

MS Maçom


Nossas TAGs

Assine a Newsletter

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

Junte-se a 9.605 outros assinantes

Desclpa! Você não pode copiar conteúdo desta página.

Descubra mais sobre MS MAÇOM

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading