Juan Antonio Vicente, Marquês de Bernez
Ao longo dos meus estudos sobre a história da Maçonaria, poucas figuras me despertaram tanta curiosidade quanto o Marquês de Bernez.
Ele não foi um filósofo de gabinete, nem um general vitorioso, nem um reformador político. Foi, antes de tudo, um elo perdido — um homem que, nas sombras do século XVIII, transportou os Altos Graus da Maçonaria da França para a Alemanha, plantando a semente que germinaria no Rito Escocês Antigo e Aceito que conhecemos hoje.
A sua vida, envolta em mistérios e lacunas históricas, é um convite a refletir sobre como um homem, mesmo quando a sua biografia se perde na neblina do tempo, pode mudar o curso da história.
Neste artigo, convido o leitor a conhecer a trajetória, a obra e as curiosidades desse enigmático marquês que, como poucos, compreendeu que a verdadeira iniciação não se esgota nos rituais, mas se propaga através das redes de fraternidade que tecem o mundo.
Biografia do Marquês de Bernez
Origens e Família
O Marquês de Bernez — cujo nome completo permanece incerto, sendo por vezes referido como Juan Antonio Vicente, Marquês de Bernez — era descendente de uma antiga família da nobreza francesa.
Um dos seus parentes estabeleceu-se em França, na região do Piemonte, e há registos de que membros da família serviram como cavaleiros ao serviço de Luís XI.
A sua linhagem remonta ao século XV, com o cavaleiro Alphonse de Bernez, que participou no levantamento do cerco de Compiègne.
A família Bernez tinha ligações à nobreza italiana, e alguns documentos mencionam um “Conde de Bernez” que aparece como Grande Mestre Provincial Inglês em listas gravadas para 1773. Esta multiplicidade de títulos — marquês, conde — sugere que a família possuía propriedades e influência em mais de um país.
A Vida na França e a Guerra
Pouco se sabe sobre a vida profana do Marquês de Bernez. O que se conhece, em grande medida, vem de relatos fragmentados sobre o seu papel na Maçonaria.
Sabe-se que era um oficial do exército francês e que, durante a Guerra dos Sete Anos (1756-1763), se encontrava entre os prisioneiros de guerra.
Foi precisamente nessa condição de prisioneiro que o seu caminho se cruzou com a história da Maçonaria.
Enquanto detido, entrou em contacto com membros da Loja de Berlim, a quem transmitiu os conhecimentos que possuía sobre os Altos Graus.
A Viagem a Berlim
Por volta de 1757 ou 1758, o Marquês de Bernez viajou para Berlim. A cidade era, na época, um refúgio para huguenotes franceses exilados, e a Maçonaria alemã encontrava-se num período de efervescência e transformação.
Foi nesse contexto que Bernez, possivelmente com outros oficiais do exército francês, introduziu na Alemanha o sistema de Altos Graus que, na França, já vinha sendo desenvolvido desde meados do século XVIII.
Este sistema, conhecido como Rito de Perfeição ou Rito de Heredom, viria a tornar-se a base do Rito Escocês Antigo e Aceito.
O Encontro com a Loja dos Três Globos
Bernez apresentou os Altos Graus à Grande Loja dos Três Globos de Berlim, uma das principais obediências maçónicas da Alemanha. A Loja, fundada em 1740, era na altura dirigida por maçons de origem francesa e huguenote, o que facilitou a receção do novo sistema.
A adopção dos Altos Graus pela Loja dos Três Globos marcou o início da penetração do chamado “Escocismo” na Alemanha.
A partir de Berlim, o sistema espalhou-se por outras Lojas alemãs, influenciando profundamente o desenvolvimento da Maçonaria germânica.
A Obra Maçónica do Marquês de Bernez
A Introdução dos Altos Graus na Alemanha
A principal contribuição do Marquês de Bernez para a Maçonaria foi a introdução dos Altos Graus na Alemanha.
Segundo Albert Mackey, na sua História da Franco-Maçonaria, os graus superiores do Rito de Perfeição foram transportados por Bernez para Berlim e adoptados pela Grande Loja dos Três Globos.
Este evento ocorreu num momento crucial da história da Maçonaria. A França, na década de 1740 e 1750, assistia a uma proliferação de novos graus e ritos, impulsionada pelo discurso do Cavaleiro Ramsay e pela criação do Capítulo de Clermont.
Bernez, como oficial do exército francês e maçom iniciado nestes mistérios, tornou-se um vector de transmissão deste conhecimento para o território alemão.
A Influência sobre o Barão von Hund e a Estrita Observância
A introdução dos Altos Graus por Bernez teve uma consequência inesperada e profunda. O sistema que ele trouxe para a Alemanha viria a influenciar directamente o Barão von Hund, que fundou o regime da Estrita Observância Templária.
Von Hund, impressionado com os graus superiores que conheceu através de Bernez, incorporou-os no seu próprio sistema, que pretendia restaurar a antiga Ordem dos Templários.
A Estrita Observância tornou-se uma das forças mais influentes da Maçonaria alemã na segunda metade do século XVIII, atraindo a adesão de numerosas Lojas e criando uma rede de Cavaleiros Templários na Europa Central.
A Controvérsia da “Mentira”
Curiosamente, a figura do Marquês de Bernez está associada a uma controvérsia histórica que alguns autores maçónicos designam como a “grande mentira”.
A questão prende-se com a origem dos Altos Graus e com o papel de Bernez na sua transmissão.
Alguns historiadores questionam se Bernez terá sido realmente o introdutor dos graus na Alemanha, ou se essa atribuição não será fruto de uma construção histórica posterior, destinada a legitimar determinadas linhagens maçónicas.
O que parece certo é que Bernez foi uma peça-chave num processo mais vasto de transmissão de conhecimentos iniciáticos, que envolveu múltiplos actores e múltiplas rotas.
Curiosidades sobre o Marquês de Bernez
1. Um prisioneiro de guerra que mudou a Maçonaria
Bernez estava entre os prisioneiros de guerra franceses durante a Guerra dos Sete Anos.
Foi nessa condição que contactou com a Loja de Berlim e transmitiu os Altos Graus.
A ironia é notável: um homem capturado tornou-se o arauto de uma nova forma de iniciação na Alemanha.
2. O título de “Marquês” e “Conde”
A sua titulação varia consoante as fontes. Umas referem-no como Marquês de Bernez, outras como Conde de Bernez.
Esta ambiguidade pode dever-se a diferentes ramos da família ou a diferentes títulos detidos em França e na Alemanha.
3. A ligação ao “Capítulo de Clermont”
O sistema de Altos Graus que Bernez introduziu na Alemanha estava estreitamente ligado ao Capítulo de Clermont, uma das principais fontes dos graus superiores na França.
O Capítulo, fundado em meados do século XVIII, foi uma das forças motrizes do chamado “Escocismo”.
4. Um elo entre a França e a Alemanha
A acção de Bernez insere-se num movimento mais amplo de intercâmbio entre as maçonarias francesa e alemã. Outros agentes, como o Barão von Hund, desempenharam papéis semelhantes, mas Bernez foi, segundo várias fontes, o primeiro a levar os Altos Graus a Berlim.
5. A controvérsia da autenticidade
Alguns autores questionam se Bernez terá realmente possuído uma patente legítima para estabelecer os Altos Graus na Alemanha, ou se terá agido por sua própria iniciativa.
Esta dúvida sobre a autenticidade da sua missão alimentou a lenda e a polémica em torno da sua figura.
6. A influência sobre o Rito Escocês
Embora Bernez não tenha fundado o Rito Escocês Antigo e Aceito, a sua acção de introduzir os Altos Graus na Alemanha foi um passo crucial na história deste Rito.
O Rito de Perfeição que ele transportou viria a ser a base do sistema de 33 graus que hoje conhecemos.
Legado do Marquês de Bernez
O legado do Marquês de Bernez é, acima de tudo, o legado de um elo de ligação entre duas tradições maçónicas. Ele foi o homem que, num momento crítico da história da Ordem, transportou os Altos Graus da França para a Alemanha, abrindo caminho para o desenvolvimento do Rito Escocês Antigo e Aceito.
A sua acção não foi isolada. Ela insere-se num movimento mais vasto de intercâmbio entre as maçonarias europeias, que na segunda metade do século XVIII assistiram a uma verdadeira explosão de novos graus e ritos.
Bernez foi um dos muitos agentes deste processo, mas a sua importância reside no facto de ter sido um dos primeiros a levar os graus superiores a um território onde eles ainda não existiam.
O seu legado perdura na estrutura do Rito Escocês, que se tornou o sistema de Altos Graus mais praticado do mundo.
E, talvez, o maior legado de Bernez seja a lição de que a Maçonaria não se constrói apenas com rituais e símbolos, mas com as redes de fraternidade que os homens tecem ao longo das suas vidas. Como ele próprio demonstrou, um prisioneiro de guerra, com uma patente nas mãos e uma visão no espírito, pode mudar o curso da história.
Pesquisa e Redação Ivair Ximenes Lopes
Referências Bibliográfica
Do «Escocismo» ao Grau 33 do R.E.A.A – percursos de um Rito (III) – freemason.pt
The Freemasons’ Quarterly Review, March 31, 1838 – p. 53
R.E.A.A. – do Grau de Mestre ao Grau 33 – origens e percursos de um Rito (II)
LOS FRANCISCANOS NUEVO MUNDO – dspace.unia.es
Capitulo de Clermont – Freimaurer-Wiki
Erasme Pincemaille – spincemaille.be
Historia de La Masoneria Vol 1 – es.scribd.com

“Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
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