Fernão de Magalhães (1480–1521): O Português que Planejou a Primeira Volta ao Mundo
Introdução
Confesso que, antes de estudar a fundo a figura de Fernão de Magalhães, eu o associava quase automaticamente à circum-navegação, sem compreender as circunstâncias trágicas e heroicas que marcaram sua jornada. Ao mergulhar em sua biografia, deparei-me com um homem que, desiludido com seu próprio rei, ofereceu seus serviços à coroa espanhola e partiu em uma missão que sabia ser perigosa demais.
Ele não pretendia dar a volta ao mundo — seu objetivo era encontrar uma passagem para o Pacífico pelo sul da América, um canal que permitisse às naus espanholas chegar às Molucas (as “Ilhas das Especiarias”) sem infringir os domínios portugueses. Foi perseguindo esse sonho que Magalhães descobriu o estreito que hoje leva seu nome, atravessou um oceano que ele mesmo batizou de “Pacífico” e chegou às Filipinas, onde encontrou a morte numa batalha contra nativos.
Sua história é, a meu ver, uma das mais trágicas e gloriosas da história da navegação — o relato de um homem que não completou a viagem, mas sem o qual a viagem jamais teria sido completada.
Biografia
Origens e Primeiros Anos
Fernão de Magalhães nasceu por volta de 1480 no norte de Portugal, provavelmente em Sabrosa (no distrito de Vila Real) ou no Porto. Era filho de Rodrigo de Magalhães, um fidalgo de origem nobre mas de poucos recursos, e de Alda de Mesquita. Órfão de pai aos dez anos, tornou-se pajem da rainha D. Leonor (esposa de D. João II) e depois serviu como escudeiro da rainha D. Maria (esposa de D. Manuel I), o que lhe proporcionou educação e contatos na corte.
Aos 22 anos, em 1505, alistou-se na armada do primeiro vice-rei da Índia, D. Francisco de Almeida, partindo para o Oriente. Pelos oito anos seguintes, participou de inúmeras batalhas e expedições militares em Malaca, no Mar Vermelho, na costa africana e no arquipélago malaio, adquirindo uma experiência inestimável em navegação e combate. No Oriente, feriu-se em combate e foi capturado, sendo resgatado mediante pagamento de resgate.
Desilusão com Portugal e Aliança com Espanha
Após retornar a Portugal em 1512, Magalhães serviu na expedição que conquistou a praça marroquina de Azamor, onde recebeu um ferimento que o deixou manco pelo resto da vida. Ao voltar a Lisboa, solicitou a D. Manuel I um aumento de sua pensão, uma compensação pelos serviços prestados. O rei, porém, não apenas recusou o pedido como lhe negou novos encargos. Magalhães sentiu-se desprezado e injustiçado.
Em 1517, insatisfeito e desiludido com o rei português, Magalhães transferiu sua lealdade para a Espanha. Casou-se com Beatriz Barbosa, filha de um alcaide espanhol, e propôs ao jovem rei Carlos I (futuro Carlos V, Sacro Imperador Romano-Germânico) um plano ousado: alcançar as Ilhas Molucas — ricas em especiarias, especialmente cravo e noz‑moscada — navegando para o oeste, contornando a América do Sul, evitando assim a rota portuguesa que contornava a África.
A Viagem da Circum‑navegação (1519-1522)
No dia 20 de setembro de 1519, Magalhães partiu do porto de Sanlúcar de Barrameda, na Espanha, com uma frota de cinco navios: Trinidad (capitânia), San Antonio, Concepción, Victoria e Santiago, e uma tripulação total de 234 homens de diversas nacionalidades. O plano era encontrar uma passagem através da América do Sul para o oceano que os portugueses já chamavam de “Mar do Sul”.
A travessia do Atlântico levou a frota à costa brasileira, onde ancoraram perto do Rio de Janeiro. Em janeiro de 1520, iniciaram a exploração meticulosa da costa sul-americana em busca da passagem. O inverno rigoroso forçou-os a buscar abrigo em Porto San Julián, na atual Patagônia argentina, onde enfrentaram uma terrível rebelião. No dia 1º de abril de 1520, capitães espanhóis sublevaram-se contra Magalhães, um português no comando de uma frota espanhola. Magalhães agiu com energia implacável: mandou executar Gaspar de Quesada (capitão da Concepción) e Luís de Mendoza (capitão da San Antonio) — este último morreu degolado por um dos homens leais ao general. Juan de Cartagena, líder da revolta, foi abandonado na costa patagônica. A disciplina foi restaurada à custa de sangue.
Durante a exploração, o navio Santiago naufragou em uma tormenta, e o San Antonio desertou, retornando à Espanha com provisões.
Finalmente, em 21 de outubro de 1520, Magalhães avistou um grande cabo que batizou de Cabo Vírgenes e, ao adentrar a enseada, descobriu o estreito que hoje leva seu nome. A travessia do estreito foi uma das mais perigosas da viagem: águas estreitas, correntes violentas, ventos furiosos e navegação noturna. Após 38 dias — o percurso pode ser feito hoje em poucas horas —, a frota emergiu no vasto oceano que Magalhães, impressionado pela calma das águas, batizou de “Mar Pacífico” .
A Travessia do Pacífico
Os três navios restantes (Trinidad, Victoria e Concepción) navegaram por 98 dias sem avistar terra, enfrentando fome, escorbuto e sede. Os homens comeram ratos, serragem e couro das velas. Dezenas morreram. Quando finalmente avistaram a ilha de Guam, em 6 de março de 1521, a tripulação estava à beira da morte.
A Morte nas Filipinas
Em 16 de março de 1521, a frota avistou o arquipélago que hoje conhecemos como Filipinas. Magalhães, que mantinha um escravo malaio chamado Henrique — capturado em Malaca anos antes —, pôde se comunicar com os nativos. Em Cebu, converteu ao cristianismo o rajá Humabon e cerca de 2.000 nativos.
Mas a intervenção de Magalhães numa luta entre tribos rivais selou sua sorte. Em 27 de abril de 1521, na Ilha de Mactan, liderou um ataque contra o chefe Lapu-Lapu com apenas 60 homens. Subestimou os guerreiros locais. Armado com couraça, elmo e espada, foi cercado e atingido por uma flecha envenenada no pé e por uma lançada na perna. Ferido, recuou com seus homens, que fugiram em pânico. Os nativos o reconheceram como o líder e o atacaram com lanças e facas. Fernão de Magalhães morreu ali, aos 41 anos.
O Fim da Viagem
Após sua morte, os remanescentes da tripulação queimaram a Concepción por falta de homens para manejá-la. Sob o comando de Juan Sebastián Elcano, a Victoria — o único navio que completaria a circum-navegação — cruzou o Oceano Índico, contornou o Cabo da Boa Esperança e retornou a Sanlúcar de Barrameda em 6 de setembro de 1522, com apenas 18 sobreviventes.
A Trinidad, que tentara retornar pelo Pacífico, foi capturada pelos portugueses nas Molucas.
Principais Conquistas
O legado de Fernão de Magalhães é inegável:
Descoberta do estreito que leva seu nome: Abriu a passagem do Atlântico para o Pacífico pelo sul do continente americano.
Primeira travessia documentada do Oceano Pacífico: Atravessou o maior oceano do mundo sem mapas, sem rotas conhecidas e com provisões absolutamente insuficientes.
Planejamento e liderança da primeira circum-navegação: Embora não a tenha completado, sua visão e seu comando foram indispensáveis para a viagem de Elcano.
Batismo do Oceano Pacífico: Impressionado com a placidez das águas após a tormenta do estreito, deu-lhe o nome que conserva até hoje.
Prova definitiva da esfericidade da Terra: A circum-navegação de Elcano demonstrou, de forma irrefutável, que a Terra é redonda e que os oceanos são interligados.
Curiosidades
O escravo Henrique: Homem livre capturado em Malaca, Henrique foi escravizado por Magalhães e o acompanhou por toda a viagem. Após a morte do capitão, Henrique, que já falava malaio, foi o intérprete entre os europeus e os nativos.
“Pacificador” em vão: O nome “Pacífico” dado por Magalhães ao oceano é irônico — a travessia que ele planejou foi uma das mais mortíferas da história da navegação.
A nau Victoria: O único navio a completar a circum-navegação pesava apenas 85 toneladas — menos do que um ônibus moderno. Hoje, uma réplica pode ser vista em Punta Arenas, no Chile.
Lapu-Lapu: Chefe tribal que liderou a resistência contra Magalhães em Mactan; é considerado o primeiro herói nacional das Filipinas e um símbolo de resistência anticolonial.
O navio que desertou: O San Antonio, que abandonou Magalhães antes da descoberta do estreito, retornou à Espanha com sua tripulação inócua; seus capitães foram presos e julgados.
O irmão de Magalhães: Diogo de Magalhães, seu irmão mais novo, também navegou com ele e sobreviveu à viagem, retornando a Portugal com a Victoria.
O monumento em Mactan: Duas estruturas opostas homenageiam os dois lados do confronto: uma estátua de Lapu-Lapu e um obelisco em memória de Magalhães.
Legado e Obras Inspiradas
A vida e a viagem de Magalhães inspiraram inúmeras obras:
Fernão de Magalhães (biografia de Stefan Zweig, 1938): O clássico do escritor austríaco, que narra a epopeia com sua prosa envolvente.
Viagem de Fernão de Magalhães (Manuscrito de Antonio Pigafetta, c. 1525): O relato em primeira mão do escrivão da expedição, a principal fonte sobre a viagem e a única que narra com detalhes a morte de Magalhães.
Fernão de Magalhães (minissérie da RTP, 2021): Produção portuguesa que retrata a vida do navegador, com destaque para sua desilusão com Portugal e seu serviço à Espanha.
Magalhães: Circum-navegação (programa da National Geographic): Série documental que reconstitui a viagem em detalhes.
Sin límites (série da Amazon Prime Video, 2022): Série espanhola estrelada por Rodrigo Santoro como Magalhães, que reconta a epopeia da circum-navegação.
Elcano & Magallanes (filme de animação espanhol, 2019): Animação voltada para o público jovem que narra a viagem.
O Estreito de Magalhães (poema de Pablo Neruda): O poeta chileno celebra a descoberta do estreito.
Monumento a Magalhães em Punta Arenas: Uma estátua de bronze do navegador erguida no centro da cidade, com um índio patagônico deitado aos seus pés.
Pesquisa e Redação Ivair Ximenes Lopes
Fontes de Pesquisa
Wikipédia, a enciclopédia livre. “Fernão de Magalhães”. [pt.wikipedia.org]
Ebiografia. “Fernão de Magalhães”. [www.ebiografia.com]
National Geographic Portugal. “Fernão de Magalhães e o estreito que tem hoje o seu nome”. 30 de maio de 2025. [www.nationalgeographic.pt]
Mundo Educação (UOL) . “Fernão de Magalhães e a volta ao mundo”. [mundoeducacao.uol.com.br]
Agência Brasil (EBC) . “História Hoje: Em 1519, navegador Fernão de Magalhães iniciava a primeira viagem feita pelo homem ao redor do mundo”. 20 de setembro de 2018. [agenciabrasil.ebc.com.br]
Padrão dos Descobrimentos. “MAGALHÃES, Fernão de (c. 1480-?)” . [padraodosdescobrimentos.pt]
Arquivo Nacional da Torre do Tombo. “A viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães”. [antt.dglab.gov.pt]

“Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau.
Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.
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