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Norbert Elias

Norbert Elias

Norbert Elias

Ao longo dos meus estudos sobre os grandes pensadores que moldaram a compreensão da sociedade, poucos me provocaram uma admiração tão profunda quanto Norbert Elias.

A sua trajetória de vida é, em si mesma, um testemunho da capacidade humana de resistir e de criar, mesmo quando todas as circunstâncias parecem conspirar contra.

Judeu alemão, obrigado a fugir do nazismo, viveu décadas de ostracismo académico, viu a sua obra-prima ser ignorada por trinta anos e, no entanto, não desistiu.

A sua teoria do “processo civilizador” não é apenas uma explicação sociológica; é a prova de que o pensamento de um homem pode antecipar o seu tempo e, décadas depois, tornar-se uma das chaves para compreender o mundo contemporâneo. Neste artigo, convido o leitor a conhecer a trajetória, as ideias e as curiosidades desse que é, justamente, um dos mais originais e influentes sociólogos do século XX.

Biografia de Norbert Elias

Origens, Juventude e Formação

Norbert Elias nasceu em 22 de junho de 1897 na cidade de Breslau (atual Wrocław, na Polónia), então parte da província da Silésia, no Império Alemão.

Filho único de Hermann Elias, um próspero comerciante têxtil, e de Sophie Elias, uma mulher de origem judaica, cresceu numa família abastada e culta, recebendo uma educação erudita no Johannesgymnasium de Breslau.

Em 1915, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, Elias interrompeu os estudos para se voluntariar no exército alemão, servindo como telegrafista nas frentes oriental e ocidental. Em 1917, após sofrer um colapso nervoso, foi declarado inapto para o combate e passou a servir como ordenança médica.

No mesmo ano, iniciou os estudos em filosofia, psicologia e medicina na Universidade de Breslau, passando também pelas universidades de Heidelberg e Friburgo. Em 1924, doutorou-se em filosofia com a tese Idee und Individuum (Ideia e Indivíduo), orientado por Richard Hönigswald.

Insatisfeito com o neo‑kantismo e a ausência da dimensão social na sua formação filosófica, Elias decidiu dedicar-se à sociologia. Foi em Heidelberg que teve contacto com os grandes nomes da sociologia alemã, em especial Alfred Weber (irmão de Max Weber) e Karl Mannheim. Com Mannheim, Elias preparava-se para a sua habilitação (livre‑docência) na Universidade de Frankfurt, quando a sua carreira foi abruptamente interrompida.

A Fuga do Nazismo e o Exílio

Com a ascensão de Hitler ao poder em 1933, Elias, sendo judeu, viu-se forçado a abandonar a Alemanha. A sua mãe, que permanecera em Breslau, viria a ser deportada para Auschwitz, onde provavelmente foi assassinada em 1941. O seu pai morrera em 1940.

Elias refugiou-se primeiro em Paris, em 1933, e depois, em 1935, estabeleceu-se na Inglaterra. Durante os primeiros anos em Londres, viveu em condições precárias, subsistindo com trabalhos ocasionais e com o apoio de uma pequena bolsa. Foi nesse período de exílio e isolamento que concluiu a sua obra magna.

O Processo Civilizador: Uma Obra Ignorada por Trinta Anos

Em 1939, na Suíça, Elias publicou, em dois volumes, “Über den Prozess der Zivilisation” (Sobre o Processo da Civilização).

A obra, escrita em alemão por um judeu exilado, não pôde ser vendida na Alemanha nem na Áustria e, por essa razão, permaneceu praticamente ignorada durante três décadas.

Apenas em 1954, já com 57 anos, Elias conseguiu uma posição académica estável, como professor na Universidade de Leicester. Mais tarde, lecionou na Universidade de Gana (1962-1964) e na London School of Economics.

A Redescoberta Tardia e o Reconhecimento Internacional

Foi apenas no final dos anos 1960 e início dos anos 1970 que a sua obra começou a ser redescoberta. Em 1969O Processo Civilizador foi reeditado na Alemanha. Em 1976, a edição em livro de bolso tornou-se um best-seller, e as traduções para o francês, inglês e outras línguas começaram a surgir. A partir de então, Elias, já na casa dos 70 anos, viu a sua fama espalhar-se por todo o mundo.

Em 1977, recebeu o prestigiado Prémio Theodor W. Adorno em Frankfurt. Em 1986, foi condecorado com a Grã-Cruz do Mérito com Estrela da Ordem do Mérito da República Federal da Alemanha. Foi também agraciado com o título de Comendador da Ordem de Orange-Nassau.

Morte

Norbert Elias faleceu em Amsterdã, a 1 de agosto de 1990, aos 93 anos.

Principais Obras e Pensamento

O Processo Civilizador (1939)

A sua obra-prima, O Processo Civilizador, é considerada um dos trabalhos mais importantes da sociologia do século XX. A obra é composta por dois volumes:

  • Volume I: A História dos Costumes: Elias traça a evolução dos padrões de comportamento na Europa Ocidental desde a Idade Média, analisando as mudanças nas atitudes em relação à violência, ao comportamento sexual, às funções corporais, à etiqueta à mesa e às formas de discurso. Ele demonstra como os limiares de vergonha e repugnância foram gradualmente elevados, a partir de um núcleo cortesão.

  • Volume II: A Dinâmica do Ocidente: Elias aborda as causas desses processos, reconhecendo-as nas interconexões sociais cada vez mais centralizadas e diferenciadas. O autocontrole passou a ser imposto por uma rede complexa de conexões sociais, desenvolvendo uma autopercepção psicológica que Freud designou por “superego”.

A tese central de Elias é que a “civilização” não é um estado fixo, mas um processo histórico de longo prazo, marcado pela monopolização crescente da violência legítima pelo Estado e pela interiorização do autocontrolo.

A Sociologia Figuracional

Elias desenvolveu uma abordagem teórica conhecida como sociologia dos processos ou sociologia figuracional. Em vez de opor o indivíduo à sociedade, Elias propôs o conceito de “figuração” — uma teia de interdependências entre seres humanos. A sociedade não é uma entidade externa que se impõe ao indivíduo, nem o indivíduo uma entidade autónoma que precede a sociedade; ambos são dimensões de uma mesma realidade dinâmica e processual.

Outras Obras Importantes

  • Os Estabelecidos e os Outsiders (1965): Um estudo sobre as relações de poder entre grupos, que mostra como o estigma e a exclusão social se perpetuam ao longo do tempo.

  • A Sociedade dos Indivíduos (1987): Uma reflexão sobre a relação entre o indivíduo e a sociedade.

  • Estudos sobre os Alemães (1989): Uma análise do habitus nacional alemão e das suas implicações históricas.

 Curiosidades sobre Norbert Elias

1. De médico a sociólogo
Elias iniciou os seus estudos em medicina e chegou a passar no exame preliminar (Physikum). Só depois de uma disputa com o seu orientador de doutoramento é que decidiu abandonar a filosofia e dedicar-se integralmente à sociologia.

2. O “best-seller” tardio
O Processo Civilizador foi publicado em 1939 e praticamente ignorado por três décadas. Foi apenas em 1976, quando foi lançado como livro de bolso, que se tornou um best-seller. Elias já tinha 79 anos quando a sua obra finalmente alcançou o grande público.

3. A dor da perda familiar
O seu pai faleceu em Breslau em 1940, e a sua mãe foi deportada para Auschwitz, onde provavelmente foi assassinada em 1941. Elias nunca mais viu os pais depois de deixar a Alemanha.

4. Professor universitário apenas aos 57 anos
Apesar da sua brilhante formação, Elias só conseguiu uma posição académica estável aos 57 anos, na Universidade de Leicester, em 1954. Até então, vivera na Inglaterra com trabalhos precários e bolsas de investigação.

5. O “último grande sociólogo clássico”
Elias é frequentemente descrito como o “último grande sociólogo clássico” . O sociólogo Zygmunt Bauman reconheceu-o como “o grande sociólogo do nosso tempo, que há muito antecipou soluções para problemas com que todos os sociólogos do mundo tentam (em vão) lidar”.

6. A interdisciplinaridade como método
Elias foi um dos primeiros sociólogos a integrar sistematicamente a psicanálise na sua análise sociológica. A sua abordagem combinava sociologia, história, psicologia e antropologia.

7. Viajante e cosmopolita
Elias lecionou em universidades de vários países, incluindo Inglaterra, Gana, Alemanha e Países Baixos. Foi professor visitante em diversas instituições norte-americanas.

8. O reconhecimento em vida
Apesar do reconhecimento tardio, Elias recebeu algumas das mais altas distinções da Alemanha, incluindo a Grã-Cruz do Mérito com Estrela da Ordem do Mérito da República Federal da Alemanha e o Prémio Theodor W. Adorno.

9. A sua teoria aplicada ao desporto
A sociologia figuracional de Elias encontrou uma aplicação fecunda no estudo do desporto, especialmente através do seu colaborador Eric Dunning. Elias analisou como o desporto moderno, com as suas regras e mecanismos de autocontrolo, é um exemplo do processo civilizador em ação.

10. Um intelectual que nunca deixou de escrever
Apesar da idade avançada, Elias continuou a publicar até aos seus últimos anos. As suas obras A Sociedade dos Indivíduos e Estudos sobre os Alemães foram publicadas quando ele já tinha mais de 80 anos.

Legado de Norbert Elias

O legado de Norbert Elias é imenso e continua a influenciar a sociologia contemporânea.

Na teoria sociológica, Elias rompeu com o dualismo entre indivíduo e sociedade, oferecendo uma visão processual e relacional do mundo social. A sua sociologia figuracional antecipou muitos dos debates atuais sobre a agência e a estrutura, mostrando que os indivíduos não são meros produtos das estruturas sociais, mas agentes que, através das suas interdependências, dão forma a essas mesmas estruturas.

Na história e na antropologia, a sua abordagem histórica de longo prazo influenciou profundamente o estudo das mudanças culturais e dos processos civilizadores. Elias mostrou que os padrões de comportamento que consideramos “naturais” são, na verdade, o produto de transformações históricas complexas.

Nos estudos sobre violência e poder, a sua análise da monopolização da violência legítima pelo Estado continua a ser uma referência fundamental para a compreensão da formação dos Estados modernos.

Na metodologia, Elias defendeu uma abordagem que integra o empírico e o racional, que evita os dualismos e que se envolve dinamicamente com a vida social. A sua obra é um exemplo de como a investigação empírica detalhada pode sustentar uma teoria social de grande alcance.

No debate contemporâneo, as suas ideias têm sido aplicadas a uma vasta gama de temas, desde a violência no desporto até à exclusão social, passando pelas relações de género e pela análise dos processos de globalização.

E, talvez, o maior legado de Elias seja a lição de que a paciência e a persistência podem vencer o ostracismo e o esquecimento. Ele esperou décadas para ver a sua obra reconhecida, mas nunca deixou de acreditar nela. A sua vida é um testemunho de que as grandes ideias, mesmo quando ignoradas, acabam por encontrar o seu tempo.

Pesquisa e Redação Ivair Ximenes Lopes

Fontes

  • Norbert Elias – Wikipédia, a enciclopédia livre

  • About Norbert Elias – Centre Norbert Elias

  • Podcast Hoje na História: 1990 – morre o sociólogo alemão Norbert Elias – Opera Mundi

  • Norbert Elias – Britannica

  • Norbert Elias – Wikipedia (em inglês)

  • O mestre das figurações – Folha de S.Paulo

  • Norbert Elias – Wikipedia (em espanhol)

  • Norbert Elias – Ecured

  • Norbert Elias and Figurational Sociology – SciELO

  • Norbert Elias e Theodor W. Adorno – Educa FCC

  • Norbert Elias – TheFreeDictionary

  • O Processo Civilizatório – Wikipédia

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MM Ximenes

"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter. No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.

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A Maçonaria Regular

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A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.

 No Brasil, no simbolismo, apenas três "potências" são reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.

 A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.

 Uma Loja regular deve estar vinculada a uma das três potências reconhecidas no Brasil e seguir normas específicas de regularidade.

Maçonaria Regular MS

glems
goms
gob ms
glems

 

A maçonaria regular no Mato Grosso do Sul é composta pelo Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul (GOB-MS) (GOB), Grande Loja Maçônica do Estado do Mato Grosso do Sul (GLEMS) (CMSB) e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso do Sul (GOMS) (COMAB).

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