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Henrique VIII (1491 – 1547): O Rei que Rompeu com Roma e Fundou uma Nova Igreja por Amor

Henrique VIII (1491 – 1547) O Rei que Rompeu com Roma e Fundou uma Nova Igreja por Amor

Henrique VIII (1491 – 1547): O Rei que Rompeu com Roma e Fundou uma Nova Igreja por Amor

Introdução 

Confesso que, antes de me debruçar seriamente sobre a figura de Henrique VIII, eu o enxergava como uma caricatura — o rei obeso de pernas ulceradas que decapitava esposas como quem troca de camisa. No entanto, ao aprofundar minha pesquisa, deparei-me com um personagem muito mais complexo e, em muitos aspectos, trágico.

Na juventude, ele foi descrito como “um dos mais carismáticos reis a ocupar o trono da Inglaterra”: media cerca de 1,85 metro, era atlético, culto, poliglota, músico talentoso e profundamente piedoso. Escreveu tratados teológicos, compôs canções, dançava com entusiasmo e encantava todos à sua volta. O embaixador veneziano, em 1515, relatou que ele “fala francês, inglês e latim, e um pouco de italiano, toca bem o alaúde e o cravo, canta à primeira vista, puxa o arco com maior força que qualquer outro homem na Inglaterra e justa maravilhosamente”.

Esse príncipe renascentista, porém, transformou-se gradualmente no tirano que a história conhece: um homem que mandou executar duas de suas esposas, rompeu com a Igreja Católica, dissolveu os mosteiros, ordenou a execução de 72 mil rebeldes papistas e morreu sozinho, obeso e atormentado por uma perna ulcerada que exalava odor pútrido. Sua história — a de um monarca que colocou o desejo de um herdeiro varão acima da tradição, da e da própria humanidade — é, a meu ver, uma das mais fascinantes e perturbadoras da história da realeza.

Neste artigo, convido o leitor a conhecer a trajetória desse homem que, movido pelo amor (e pela obsessão), criou a Igreja Anglicana e, ao fazê-lo, mudou para sempre a história da Inglaterra e do mundo.

Biografia

Origens e Primeiros Anos: O Segundo Filho que se Tornou Herdeiro

Henrique Tudor nasceu em 28 de junho de 1491 no Palácio de Placentia, em Greenwich, filho do rei Henrique VII da Inglaterra (primeiro monarca da dinastia Tudor) e de Isabel de Iorque. Curiosamente, ele não nasceu para ser rei.

Era o segundo filho homem do casal, precedido por seu irmão mais velhoArthur, Príncipe de Gales, que desde o berço era preparado para o trono. Henrique, como segundo filho, foi inicialmente destinado à carreira eclesiástica — e foi por isso que recebeu uma educação excepcionalmente refinada, na qual a música, a teologia, as línguas e as boas maneiras ocupavam lugar central.

Sua mãe, Isabel de Iorque, descendente da Casa de Iorque, morreu quando Henrique tinha apenas 11 anos, em 1503. Seu pai, Henrique VII, era um monarca impopular, conhecido por sua avareza e por sua política de exaurir a nobreza para encher os cofres reais — uma imagem da qual o jovem Henrique, anos depois, faria questão de se distanciar.

A Morte do Irmão e a Ascensão Inesperada

Em 1502, o destino de Henrique mudou para sempre. Seu irmão Arthur, que havia se casado com Catarina de Aragão apenas alguns meses antes, faleceu subitamente, provavelmente de tuberculose. Henrique tornou-se, então, o herdeiro do trono.

Para manter a aliança com a Espanha, Henrique VII negociou com os reis católicos Fernando e Isabel um novo casamento: o futuro rei Henrique VIII desposaria Catarina, a viúva de seu irmão. Para tanto, foi necessária uma dispensa papal, uma vez que a união com a cunhada era proibida pela lei canônica. A dispensa foi concedida com base na alegação de que o casamento entre Arthur e Catarina nunca havia sido consumado.

Ascensão ao Trono e os Primeiros Anos: O Príncipe Renascentista

Em 21 de abril de 1509, Henrique VII faleceu, e o jovem Henrique, então com 17 anos, ascendeu ao trono. A coroação ocorreu em 24 de junho de 1509, e, poucas semanas depois, ele desposou Catarina de Aragão na cerimônia que selaria o destino do reino.

Os primeiros anos de seu reinado foram de esperança e otimismo. Diferentemente de seu pai, Henrique VIII era generoso, carismático, bonito, culto e amante dos esportes. Para marcar a ruptura com a impopular administração paterna, ele prendeu e executou os dois ministros mais odiados de seu pai, Ricardo Empson e Edmundo Dudley, acusados de traição, e devolveu ao povo parte do dinheiro que eles haviam extorquido.

A Busca pelo Herdeiro Varão e a Paixão por Ana Bolena

A rainha Catarina de Aragão deu à luz vários filhos, mas apenas um sobreviveu à infância: a princesa Maria (futura Maria I da Inglaterra), nascida em 1516. A falta de um herdeiro varão atormentava Henrique, que temia que a frágil dinastia Tudor, ainda não consolidada, pudesse ruir com sua morte.

Por volta de 1522, o rei, então com 31 anos, encantou-se por uma dama de companhia da rainha: Ana Bolena, uma jovem sofisticada que havia passado parte de sua juventude na corte francesa. Diferentemente de outras amantes, Ana recusou-se a tornar-se apenas mais uma concubina. Ela queria a coroa — ou nada.

Henrique, obcecado, tentou obter do papa Clemente VII a anulação de seu casamento com Catarina, alegando que o casamento era inválido porque Catarina havia sido esposa de seu irmão. A base legal era questionável, uma vez que a dispensa papal havia sido concedida.

Mas o verdadeiro obstáculo não era teológico: o papa estava sob a influência de Carlos V, Sacro Imperador Romano-Germânico, que era sobrinho de Catarina de Aragão.

Clemente VII não podia anular o casamento sem incorrer na fúria do imperador.

A Ruptura com Roma e o Nascimento da Igreja Anglicana

Após anos de negociações infrutíferas, Henrique tomou uma atitude radical. Em 1534, fez o Parlamento aprovar o Ato de Supremacia, declarando o rei como “Chefe Supremo da Igreja da Inglaterra” e separando a Igreja Inglesa da autoridade papal. Ele mesmo foi excomungado por Roma.

A ruptura, no entanto, não foi motivada por convicções teológicas profundas. Henrique, até o fim de sua vida, considerou-se um católico, acreditava na transubstanciação, na virgindade de Maria e nos demais dogmas essenciais da romana. Sua reforma foi puramente institucional e política: ele queria o controle sobre a igreja inglesa, não sua transformação doutrinária. O que se seguiu, porém, escapou ao seu controle. Após sua morte, seus sucessores — Eduardo VI, com suas reformas protestantes radicais, e especialmente Elizabeth I, com seu Assentamento Religioso — transformariam a Igreja da Inglaterra na instituição distintamente anglicana que conhecemos hoje.

O preço da ruptura foi altíssimo. Estima-se que 72 mil rebeldes papistas — os chamados “Peregrinação da Graça” (1536-1537) — tenham sido mortos durante o reinado de Henrique, incluindo milhares de monges e intelectuais como o filósofo Sir Thomas Morus, ex-chanceler da Coroa e autor de Utopia, que foi decapitado por se recusar a reconhecer o rei como chefe da igreja.

A Dissolução dos Mosteiros

Entre 1536 e 1541, Henrique ordenou a Dissolução dos Mosteiros — o confisco sistemático de terras, propriedades e riquezas dos mosteiros, conventos e outras instituições religiosas católicas na Inglaterra, no País de Gales e na Irlanda. O rei justificou a medida alegando “corrupção” e “vícios” entre os religiosos, mas o verdadeiro motivo era financeiro. As terras confiscadas foram vendidas a preços baixos para a nobreza e a classe média ascendente, que, em troca, tornaram-se firmes apoiadoras da nova ordem religiosa.

As Seis Esposas: Casamento, Decapitação e Tragédia

Henrique VIII é mais conhecido por seus seis casamentos — um registro que nenhum outro monarca inglês jamais igualou. O destino de suas esposas é resumido em uma famosa rima infantil: “divorciada, decapitada, morreu; divorciada, decapitada, sobreviveu“.

EsposaPeríodoDestinoFilhos
Catarina de Aragão (esposa de seu irmão Arthur)1509-1533Divórcio (anulado)Maria I (futura rainha)
Ana Bolena (a grande paixão)1533-1536Decapitada por adultério, incesto e traiçãoIsabel I (futura rainha)
Joana Seymour (a que lhe deu o herdeiro)1536-1537Morreu de febre puerperal 12 dias após o partoEduardo VI (futuro rei)
Ana de Cleves (a “égua de Flandres” rejeitada)Janeiro-julho de 1540Divórcio (anulação)Nenhum
Catarina Howard (a jovem imprudente)1540-1541Decapitada por adultérioNenhum
Catarina Parr (a enfermeira culta)1543-1547Sobreviveu ao reiNenhum

primeira esposa, Catarina de Aragão, foi repudiada após 24 anos de casamento, apesar de sua lealdade e dignidade. Foi banida da corte e morreu em 1536, isolada, sem jamais ver novamente a filha Maria.

segunda esposa, Ana Bolena, a mulher por quem Henrique rompeu com Roma e fundou uma nova igreja, foi acusada pelo próprio rei de adultério, incesto com seu irmão e até magia negra — acusações quase certamente forjadas. Em 19 de maio de 1536, foi decapitada na Torre de Londres por um carrasco especialista trazido da França. No dia seguinte, Henrique já estava noivo de Joana Seymour.

terceira esposa, Joana Seymour, finalmente lhe deu o tão aguardado herdeiro varão, o futuro Eduardo VI, mas morreu de febre puerperal apenas doze dias após o parto. Henrique, que talvez tenha amado Joana mais sinceramente do que qualquer outra, mandou enterrar-se ao lado dela em Windsor.

quarta esposa, Ana de Cleves, foi escolhida por razões diplomáticas, após a morte de Joana. Henrique enviou o pintor Hans Holbein, o Jovem, para retratá-la, e encantou-se com a imagem. Mas, ao encontrá-la pessoalmente, ficou horrorizado — teria chamado-a de “égua de Flandres” — e tentou desfazer o casamento imediatamente. O divórcio foi negociado em termos generosos, e Ana recebeu o título de “Irmã do Rei”, além de propriedades e pensão vitalícia.

quinta esposa, Catarina Howard (prima de Ana Bolena), era jovem, bela e imprudente. Acusada de adultério (e talvez de fato culpada), foi decapitada em 13 de fevereiro de 1542, aos 17 ou 18 anos.

sexta esposa, Catarina Parr, era uma mulher culta, escritora e reformista moderada, que atuou como enfermeira do rei em seus últimos anos e sobreviveu a ele.

O Acidente que Mudou Tudo

Em janeiro de 1536, durante uma justa (torneio medieval), o rei, então com 44 anos, caiu do cavalo com todo o peso de sua armadura e permaneceu inconsciente por duas horas. O acidente deixou-lhe uma ferida na perna que nunca cicatrizou adequadamente, tornando-se uma úlcera purulenta e fétida que lhe causava dores constantes.

Muitos historiadores acreditam que Henrique sofreu uma lesão cerebral traumática nessa queda. Danos no lobo frontal do cérebro podem causar mudanças drásticas de personalidade: irritabilidade, explosões de raiva, perda de controle emocional, paranoia e comportamento errático. Foi após 1536 que Henrique se tornou verdadeiramente tirânico. Nos quatro meses seguintes, ele decapitou Ana Bolena, e seu comportamento geral tornou-se cada vez mais imprevisível e violento.

Outra teoria médica, apresentada por pesquisadores em 2011, sugere que Henrique era portador da síndrome de McLeod, uma doença genética rara ligada ao cromossomo X, que afeta o sangue, o cérebro, o sistema nervoso e o coração. Essa condição explicaria tanto seus problemas reprodutivos (incompatibilidade sanguínea com as esposas) quanto sua deterioração mental na idade adulta.

Últimos Anos e Morte

Nos últimos anos, Henrique tornou-se um homem irreconhecível. A ferida na perna nunca cicatrizou, exalava odor nauseabundo e o impedia de fazer exercícios físicos. Engordou excessivamente — estima-se que sua cintura tenha atingido 1,50 metro — e precisava ser transportado por polias e mecanismos para se locomover. Continuou comendo e bebendo em excesso, isolado em seus aposentos, atormentado pela dor e pela culpa (embora dificilmente admitisse esta última).

Henrique VIII faleceu no Palácio de Whitehall, em Londres, em 28 de janeiro de 1547, aos 55 anos de idade. Foi sepultado na Capela de São Jorge, no Castelo de Windsor, ao lado de sua terceira esposa, Joana Seymour, a única que lhe dera o herdeiro varão. Sua filha Elizabeth I (que reinaria de 1558 a 1603) e seu filho Eduardo VI (1547-1553) estão sepultados nas proximidades.

Feitos e Conquistas

O legado de Henrique VIII, embora profundamente controverso, é inegavelmente transformador:

  1. Fundador da Igreja da Inglaterra (Anglicanismo): A ruptura com Roma em 1534 separou a Igreja Inglesa da autoridade papal e estabeleceu o monarca como seu chefe supremo — um ato que transformaria para sempre a relação entre Estado e religião na Inglaterra.

  2. Dissolução dos Mosteiros: O confisco das terras e propriedades monásticas entre 1536 e 1541 redistribuiu a riqueza da Igreja para a nobreza e a classe média, criando uma nova elite leal à dinastia Tudor e acelerando a transição da Inglaterra para um Estado moderno.

  3. Unificação legal de Inglaterra e Gales: Henrique realizou a união legal da Inglaterra e Gales por meio dos Atos das Leis em Gales de 1535 e 1542.

  4. Expansão da Marinha Real: Henrique investiu pesadamente na fundação e modernização da Marinha Real Inglesa, estabelecendo as bases para a potência naval que dominaria os oceanos nos séculos seguintes.

  5. Patrono do Renascimento Inglês: Henrique foi um mecenas das artes e da cultura, atraindo para sua corte os maiores talentos da época, incluindo o pintor Hans Holbein, o Jovem (autores dos mais famosos retratos do rei), e o músico William Cornysh.

  6. Legado Arquitetônico: Embora tenha destruído muitos mosteiros, Henrique também construiu e ampliou palácios magníficos, incluindo Hampton Court (o mais suntuoso de sua época), o Palácio de Whitehall (que seria consumido pelo fogo em 1698) e o Hospital de São Bartolomeu.

Curiosidades

  1. Eleito o “pior monarca da história inglesa”: Em 2015, Henrique VIII foi considerado o pior monarca da história inglesa pela Associação dos Escritores Históricos do Reino Unido.

  2. Católico até o fim: Apesar de ter sido excomungado e de ter rompido com Roma, Henrique sempre se considerou um católico devoto, acreditando na transubstanciação e nos demais dogmas essenciais da romana. A Igreja Anglicana, tal como a conhecemos, foi obra de seus filhos.

  3. Músico e compositor talentoso: Poucos sabem que Henrique VIII foi um músico e poeta talentoso. Ele possuía uma vasta coleção de instrumentos — incluindo 5 gaitas de fole, 78 flautas doces e um virginal mecânico — e foi um excepcional flautista. O “Manuscrito de Henrique VIII” contém 34 composições atribuídas ao rei, abrangendo uma impressionante variedade de estilos vocais e instrumentais. Sua obra mais famosa, “Pastime with Good Company”, tornou-se conhecida em toda a Inglaterra, e historiadores afirmam que sua filha Elizabeth I também a tocava em sua corte.

  4. A lenda de “Greensleeves”: A famosa canção folclórica inglesa “Greensleeves” é tradicionalmente atribuída a Henrique VIII, que supostamente a teria composto para Ana Bolena. A lenda é encantadora, mas é falsa: a canção foi composta por Richard Jones em 1580, mais de 30 anos após a morte de Henrique e 44 anos após a execução de Ana.

  5. “Defensor da : Em 1521, antes de sua ruptura com Roma, Henrique escreveu um tratado teológico atacando Martinho Lutero, intitulado “Assertio Septem Sacramentorum” (“Defesa dos Sete Sacramentos”). Como recompensa, o papa Leão X concedeu-lhe o título de “Defensor da  (Fidei Defensor). O título foi mantido pelos monarcas ingleses mesmo após a separação de Roma e ainda hoje aparece nas moedas britânicas como “F.D.”.

  6. O rei dos animais exóticos: Henrique adorava animais de estimação e mantinha verdadeiros zoológicos particulares. Tinha furões, falcões, gaviões, cães de caça (especialmente beaglesspaniels e greyhounds, estes considerados uma raça especialmente nobre), e até um marmoset (um pequeno primata) que recebeu de presente. Entre seus cães favoritos, estavam dois chamados Cut e Ball — nomes que hoje soam curiosos, mas eram comuns na época.

  7. Colecionador de esposas e de … instrumentos: O rei possuía mais de 70 instrumentos musicais, incluindo 78 flautas, 5 gaitas de fole e um virginal mecânico — uma coleção impressionante que rivalizava com a de qualquer corte europeia.

  8. Obcecado por saúde e mortalidade: Henrique vivia obcecado com sua saúde e com a possibilidade de morrer sem um herdeiro varão. Ele mantinha uma equipe permanente de médicos, astrólogos e “especialistas” em fertilidade, consultava-os diariamente e tomava poções e remédios de todos os tipos — muitos dos quais provavelmente agravaram seus problemas de saúde.

  9. A síndrome de McLeod e a mudança de personalidade: Teorias médicas modernas sugerem que Henrique pode ter sido portador da síndrome de McLeod, uma rara doença genética que altera a personalidade na idade adulta. Isso explicaria sua transformação de “príncipe renascentista” em “tirano medieval”.

  10. Enterrado com Joana Seymour: Henrique manifestou o desejo de ser sepultado ao lado de Joana Seymour, a única esposa que lhe dera o herdeiro varão. Seu desejo foi atendido.

Obras de Henrique VIII

Embora Henrique seja muito mais conhecido como rei do que como intelectual ou artista, ele deixou uma produção significativa nas áreas da teologia, da música e da poesia:

Tratado Teológico

  • Assertio Septem Sacramentorum (“Defesa dos Sete Sacramentos”, 1521): Tratado escrito por Henrique em resposta a Martinho Lutero, defendendo a doutrina católica dos sete sacramentos. A obra lhe rendeu o título de “Defensor da  (Fidei Defensor) do papa Leão X, título que os monarcas britânicos ainda mantêm. O texto foi elogiado por Erasmo de Roterdã, que o dedicou ao rei.

Música e Poesia

  • Manuscrito de Henrique VIII (Henry VIII Manuscript): Compilado em sua corte entre 1510 e 1530, o manuscrito contém 34 composições atribuídas ao rei, abrangendo baladas, canções sacras e peças instrumentais. As composições refletem sua vida na corte, suas preocupações cavalheirescas, o “jogo do amor” que ditava a etiqueta cortesã e sua luta para equilibrar prazeres juvenis com os deveres do bom governo. Embora o manuscrito não pertencesse diretamente a Henrique, foi compilado por alguém próximo a ele e captura o animado ambiente musical de sua corte.

  • Pastime with Good Company (“Passatempo em Boa Companhia”): Sua canção mais famosa, que reflete seu amor pela caça, pelo canto, pela dança e pelos esportes. A obra sobreviveu até hoje e é frequentemente regravada por músicos modernos, incluindo bandas de folk rock e rock progressivo. A letra reflete sua filosofia de vida: “A juventude deve ter algum galanteio, / De bom ou mau algum passatempo. / Pois a ociosidade / É a grande senhora de todos os vícios”.

  • “Green Sleeves” * (atribuição apócrifa*): Embora a tradição popular atribua essa famosa canção a Henrique VIII, composta para Ana Bolena, a atribuição é apócrifa. A canção foi composta por Richard Jones em 1580, mais de 30 anos após a morte de Henrique. A lenda, porém, persiste.

Obras Inspiradas em Henrique VIII

A vida do rei inspirou inúmeras obras literárias, cinematográficas e artísticas ao longo dos séculos:

  • Henry VIII (peça teatral, c. 1613): Peça atribuída a William Shakespeare e John Fletcher, que retrata os últimos anos do reinado de Henrique, incluindo o julgamento do Duque de Buckingham e o nascimento de Elizabeth I. A peça é uma das últimas obras do Bardo e contém a famosa cena em que o arcebispo Cranmer prevê o futuro glorioso da princesa Elizabeth.

  • The Tudors (série de TV, 2007-2010): Série de quatro temporadas estrelada por Jonathan Rhys Meyers como Henrique VIII, que se tornou um fenômeno cultural mundial e popularizou a história do rei para uma nova geração. A série retrata os seis casamentos, a ruptura com Roma e a queda de Ana Bolena.

  • Wolf Hall (romance de Hilary Mantel, 2009, e minissérie de TV, 2015): O romance vencedor do Man Booker Prize retrata a ascensão de Thomas Cromwell na corte de Henrique VIII, oferecendo uma visão complexa e matizada do rei. A minissérie estrelada por Damian Lewis como Henrique foi aclamada pela crítica.

  • Henry VIII and His Six Wives (série documental da BBC, 1970): Minissérie estrelada por Keith Michell, que alternava cenas dramatizadas com narração histórica.

  • A Man for All Seasons (“O Homem que Não Vendeu Sua Alma”, 1966): Filme vencedor de 6 Oscars que retrata a recusa de Sir Thomas Morus em reconhecer a supremacia real e sua consequente execução. Henrique VIII aparece como uma figura ameaçadora, embora não seja o protagonista.

  • Firebrand (2024): Filme do diretor brasileiro Karim Aïnouz, estrelado por Jude Law como Henrique VIII e Alicia Vikander como Catarina Parr, que retrata os últimos anos do rei, já obeso, doentio e paranoico. O filme é baseado no romance Xeque-Mate da Rainha, de Elizabeth Freemantle.

  • The Private Life of Henry VIII (1933): Filme britânico estrelado por Charles Laughton, que lhe rendeu o Oscar de Melhor Ator, e que se concentra na vida pessoal do rei.

  • The Other Boleyn Girl (romance de Philippa Gregory, 2001; filme de 2008): Narrativa ficcional da rivalidade entre as irmãs Ana e Maria Bolena na corte de Henrique VIII.

Considerações Finais

Ao final desta pesquisa, fica evidente que Henrique VIII foi um dos personagens mais contraditórios e fascinantes da história inglesa. Foi um homem de extremos: na juventude, carismático, culto, bonito, atlético, generoso e profundamente religioso; na maturidade, cruel, paranoico, impulsivo, obeso e atormentado por dores físicas e emocionais.

Sua grande ironia é que a ruptura com Roma, motivada pelo desejo desesperado de um herdeiro varão e por uma paixão avassaladora por Ana Bolena, não lhe rendeu a felicidade que buscava. A segunda esposa, por quem ele sacrificara tudo, foi decapitada poucos anos depois, sob acusações falsas. O tão desejado herdeiro varão, Eduardo VI, morreu adolescente após apenas seis anos de reinado. Foram suas filhas — Maria, a católica sanguinária, e Isabel, a grande rainha protestante — que garantiram a continuidade da dinastia e o futuro da Inglaterra. E foi Isabel, não Henrique, quem consolidou a Igreja Anglicana como uma via média entre Roma e Genebra.

Seu corpo repousa em Windsor ao lado de Joana Seymour — a única esposa que lhe dera o herdeiro. Mas seu legado, contraditório e brutal, permanece vivo: a Igreja da Inglaterra, que ele criou por razões egoístas, tornou-se uma das instituições religiosas mais influentes do mundo; a Marinha Real, que ele fundou, dominou os oceanos por séculos; e a Inglaterra, que ele ajudou a forjar como Estado-nação, emergiria sob sua filha Isabel como uma das maiores potências da história.

Henrique VIII foi, em muitos aspectos, um monstro. Mas foi também um gênio político, um patrono das artes e um homem de profunda — embora distorcida — . Talvez a melhor maneira de entendê-lo seja como um homem que, como tantos outros, foi consumido por suas próprias obsessões: o amor, o poder, a posteridade. E, ao final, como registrou seu biógrafo Einhard (sobre outro imperador), ele morreu sozinho, cercado por tesouros, mas vazio por dentro.

Pesquisa e Redação Ivair Ximenes Lopes

Fontes de Pesquisa

Wikipédia, a enciclopédia livre. “Henrique VIII de Inglaterra”. [pt.wikipedia.org]
Wikipédia, a enciclopédia livre. “Henry VIII”. [pt.m.wikipedia.org]
Britannica. “Henry VIII | Biography, Wives, Religion, Death, & Facts”. [www.britannica.com]
Aventuras na História. “A polêmica vida íntima do rei Henrique VIII”. 2 de novembro de 2019. [aventurasnahistoria.com.br]
Aventuras na História. “Há 476 anos, morria o rei Henrique VIII”. 28 de janeiro de 2020. [aventurasnahistoria.com.br]
Aventuras na História. “O acidente que teria mudado a vida de Henrique VIII para sempre”. 24 de janeiro de 2021. [aventurasnahistoria.com.br]
Estado de Minas (EM.com.br) . “Henrique VIII pode ter sido vítima de rara síndrome que muda o comportamento”. Paloma Oliveto, 13 de maio de 2011.
BBC News Brasil. “‘Um monstro’: o que a história não mostra sobre o rei Henrique 8º”. Emma Jones, BBC Culture. 22 de setembro de 2024. [www.bbc.com/portuguese]
Tudor Brasil. “A música de Henrique VIII – Pastime with good company”. 21 de setembro de 2013. [tudorbrasil.com.br]
Interlude.hk. “King Henry VIII as a Composer”. 18 de junho de 2023. [interlude.hk]
Infopédia. “Henrique VIII”. Porto Editora. [www.infopedia.pt]
The Tudor Society. “4 December – King Henry VIII’s dogs”. [www.tudorsociety.com]
This response is AI-generated, for reference only.

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MM Ximenes

"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter. No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.

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A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.

 No Brasil, no simbolismo, apenas três "potências" são reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.

 A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.

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A maçonaria regular no Mato Grosso do Sul é composta pelo Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul (GOB-MS) (GOB), Grande Loja Maçônica do Estado do Mato Grosso do Sul (GLEMS) (CMSB) e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso do Sul (GOMS) (COMAB).

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