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A Segunda Grande Loja da Inglaterra: A Rebelião dos ‘Antigos’ e o Cisma que Forjou a Maçonaria Moderna (1751-1813)

A Segunda Grande Loja da Inglaterra A Rebelião dos 'Antigos' e o Cisma que Forjou a Maçonaria Moderna

A Segunda Grande Loja da Inglaterra: A Rebelião dos ‘Antigos’ e o Cisma que Forjou a Maçonaria Moderna (1751-1813)

1. Introdução

No panorama complexo da história maçónica inglesa, a criação da Segunda Grande Loja, conhecida como a “Grande Loja dos Antigos” ou “Atholl Grand Lodge”, representa um dos mais significativos e controversos capítulos de cisma e renovação institucional. Se a fundação da Primeira Grande Loja em 1717 marcou o nascimento da Maçonaria especulativa moderna, o surgimento de um corpo rival em 1751 desencadeou uma profunda reconfiguração da Ordem, cujos efeitos perduram até aos nossos dias na estrutura da atual Grande Loja Unida da Inglaterra (UGLE).

Este artigo, fundamentado em pesquisa documental e em fontes históricas autorizadas, examina as origens, o desenvolvimento e o legado desta segunda Grande Loja, analisando as tensões sociais e rituais que conduziram ao cisma, os principais protagonistas envolvidos e as circunstâncias que, após seis décadas de rivalidade, culminaram na união de 1813.

2. O Contexto: A Crise da Primeira Grande Loja

Após o seu rápido crescimento inicial, a Primeira Grande Loja da Inglaterra (a partir de agora designada como “Grande Loja dos Modernos“) entrou num período de declínio e contestação interna a partir da década de 1740.

A instituição, que em 1739 já listava 175 lojas sob sua jurisdição, viu o interesse público pela Maçonaria diminuir, confrontada com uma liderança que demonstrava pouca orientação efetiva. Muitos dos maçons mais proeminentes de Londres, frequentemente aristocratas ou intelectuais, encaravam as suas lojas como meros clubes de jantar exclusivos.

Neste vácuo de liderança e direção espiritual, a Maçonaria na Inglaterra enfraqueceu significativamente. Simultaneamente, a proliferação de lojas irregulares e a publicação de exposições que revelavam os segredos da Ordem, como o infame Masonry Dissected de Samuel Prichard em 1730, levaram a Grande Loja a alterar as suas práticas para se proteger.

Estas mudanças, que incluíam a modificação da ordem das palavras-passe e a redução das cerimónias, foram vistas por muitos maçons mais tradicionais como inovações inaceitáveis que descaracterizavam a verdadeira essência da antiga arte.

3. A Fundação: A Reunião no Turk’s Head Tavern

Foi neste ambiente de descontentamento que, a 17 de julho de 1751, cerca de oitenta maçons se reuniram na Turk’s Head Tavern, localizada na Greek Street, em Soho, Londres. A maioria destes homens era de ascendência irlandesa, muitos deles artesãos e comerciantes que, ao chegarem a Londres em busca de trabalho, se viram impedidos de se juntar ou formar lojas sob a jurisdição da Grande Loja dos Modernos, em grande parte devido à sua baixa condição social.

Estes maçons estavam determinados a continuar a praticar as formas rituais irlandesas, que consideravam mais próximas dos antigos costumes ingleses anteriores às inovações dos Modernos.

Representantes de cinco lojas participaram nesta assembleia fundadora: a Turk’s Head, a Cripple em Little Britain, a Cannon em Water Lane (Fleet Street), a Plaisterers’ Arms em Grays Inn Lane e a Globe em Bridges Street (Covent Garden).

Este grupo decidiu estabelecer-se como um corpo rival, denominando-se inicialmente “Grand Committee”, só vindo a adotar o título formal de Grande Loja a 27 de dezembro de 1753. A sua designação oficial era “The Grand Lodge of the Most Ancient and Honourable Fraternity of Free and Accepted Masons (according to the Old Constitutions).

A nova obediência adotou o nome pejorativo de “Antients” (Antigos) para si própria, enquanto apelidava a Grande Loja original de “Moderns” (Modernos), rotulando-a como inovadora e desviada das verdadeiras tradições. Esta estratégia de nomenclatura foi, em grande medida, orquestrada por Laurence Dermott, que se tornou o Secretário-Geral da nova Grande Loja em 5 de fevereiro de 1752.

4. Laurence Dermott e o Ahiman Rezon

Laurence Dermott (1720-1791), uma figura carismática e controversa, foi a força motriz por detrás do sucesso e da expansão da Grande Loja dos Antigos. Iniciado em Dublin em 1740, Dermott trouxe consigo a tradição ritualística irlandesa e uma visão clara do que a Maçonaria deveria representar. A sua “determinação e tenacidade” foram creditadas por transformar uma associação de seis lojas londrinas em 1751 numa Grande Loja viável e bem-sucedida, com lojas por toda a Inglaterra e além.

O seu contributo mais duradouro foi a compilação e publicação do livro de constituições da nova obediência, intitulado Ahiman Rezon. A primeira edição foi publicada em 1756, seguida por edições subsequentes em 1764, 1778 e 1787.

O título, de origem hebraica, significa “ajuda a um irmão”, e a obra serviu como um marco regulatório e doutrinário que solidificou a identidade dos Antigos, contrastando diretamente com as Constituições de Anderson adotadas pelos Modernos.

Dermott foi um polemista arguto, não hesitando em atacar abertamente os seus rivais. O historiador maçónico Robert Freke Gould descreveu-o como um “pintor ambulante”, mas reconheceu-lhe um grande zelo pela Maçonaria e alguma aprendizagem e educação. No entanto, a sua personalidade, por vezes sarcástica e vitriólica (especialmente quando afligido por ataques de gota), intensificou a rivalidade entre as duas Grandes Lojas.

5. A Era dos Duques de Atholl

A Grande Loja dos Antigos ficou também conhecida como “Atholl Grand Lodge” , um nome que reflete o patrocínio aristocrático que a obediência angariou a partir de 1771. Foi Dermott quem incentivou John Murray, 3.º Duque de Atholl, a servir como Grão-Mestre dos Antigos, um cargo que o duque ocupou desde 1771 até à sua morte em 1774.

Após a sua morte, o seu filho, John Murray, 4.º Duque de Atholl, sucedeu-lhe, servindo como Grão-Mestre de 1775 a 1781 e novamente de 1791 a 1812. A associação com a nobreza escocesa conferiu legitimidade e prestígio à antiga obediência rival, permitindo-lhe consolidar a sua posição e expandir a sua influência.

O 4.º Duque de Atholl é também recordado por uma notável curiosidade: durante a sua administração da propriedade de Blair, plantou mais de 20 milhões de árvores numa área de 16 000 acres, utilizando canhões cheios de sementes para espalhar as sementes pelas colinas mais altas, o que lhe valeu a alcunha de “The Planting Duke” (O Duque Plantador).

6. Diferenças Rituais e Composição Social

As diferenças entre Antigos e Modernos iam muito além da mera nomenclatura. Os Antigos defendiam a preservação dos rituais e práticas que consideravam imemoriais, acusando os Modernos de terem:

  • Alterado palavras nas cerimónias e sinais de reconhecimento.

  • “Descristianizado” e abreviado as cerimónias e lições.

  • Utilizado o termo “Vigilantes” em vez de “Diáconos” para certos oficiais da loja.

  • Removido uma cerimónia de instalação esotérica para os mestres de loja.

Para os Antigos, a Arco Real era considerada o quarto grau da Maçonaria, o culminar e a essência do seu sistema. A posse deste grau dava-lhes autoridade e completude ritual.

Uma licença da Grande Loja dos Antigos, ao contrário da dos Modernos, autorizava as suas lojas a trabalhar o Arco Real como um quarto grau. Em contraste, os Modernos não reconheciam oficialmente o Arco Real, considerando-o uma inovação irregular, embora alguns membros o praticassem discretamente.

Socialmente, a Grande Loja dos Antigos era mais inclusiva do que a sua rival. Enquanto os Modernos tendiam a recrutar nas elites metropolitanas e aristocráticas, os Antigos procuravam ativamente membros das classes mais baixas, especialmente nas províncias inglesas.

O historiador Ric Berman observa que os Antigosestenderam a sociabilidade formal às classes médias e trabalhadoras, criando uma das primeiras sociedades de beneficência modernas. Esta composição social mais ampla, aliada à presença de muitas lojas militares sob a sua jurisdição, permitiu que a Maçonaria dos Antigos se espalhasse eficazmente para a América do Norte, as Índias Ocidentais e a Índia.

7. A União de 1813 e o “Sussex Fudge”

Após mais de sessenta anos de rivalidade, e com um número crescente de maçons a defender a reconciliação, as duas Grandes Lojas nomearam Comissários em 1809 para negociar uma união equitativa.

As negociações foram delicadas, especialmente em torno do estatuto do Arco Real. Em 1813, quando a união se aproximava, o Duque de Sussex (sexto filho do rei Jorge III) foi nomeado Grão-Mestre da nova entidade unificada. Foi sob a sua liderança que se alcançou o compromisso histórico conhecido como o “Sussex Fudge” (embuste de Sussex).

A questão central residia na definição de “pure Antient Masonry” (pura Maçonaria Antiga).

Os Antigos exigiam que o Arco Real fosse incluído como um quarto grau; os Modernos insistiam que apenas três graus existiam. A solução de compromisso, redigida nos Artigos Preliminares assinados no Palácio de Kensington a 25 de novembro de 1813 e finalizados a 27 de dezembro do mesmo ano, declarou que:

“pure Antient Masonry consists of three degrees, and no more, viz. those of the Entered Apprentice, the Fellow Craft, and the Master Mason, including the Supreme Order of the Holy Royal Arch.”

Esta frase engenhosa, pela sua “calculada ambiguidade, permitiu que ambas as partes reivindicassem vitória: os Modernos mantinham o princípio dos três graus, enquanto os Antigos viam o Arco Real incluído na definição da Maçonaria pura.

A união solene ocorreu a 27 de dezembro de 1813 (Dia de São João Evangelista), dando origem à atual Grande Loja Unida da Inglaterra (UGLE) . Na altura da fusão, os Antigos contavam com 260 lojas ativas, enquanto os Modernos tinham 386.

8. Curiosidades

  • O “Duque Plantador”: John Murray, 4.º Duque de Atholl, Grão-Mestre dos Antigos durante um total de 27 anos, é mais conhecido pelo seu projeto de reflorestamento em massa, tendo plantado 20 milhões de árvores na Escócia usando canhões carregados de sementes para atingir as encostas mais íngremes. Era conhecido como “o Duque Plantador”.

  • A Invenção do Arco Real: Embora alguns tenham atribuído a Dermott a invenção do grau de Arco Real, isto é incorreto. Ele próprio recebeu o grau em 1746, e há documentação da sua conferência em Londres antes de 1744, bem como uma menção numa procissão da Loja n.º 21 em Youghal, Irlanda, a 27 de dezembro de 1743.

  • A Numerologia da União: Na fusão de 1813, as lojas de cada Grande Loja foram numeradas alternadamente para criar a nova lista unificada, simbolizando a igualdade e a integração das duas tradições rivais.

  • O Legado Duradouro: Atualmente, existem 122 lojas Atholl ainda em funcionamento, sendo 107 em Inglaterra e 5 no País de Gales. Muitas lojas regulares em todo o mundo (particularmente sob a jurisdição da UGLE e suas Grandes Lojas reconhecidas) devem a sua estrutura ritualística e constitucional aos Antigos, que preservaram e transmitiram elementos que os Modernos haviam abandonado.

9. Conclusão

A fundação da Segunda Grande Loja da Inglaterra em 1751 foi mais do que um simples cisma. Foi uma rebelião social e ritual que redefiniu os contornos da Maçonaria inglesa. Os Antigos, liderados pelo incansável Laurence Dermott e apoiados pelos Duques de Atholl, desafiaram a hegemonia dos Modernos, preservando tradições que estes consideravam arcaicas e abrindo a Ordem a setores da sociedade que antes estavam marginalizados.

A união de 1813, facilitada pelo engenhoso “Sussex Fudge”, representou a síntese destas duas correntes, dando origem à UGLE que conhecemos hoje. A herança dos Antigos perdura não apenas nas 122 lojas que ainda ostentam orgulhosamente o seu nome, mas também na própria estrutura da Maçonaria mundial, que incorporou o compromisso com a tradição, a inclusividade social e a importância do Arco Real que os Antigos defenderam com tanto vigor. Como afirma o sítio da Associação Atholl, “damos por vezes por esquecida a dívida que temos com o primeiro Grão-Mestre, o Duque de Sussex, pela sua liderança firme”, uma dívida que se estende, de forma mais ampla, a todos aqueles que, na modesta taberna do Turk’s Head, ousaram desafiar o status quo e forjar um novo caminho para a Maçonaria.

Pesquisa e redação Ivair Ximenes Lopes

Fontes

  • THE NATIONAL ARCHIVES (UK). *Discovery Catalogue: Antients (or Atholl) Grand Lodge Governance (Ref: ANT 1/1)*. Held by Museum of Freemasonry, London. [7†L3-L8]

  • WIKIPEDIA. Antient Grand Lodge of England. [8†L2-L24]

  • GRAND LODGE OF BRITISH COLUMBIA & YUKON. Laurence Dermott (biography). [9†L2-L24]

  • WIKIPÉDIA (FR). Ancienne Grande Loge d’Angleterre. [10†L4-L29]

  • ATHOLL ASSOCIATION. A Brief History of Atholl / Antients History. [11†L2-L50]

  • QUATUOR CORONATORUM ANTIGRAPHA. The Formation of the Grand Lodge of the Antients (Reprint of Vol. XI). [12†L2-L48]

  • JIM DANIEL (UGLE). Stuck with the Sussex fudge? A piece by Jim Daniel. United Grand Lodge of England, 12 Jan. 2021. [13†L3-L49]

  • R. BERMAN. Schism: The Battle That Forged Freemasonry. Brighton: Sussex Academic Press, 2013. (Citado nos resultados de busca). [3†L14-L17]

  • ALBERT MACKEY. Encyclopedia of Freemasonry (entry on Laurence Dermott). (Citado em [9†L21-L24]).

  • ROBERT FREKE GOULD. History of Freemasonry (reference to Laurence Dermott). (Citado em [9†L11-L12]).

  • WILLIAM JAMES HUGHAN. Memorials of the Masonic Union of A.D. 1813 (referenced as source on the Articles of Union). [20†L14-L17]

  • VARIOUS ONLINE ARCHIVES (AIM25). Entries for “Antients Grand Lodge”, “Atholl Grand Lodge”, and “Grand Lodge of Free and Accepted Masons of England”. [0†L15-L18][2†L20-L24][18†L4-L8]

  • DUKE UNIVERSITY PRESS. The London Irish and the Antients Grand Lodge (Journal article abstract, 2015). [18†L9-L13]

  • FOLSOM PUBLIC LIBRARY / OHIO NORTHERN UNIVERSITY. Catalogue entries for Ric Berman’s “Schism”. [3†L9-L13]

Marcado:

MM Ximenes

"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter. No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.

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A Maçonaria Regular

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A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.

 No Brasil, no simbolismo, apenas três "potências" são reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.

 A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.

 Uma Loja regular deve estar vinculada a uma das três potências reconhecidas no Brasil e seguir normas específicas de regularidade.

Maçonaria Regular MS

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A maçonaria regular no Mato Grosso do Sul é composta pelo Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul (GOB-MS) (GOB), Grande Loja Maçônica do Estado do Mato Grosso do Sul (GLEMS) (CMSB) e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso do Sul (GOMS) (COMAB).

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