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Thomas Morton Harper

Thomas Morton Harper

Thomas Morton Harper

Quando pensamos nos grandes filósofos que moldaram o pensamento ocidental, raramente nos ocorre associar esse título a um padre jesuíta inglês do século XIX. No entanto, ao longo dos meus estudos sobre a história da filosofia, deparei‑me com a figura fascinante de Thomas Morton Harper. Para mim, ele representa o elo perdido entre a escolástica medieval e o debate filosófico moderno, um pensador que dedicou a sua vida não a criar um novo sistema, mas a traduzir, defender e revigorar a tradição metafísica de Aristóteles e São Tomás de Aquino.

Foi um homem de contradições: anglicano de berço que se tornou um dos mais influentes sacerdotes jesuítas de sua época; polemista feroz que acabou mergulhado em profundas crises de esgotamento mental. Neste artigo, convido o leitor a conhecer a biografia, as curiosidades e o legado deste notável “metafísico da Escola”.

O nome completo do filósofo era Thomas Morton Harper. Nasceu em Londres, no dia 26 de setembro de 1821, filho de uma abastada família anglicana. Seu pai era um comerciante de boa posição financeira na City londrina.

Educação e Conversão

Estudou na prestigiada St. Paul’s School, em Londres, e depois ingressou no Queen’s College, Oxford. Após obter o título de Bacharel em Artes, recebeu as ordens na Igreja Anglicana, servindo como vigário na cidade de Barnstaple, Devon, durante cinco anos.

Nesse período, manifestou fortes inclinações anglo‑católicas (High Church) e envolveu‑se em acaloradas polêmicas teológicas na imprensa local. Tais posições levaram‑no a um confronto aberto com o seu bispo, o que o levou a abandonar Devon. Adquiriu uma pequena capela numa área pobre de Pimlico, em Londres, mas, mais uma vez, as suas práticas ritualistas entraram em conflito com o bispo local.

A conversão ao catolicismo ocorreu de maneira inesperada. Ao ler um volume intitulado “One Year in the Noviceship of the Society of Jesus” (Um Ano no Noviciado da Companhia de Jesus), de Andrew Steinmetz, que era um ataque à Ordem dos Jesuítas, o instinto lógico de Harper percebeu as contradições e a fraqueza dos argumentos do livro. Em menos de seis meses, em 1852, foi recebido na Igreja Católica e, pouco depois, em outubro do mesmo ano, ingressou na Companhia de Jesus.

Vida Académica e Sacerdotal

Realizou o noviciado e os estudos filosóficos na Bélgica. O curso de teologia, que durou quatro anos, foi dividido entre o Colégio Teológico Inglês de St. Beuno, no País de Gales, Roma e Lovaina. Foi ordenado sacerdote em 1859 e, no ano seguinte, nomeado professor de teologia no mesmo St. Beuno. Dois anos depois, foi transferido para a cadeira de lógica e metafísica geral no St. Mary’s Hall, em Stonyhurst.

Harper era descrito como um homem de disposição nervosa altamente sensível e intensa aplicação mental, o que tornava necessárias frequentes mudanças para preservar a sua saúde. Nos últimos seis anos de vida, sofreu de prolongados ataques de prostração mental, que por vezes assumiam uma forma aguda.

Faleceu em 29 de agosto de 1893, aos 71 anos, deixando uma obra escrita que o consagraria como um dos últimos grandes expoentes da escolástica na Inglaterra vitoriana.

Obra e Pensamento Filosófico

Harper foi um filósofo escolástico, fiel seguidor de São Tomás de Aquino e do aristotelismo medieval. A sua obra‑prima é a monumental “The Metaphysics of the School” (A Metafísica da Escola), publicada em três volumes entre 1879 e 1884.

Estrutura e Conteúdo da “Metafísica da Escola”

Neste tratado, Harper procurou expor em língua inglesa todo o sistema filosófico escolástico, desde os princípios do ser até as causas do devir. Os dois primeiros volumes foram dedicados ao “Livro IV – Princípios do Ser” e ao “Livro V – Causas do Ser”. A discussão sobre as causas do ser seguiu a divisão clássica aristotélica em causa material, formal, eficiente e final. Apenas os dois primeiros volumes foram dados à estampa, restando o último volume, de aproximadamente 757 páginas, para abordar as restantes classes de causas.

Defesa da Escolástica contra a Filosofia Moderna

Harper não se limitou a expor; sua obra tinha um claro objetivo apologético. Ele via na escolástica a “grande herança tradicional da verdade objectiva”, contrapondo‑a ao que considerava o erro e a confusão da filosofia moderna.

A sua crítica mais cerrada dirigiu‑se a Kant. Harper dedicou especial atenção à refutação dos juízos sintéticos a priori, que considerava impossíveis, e tentou demonstrar a natureza analítica do princípio da causalidade. Era movido pela convicção de que, a partir de Descartes, o pensamento moderno havia “naufragado numa deriva irrelevante e aberrante” ao abandonar o porto seguro da verdade objectiva e infalível do escolasticismo.

O seu estilo de argumentação foi descrito por um crítico contemporâneo como o de um “advogado que raciocina a partir de uma conclusão predeterminada”. Contudo, ninguém lhe negou a coragem de, na agitada era vitoriana, tentar reviver “a pesada maquinaria do medievalismo” e de o fazer em inglês, e não em latim.

Curiosidades sobre Thomas Morton Harper

  1. O Nome Intermédio “Morton”: Embora seja frequentemente referido como Thomas Norton Harper, o seu nome correcto é Thomas Morton Harper. O “Morton” honra a sua ascendência familiar e ajudou‑o a distinguir‑se de outras figuras públicas com o mesmo apelido.

  2. O Livro que o Converteu ao Catolicismo: A conversão de Harper ocorreu através da leitura de uma obra que pretendia atacar os jesuítas. Ao invés de se sentir repugnado, o seu sentido lógico detectou as fraquezas do argumento e a força da Ordem, levando‑o a abraçar a católica e a ingressar na Companhia de Jesus.

  3. Debate Público em Devon: Na sua primeira paróquia anglicana em Devon, Harper já manifestava a sua veia polémica, envolvendo‑se ativamente em controvérsias eclesiásticas na imprensa local, o que o levou a confrontar o bispo e, mais tarde, o bispo de Londres. Foi um polemista nato, muito antes de se tornar padre católico.

  4. Um Caricato Exemplo Escolástico: Numa resenha da sua obra, o autor do Spectator citou um exemplo do estilo de pensamento de Harper: ao analisar a penetração do calor numa barra de ferro, Harper argumentava que o calor não altera a substância, mas apenas introduziria uma “forma acidental de calor”, num raciocínio que o crítico considerou “grotesco” e que mais confunde do que esclarece.

  5. Crítica a Kant e Hume: Apesar de defender a escolástica, Harper tinha um conhecimento íntimo e respeitável dos filósofos modernos. Passou em revista Descartes, deteve‑se longamente em Hume e concentrou todos os seus esforços em refutar o cerne do sistema kantiano. A crítica de Kant, na sua opinião, era vital para o destino da escolástica.

  6. Doença Mental e Prostração: Nos seus últimos anos, Harper sofreu de “ataques prolongados de prostração mental, assumindo por vezes uma forma aguda”. A sua lúcida e penetrante inteligência conviveu, portanto, com um sofrimento psíquico que, numa época sem psicofármacos, o terá tornado gradualmente incapacitado.

  7. Autor de Panfletos Menores: Além da sua obra‑prima e dos ensaios polémicos, Harper publicou vários panfletos de menor fôlego, incluindo “On Modern Principles” (Sobre os Princípios Modernos), “God the True the Good and the Beautiful” (Deus, o Verdadeiro, o Bom e o Belo), “Manchester Dialogues” (Diálogos de Manchester) e “Lectures on Papal” (Lições sobre o Papal).

 Legado de Thomas Morton Harper

O legado de Thomas Morton Harper é, antes de tudo, o de um preservador e divulgador da filosofia escolástica em solo inglês.

O “Metaphysics of the School” como Monumento Filosófico

A sua maior contribuição foi ter vertido para a língua inglesa, de forma sistemática e acessível, o pensamento de Aristóteles e de São Tomás de Aquino. Numa época em que o alemão e o francês dominavam a cena filosófica europeia, Harper ofereceu aos leitores de língua inglesa uma porta de entrada para o universo conceptual da escolástica medieval. A sua obra permitiu que gerações de estudantes e estudiosos católicos tivessem acesso, na sua própria língua, aos princípios da metafísica tomista.

Último Grande Escolástico Inglês

Harper situa‑se no fim de uma tradição. Foi um dos últimos representantes da escolástica inglesa, um movimento que, após a Reforma, se viu confinado aos colégios e seminários católicos. A sua produção insere‑se num esforço de restauração da filosofia cristã, encorajado pela encíclica Aeterni Patris (1879) do Papa Leão XIII, que recomendava o regresso a Tomás de Aquino. Harper, ao publicar a sua obra entre 1879 e 1884, foi um dos primeiros a responder a esse apelo papal.

Defensor Intransigente da Razão Escolástica

O seu legado é também o de um polemista incansável. Enfrentou os grandes nomes da filosofia moderna – Descartes, Hume e Kant – sem temor, tentando demonstrar a insuficiência das suas análises e a solidez da antiga tradição. A sua crítica ao criticismo kantiano, embora não tenha logrado convencer os seus contemporâneos, revela um pensador de coragem e erudição.

Um Homem Dividido

Finalmente, a própria vida de Harper constitui um legado humano. Ele foi um homem dividido entre a sua devoção religiosa e as suas crises de saúde mental, entre o desejo de ensinar e a impossibilidade prática de o fazer sem perturbações. A sua biografia é um testemunho de que a filosofia, mesmo a mais abstracta, é feita por seres humanos frágeis, cuja lucidez pode coexistir com o sofrimento psíquico.

Embora hoje pouco estudado fora dos círculos católicos tradicionalistas, Thomas Morton Harper permanece como uma figura de transição: o último grande escolástico inglês, que tentou salvar a “velha metafísica” do naufrágio da modernidade.

Autor e pesquisa Ivair Ximenes Lopes

Fontes

  • Wikipédia, a enciclopédia livre – Thomas Morton Harper

  • New Advent – Catholic Encyclopedia: Thomas Morton Harper

  • Prabook – Thomas Harper

  • The Spectator Archive – SCHOLASTICISM IN ENGLISH (15 de julho de 1882)

  • Britannica – The Metaphysics of the School (referência)

Marcado:

MM Ximenes

"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter. No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.

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A Maçonaria Regular

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A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.

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 A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.

 Uma Loja regular deve estar vinculada a uma das três potências reconhecidas no Brasil e seguir normas específicas de regularidade.

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A maçonaria regular no Mato Grosso do Sul é composta pelo Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul (GOB-MS) (GOB), Grande Loja Maçônica do Estado do Mato Grosso do Sul (GLEMS) (CMSB) e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso do Sul (GOMS) (COMAB).

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