O Caçador de Pedreiros-Livres
Resumo
Este artigo fundamenta-se nas ideias e observações contidas num relatório feito pelo corregedor José Anastácio Lopes Cardoso, ao então intendente da polícia em Lisboa e seu chefe imediato Diogo Inácio de Pina Manique.
A leitura do documento revela a influência das ideias conspiratórias do jesuíta Augustin Barruel nas proposições e nas ações policiais executadas pelo corregedor contra as associações maçônicas e os pedreiros-livres de Portugal e do Brasil.
This paper explores how the conspiracy ideas of the Jesuit Augustin Barruel influenced crime inspector José Anastácio Lopes Cardoso’s report to his immediate superior Diogo Inácio de Pina Manique, superintend of Lisbon Police. The evidence suggests that Barruel’s conspiracy theories influenced both Lopes’ thoughts and police operations against the masonic associations and freemasons in Portugal and Brazil.
Palavras-chave
Maçonaria – Hipólito da Costa – antimaçonaria.
Doutor em História Social pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Professor Adjunto III de História do Brasil e História Ibérica no Centro de Humanidades da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB).
THE HUNTER OF FREEMASONS: JOSÉ ANASTÁCIO LOPES CARDOSO AND HIS ACTION AGAINST THE LUSO-BRASILIC FREEMASONRY (1799-1804)
Contact Universidade Federal do Oeste da Bahia Centro de Humanidades – Gabinete 36 Rua Berlioga, Morada Nobre 47810-059 – Barreiros – Bahia – Brazil pimagalhaes@yahoo.com.br
Pablo A. Iglesias Magalhães
Universidade Federal do Oeste da Bahia Barreiros – Bahia – Brazil
Abstract
This paper explores how the conspiracy ideas of the Jesuit Augustin Barruel influenced crime inspector José Anastácio Lopes Cardoso’s report to his immediate superior Diogo Inácio de Pina Manique, superintend of Lisbon Police. The evidence suggests that Barruel’s conspiracy theories influenced both Lopes’ thoughts and police operations against the masonic associations and freemasons in Portugal and Brazil.
Pablo A. Iglesias Magalhães
O caçador de pedreiros-livres: José Anastácio Lopes Cardoso e sua ação contra a maçonaria luso-brasílica (1799-1804)
Grupo-me a factos que posto não estejão evidentemente provados, parecem levar para ali a boa razão.
Lopes Cardoso (1803)
O corregedor e a conspiração dos iluminados
As origens e a extensão da influência política das sociedades maçônicas, entre os fins do século XVIII e os primeiros vinte anos do século XIX, tem sido uma incógnita para a historiografia portuguesa e, em maior medida, para a historiografia brasileira.
No que se refere aos maçons brasílicos e às primeiras lojas fundadas na América Portuguesa, o principal motivo do silêncio em torno do tema é a escassez documental do período assinalado. Além disso, também é difícil o acesso aos documentos maçônicos remanescentes, fragmentados e dispersos em arquivos e coleções particulares no Brasil, Europa e Estados Unidos.
A dificuldade de encontrar informações seguras pode ser explicada, também, pela própria natureza da maçonaria setecentista e sua relação controversa com o governo, as leis e as autoridades religiosas portuguesas. Os franco-maçons ou pedreiros-livres já eram condenados pela Igreja Católica desde a Bula In Eminenti (1758) do papa Clemente VII e pelo Breve Providus (1751) do papa Bento XIV, sendo perseguidos pelo Tribunal do Santo Ofício em Portugal, com mais determinação sob o governo de D. Maria I (1777-1816). Por essa razão, os historiadores da maçonaria têm se valido dos processos e documentos inquisitoriais portugueses para estudar o assunto, pouco utilizando os relatórios da Intendência de Polícia.
Uma das janelas que permite vislumbrar a sociabilidade e circulação política dos pedreiros-livres brasílicos, nos seus primeiros tempos, é um relatório datado de 14 de abril de 1803, feito pelo corregedor do crime do Bairro Alto, José Anastácio Lopes Cardoso.
Conservado no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), lata 21, o documento integra um conjunto de papéis diversos, formando um dossiê sobre Hipólito José da Costa, o mais influente pedreiro-livre luso-brasílico no início do século XIX. Não há registros de quando aquele conjunto documental foi depositado no IHGB, mas é possível que tenha sido por meio de algum dos seus antigos sócios. É certo que já estava no Rio de Janeiro em 1881, pois consta no Catálogo da Exposição de História do Brasil. Naquele conjunto, destaca-se o relatório do corregedor, já estudado por Oliveira Marques e Mansur Barata, que recorreram a ele nos seus estudos sobre a sociabilidade maçônica, sem, contudo, aprofundar o exame do manuscrito.[1]
O relatório de Lopes Cardoso permite observar uma visão de história política que praticamente desapareceu nos estudos contemporâneos sobre a maçonaria portuguesa: a da conspiração dos pedreiros-livres contra o trono e o altar, fundamentada na obra do jesuíta Augustin de Barruel (Villeneuve-de-Berg, 2 de outubro de 1741 – Paris, 5 de outubro de 1820).[2] O manuscrito do IHGB é uma cópia expedida por Manoel Justino da Cunha, secretário da Intendência da Polícia de Lisboa, feito apenas dois dias após o original haver sido escrito.
O destinatário era Diogo Inácio de Pina Manique (1733–1805), que seguia combatendo as sociedades maçônicas em Portugal desde 1788, chegando a interceptar o famigerado Giuseppe Balsamo, Conde de Cagliostro, em Lisboa, disfarçado de nobre, expulsando-o do país.
Dez anos depois, em 1798, Manique afirmava ter expulsado 515 indivíduos que professavam princípios políticos jacobinos ou que congregavam-se em associações maçônicas.[3] O intendente, contudo, já se encaminhava para os setenta anos quando a perseguição aos maçons se intensificou em Portugal. Sem o vigor da juventude, teve em Lopes Cardoso um agente confiável para executar as missões. Num relatório de 8 de agosto de 1799, enviado ao marquês mordomo-mor, Manique cita o corregedor em três casos ligados aos pedreiros-livres, destacando que seu agente cumpria as missões “habil e judiciosamente”.[4]
Uma das cartas de Manique para o corregedor, datada de 5 de agosto de 1802, foi publicada por Oliveira Marques, revelando contínua perseguição aos pedreiros-livres.[5] José Anastácio foi, nas palavras de Adelto Gonçalves, biógrafo de Tomás Gonzaga e de Bocage, corretamente descrito como “fiel cumpridor de ordens e implacável inimigo da maçonaria”.[6]
Lopes Cardoso era um barruelista, admirador e adepto das ideias de Augustin de Barruel. Ele próprio confirma isso. No dossiê do IHGB, há outra carta de Lopes Cardoso, assinada de seu próprio punho, datada de 23 de julho de 1803, na qual o corregedor afirma ser leitor de Barruel e acreditar naquilo que o jesuíta afirmara: “Eu já tinha lido em Barruel, a quem o tempo, e a posteridade fará mais justiça”? Barruel foi o autor das Mémoires pour servir à l’histoire du Jacobinisme, publicadas em quatro volumes entre 1797 e 1799, nas quais denunciou a maçonaria como protagonista na Revolução Francesa (1789-1799).
A obra, que teve grande repercussão e traduções em diversas línguas, com várias edições, afirma que um grupo denominado os Iluminados da Baviera (Iluminatenorden), fundado em maio de 1776 por Adam Weishaupt, infiltrou-se na nascente maçonaria filosófica, pactuando com seus associados e levando a cabo um projeto secreto para a subversão das monarquias europeias e da Igreja Católica. Apesar da Iluminatenorden ter sido mantida afastada de Portugal, Cardoso acreditava na existência de uma cabala maçônica, que então buscava projetar sua influência sobre Portugal e o Brasil, sendo essa teoria a linha-mestra do Relatório de 1803.
O presente artigo busca demonstrar, por meio da análise de episódios descritos no referido Relatório, que a ação política organizada por pedreiros-livres luso-brasílicos, buscando ampliar seu espaço de influência ou agindo contra as estruturas do Antigo Regime (particularmente, aqui, a luta contra o domínio colonial), tem fundamentos documentais e não era apenas produto da imaginação do corregedor.
Foi Hipólito da Costa, na Narrativa da Perseguição, de 1811, quem publicou as primeiras notícias biográficas de Lopes Cardoso. O redator do Correio Braziliense, numa tentativa de menosprezar a origem do corregedor, afirma que este era filho de um pescador da Trafaria, pequena aldeia na margem meridional da foz do Tejo. Apesar da origem humilde, Cardoso se matriculou na Universidade de Coimbra a 27 de outubro de 1784.[8] Cursou matemática no primeiro ano (19/10/1785), direito no 2º ano (17.10.1785), leis no 5º ano (06/10/1786), concluindo o 5º ano a 07/10/1788. Hipólito da Costa, seu mais notável oponente (mesmo após a morte do corregedor), afirmou que Cardoso, “durante o tempo dos seus estudos em Coimbra, passava por um acerrimo Jacobino; o por este nome eram, naquelle tempo, designados lodos aquelles, que se distinguiam por adoptar princípios políticos oppostos ao Monarchismo”.[9]
Nove meses após Cardoso concluir seus estudos em Coimbra, teve início a Revolução Francesa. A carreira do magistrado começou em sincronia com a disseminação dos influxos revolucionários, quando o jacobinismo começava a se espalhar pelas sociedades da Europa. Ainda em 1789, Cardoso requereu o cargo de guarda do lazareto;[10] em seguida, a 19 de fevereiro de 1791, foi nomeado juiz de fora da Vila de Almada.[11] Foi, em 1797, alçado a Juiz do Crime do bairro do Mocambo, em Lisboa.[12] No ano seguinte, 1798, sob a intendência de Pina Manique, alcançou o cargo de corregedor do crime do Bairro Alto.[13] Por reconhecimento dos seus serviços, ingressaria na Ordem de Cristo e alcançaria o cargo de desembargador.[14] Hipólito observou a trajetória do corregedor e não o poupou de críticas:
Depois, intentando seguir a vida da Magistratura, e sabendo que, se agradasse ao Intendente Geral da Policia, podia crescer em graduações, e augmentar a sua fortuna, voltou destramente de comportamento, e affectou sempre o mais intranhavel aborrecimento a todos aquelles que tinha, ou se presumia tivessem, os mesmos princípios políticos, que ele abertamente professara [no tempo da Universidade], não deixando escapar ocasião alguma, em que pudesse mostrar o seu zelo. E como era mui conhecida a aversão, que o Intendente de Policia tinha a tudo o que era homem de letras, segui também estes passos o novo Ministro; e conseguiu com este artifício, e vis condescendecias, chegar a ser tão privado do mesmo Intendente, que foi nomeado seu Ajudante: e só a elle se incumbiam as deligencias de que nenhum homem honrado se encarregaria; em uma palavra, podia reputar-se Ministro do Intendente, e não Ministro de justiça.[15]
É perceptível que o intendente e o corregedor compartilhavam uma visão política contrária à maçonaria e ao jacobinismo. É um tanto controversa, por outro lado, a afirmação de Hipólito em que reputa ao corregedor aversão aos homens de letras. Ele teve aversão, de facto, aos pedreiros-livres e aos livros de autores maçônicos. Aliás, ele próprio era um letrado, conhecido por pedir autorização ao governo para ler livros proibidos de circular em Portugal, e, por esse meio, teve acesso aos livros que tratavam da maçonaria.[16]
A leitura das Mémoires pour servir à l’histoire du Jacobinisme consolidou em Cardoso suas ideias antimaçônicas, definidas como a crítica, a oposição e a hostilidade manifesta contra a maçonaria e seus membros. A exemplo de Barruel, o magistrado se refere à maçonaria sempre como “seita”, que, segundo Antonio Morais Silva (também maçom), em 1789, significava um “sistema doutrinal, princípios Filosoficos ou dogmaticos, que alguém tem, ou defende”.[17]
Sua admiração pelos escritos de Barruel era tanta que, no relatório de 14 de abril, o corregedor fez uma veemente defesa da legitimidade da obra do jesuíta, à qual, desde aquela época, os críticos imputavam falta de provas para fundamentar suas afirmações. Segundo a irônica pena do corregedor:
Mente Barruel, he hum Declamador, a sua pena hé mercenaria, os seos dictos são livres dictos, e faltos da autoridade da prova [Hé a resposta geral que sem se provar se profere contra Barruel]. Entretanto ainda não está provado que Barruel minta, e se mente então ja antes delle mentio Cagliostro nas suas confissoens impressas muitos annos antes que Barruel escrevesse: Mente Robinson a quem Barruel se Reffere, e que vay excencialmente concorde com elle: mente o auctor da Conjuração do Duque de Orleans, que Reffere factos tão pozeitvos como o distico do sello das Cartas do Barão de Menou no tempo da Revolução = Inimigo do Culto, e dos Reys: mente a opinião publica que os olha como taes: e tinhão já mentido Le Franc-Maçon trahi; Les Franc-Maçons Ecrajeis; as Cartas de Utrecht nas Anadoctas (sic) Secretas; o Abbade Banier; os Autores da Bibliotheca Franceza; e muitos outros que seguem apontados nos escriptos sobre este assumpto.[18]
Cardoso busca confirmar a autoridade de Barruel apresentando uma lista de autores e livros que, no mais das vezes, serviram como fontes para as Mémoires do jesuíta, procurando legitimá-lo por meio de uma tradição antimaçônica que remonta aos anos de 1740 e que seguia firme até sua época. O corregedor cita John Robison (1759–1805), autor de Proofs of a conspiracy against all the religions and governments of Europe, Carried on in the secret meetings of free Masons Illuminati and reading societies, impresso na Escócia em 1797.[19]
Cita também a Histoire de la conjuration de Louis-Philippe-Joseph d’Orléans, cujo autor é Christophe Félix Louis Ventre de La Touloubre, dito Galart de Montjoie[20]; L’Ordre des francs-magons trahi [21] e Les francs-magons écrasés, ambos de Gabriel–Louis Calabre Pérau[22]; as Cartas de Utrecht, nas Anedoctas Secretas[23]; Histoire générale des cérémonies, moeurs, et coutumes religieuses (1741), de Antoine Banier[24], e, por fim, a Bibliothèque française, ou histoire littéraire de la France (18 vols, Paris, 1740–1759), de Claude-Pierre Goujet.
A influência de Barruel já se fazia sentir em Portugal, visto que uma obra de sua autoria já havia sido vertida para o português entre 1795–97, traduzida por *** M. B, iniciais de frei Mateus de Assunção Brandão. Impressa no Porto, nela já era possível antecipar a ideia principal de Barruel, a da conspiração maçônica: “Porque a forma Constitucional que serve d’ensaio para aniquilar o governo monarquico, chegando a realizar-se, segundo os intentos e o voto constante dos sofistas e Pedreiros Livres com a aparencia de democrática para lisongear a vaidade do povo, será realmente aristocrática e fundará o patrimônio dos que mais arte tiverem para iludir o povo”.[25]
Trechos das Memoires foram impressas em O segredo revelado ou manifestação do systema dos pedreiros livres e illuminados, e sua influencia na fatal revolução franceza.[26] Lúcia Neves resumiu bem o impacto da obra de Barruel em Portugal:
Nessa conjuntura, a Revolução chegou a ser concebida como uma tríplice conspiração, urdida contra o altar, o trono e a sociedade civil pela “pestilencial irmandade” dos jacobinos, formada a partir de seitas há muito tempo escondidas nas lojas maçônicas, cujo as ideias não tardaram a circular em Portugal e cuja principal obra teve trechos traduzidos para português. Eram textos escritos em uma linguagem exarcebada, em que se formulavam impropérios contra todo um mundo misterioso de ideias revolucionárias, de forças ocultas e condenadas.[27]
Um caso envolvendo Lopes Cardoso e a morte de um alemão chamado Zeigler, ligou o corregedor à obra de Barruel. O jesuíta, nas suas Memoires, ao tratar brevemente dos projetos da seita dos iluminados, afirmou que “os iniciados da seita não se atrevíam a se instalar em Portugal”, por conta do episódio da prisão e suicídio de Zeigler (o Brabagon Segre), dentro da cadeia em Lisboa.[28] Tido por Barruel como propagandista dos iluminados, o alemão foi preso por Cardoso em 1797, e sua correspondência foi apreendida, implicando o ministro espanhol Dom Manuel de Godoy y Alvarez de Faria Rios Sanchez Zarzosa, nos seus negócios.
Godoy, com o título de Príncipe da Paz, sabendo da prisão, teria reclamado o prisioneiro junto ao governo português, que não lhe atendeu conforme esperava. Depois disso, segundo Barruel, um colchão com uma navalha de barbeiro em seu interior teria sido introduzido na cadeia onde estava o prisioneiro, que usou a lâmina para se matar, protegendo os segredos dos seus correspondentes.
Em uma nota do relatório, Cardoso fez a seguinte observação: “Barrluell. no tom[o]. 4.º diz que Zegres, que foi suicida na Cadea do Castello de Lisboa, em 1797, que eu prendi, era Apostolo dos Maçons Iluminados mandado a Lisboa para fomentar a sedicção”. O Reino e a monarquia estavam a salvo da influência de um susposto grupo de conspiradores internacionais. Hipólito da Costa, oito anos depois, acusaria o corregedor de ter executado Zeigler na cadeia:
Certo homem, Alemão, de Nação, por nome Zeigler, foi achado degolado, nas prizgens secretas do Castello de Lisboa, e o Povo chegou a dizer, que por ministerio deste Corregedor se tinha perpetrado tão feio crime: as razgens que se alegavam para comprovar isto eram; primeira; que tendo este Ministro prendido, e levado com elle na sua sege, para a cadea, ao tal homem, lhe não havia consentir que trouxesse comsigo armas, com que se pudesse degolar: segunda; que sendo custume dos carcereiros apalpar miudamente os prezos, quando os mettera de segredo, necessariamente se havia practicar esta diligencia, com um prezo de tanta supposição; e então se lhe achariam as armas, que tivesse comsigo: terceira; que o carcereiro não foi castigado, nem teve o menor encommodo por este facto, quando o deveria tér muito grande; pois, ao menos, tinha commetitdo um enorme erro de ofíicio em consentir ao prezo, no segredo, armas com que se pudesse degolar. E naõ obstante conhecer eu, que esta circunstancia era um erro, naõ obstante haver elle examinado o caso conhecia que havia razgens para duvidar se o prezo se tinha degolado a si, ou se outrem o tinha degolado: e entretanto o mesmo Ministro, e o Intendente Geral de Policia deram por certo ao Publico, que o prezo se tinha degolado a si mesmo.[29]
Hipólito sugere uma execução; Lopes Cardoso diz que o prisioneiro se suicidou. Ainda sobre a morte de Zeigler, o autor das Cartas sobre a framagonaria, atribuídas a Hipólito, apresenta o mesmo episódio, com algumas variantes. Na Carta XVI (10 de maio de 1802), o alemão é apresentado como um agente da corte espanhola enviado ao Marrocos para fomentar uma guerra civil naquele reino, vindo para Lisboa da Berberia. O autor das Cartas afirma que o “Ministro” (sem lhe dizer o nome) que prendeu Zeigler não deu explicações sobre o episódio da sua morte. Na verdade, como pode ser observado no relatório, Cardoso reportou o suicídio do alemão ao seu superior.
Em 1803, o embate contra os pedreiros-livres e os iluminados passaria também para o campo das letras. Naquele ano, foi impresso um folheto de 33 páginas e 14 cm de altura, intitulado de Epitome do sistema da seita dos pedreiros livres; e da dos chamados iluminados, apresentando como local e data de impressão a cidade de Serampore, na Índia, e o ano 1803. O local de impressão atribuído é falso, já que o folheto teria sido impresso clandestinamente na capital portuguesa.
Trata-se de um documento excepcionalmente raro, do qual só foi possível localizar e examinar um exemplar, em posse de particulares. Não há registro de que exista exemplares em bibliotecas públicas de Portugal ou do Brasil. Esse folheto é o primeiro impresso sobre a maçonaria em língua portuguesa, antecedendo as Cartas sobre a framagonaria (Madrid [sic, por Londres], 1805 [sic, por 1809]), sendo até o presente desconhecido pelos bibliógrafos portugueses, a exemplo de Inocêncio Francisco da Silva, e pelos historiadores da maçonaria, como Oliveira Marques, ambos maçons.[30]
EPITOME DO SISTEMA,DA SEITA DOS PEDREIROS LIVRES; E DA DOS CHAMADOS ILLUMINADOS.
[30 A existência dessa edição de 1803 do Epitome do sistema da seita dos pedreiros livres; e da dos chamados iluminados é aqui registrada pela primeira vez. O folheto foi, contudo, reimpresso seis anos depois, em 1809, em Lisboa e no Rio de Janeiro, sob o título de Os Pedreiros Livres, e os Illuminados, que mais propriamente se deverão denominar os Tenebrosos. De cujas Seitas se tem formada a pestilencial Irmanidade, a que hoje se chama Jacobinismo. Rio de Janeiro: Imprensa Régia, 1809. 36p.: 19 x 15 cm. A edição fluminense, da qual existe um exemplar na Brasiliana José e Guita Mindlin (n. 002562278), deve ter sido impressa por diligência de José da Silva Lisboa, possivelmente ex-maçom abjurado, que por volta de 1806 tornou-se opositor das sociedades iniciáticas. MAGALHÃES, Pablo Antonio Iglesias. Flores Celestes (1807): O livro secreto de José da Silva Lisboa, o visconde de Cairú. Revista de Indias, Madrid, vol. 73, 2013, p. 789–824.]
O Epitome do sistema revela a existência de uma conspiração contra as monarquias e a Igreja Católica, relatando-a em “Huma abreviada informação dos Pedreiros livres” e “Hum resumo dos graos e institutos dos Iluminados”. Também indica autores franceses, alguns dos quais pedreiros-livres, cuja obra inspirava os membros dessa conspiração que se espalhava pela Europa, fazendo referências a Voltaire, Rousseau e aos “Enciclopedistas juntos com Helveticos (sic), Reynal, Gudin, Condorcet e muitos dos membros da infernal junta d’Holbach”.
Pelo conteúdo apresentado, o estilo e a forma como as notas de rodapé são dispostas, não resta dúvida de que o responsável pela sua edição foi José Anastácio Lopes Cardoso. O folheto é muito semelhante ao relatório apresentado no anexo deste artigo. O Epitome do sistema não possui qualquer tipo de licença de impressão e, portanto, não foi feito para ser vendido, mas entregue a indivíduos específicos, protegendo a verdadeira identidade do seu autor/editor.
Hipólito da Costa, que manteve uma explícita e contínua posição de indignação contra Barruel e seus seguidores, utilizaria as páginas do seu Correio Braziliense, impresso em Londres (1809–1825), para atacar uma edição posterior do Epitome, intitulada Os pedreiros livres e Iluminados, que mais propriamente se deverão denominar os tenebrosos, impresso tanto em Lisboa quanto no Rio de Janeiro, em 1809.
Ao que parece, nem mesmo Hipólito da Costa, que em 1805 estava preso nos estaos do Santo Ofício, teve notícia da edição primitiva do impresso antimaçônico. O redator do Correio só teria tido acesso à edição lisboeta, de 1809, que então atribuiu, sem qualquer fundamento, mas por ouvir dizer, ao baiano Vicente José Ferreira Cardoso da Costa. Ainda em 1809, Hipólito da Costa publicou, no Correio Braziliense, a Resposta a um Opusculo intitulado – Os Pedreiros Livres, e os Illuminados, no qual repudiou a tese da existência de uma “mistura de iluminados, framagens e jacobinos”.[31] Não resta dúvida, a partir daqui, que a edição de 1809 apenas reproduz a de 1805, e que o responsável pela primeira foi o próprio algoz de Hipólito: o corregedor José Anastácio Lopes Cardoso.[32]
Hipólito da Costa foi quem, em língua portuguesa, apresentou as críticas mais contundentes aos seguidores e tradutores de Barruel. Em 1812, publicou outro editorial contra o suposto tradutor de Os Pedreiros Livres, e os Illuminados, no qual observou que “O infeliz, como vós, que deixa entrar no cerebro um tal delírio, persegue, e mata julgando que assim faz um sacrifício agradável á Divindade”. Nas suas notas ainda advertiu que “As sociedades são diferentes. Hé uma refinada malicia confundillas. Os Pledreiros! Litvresl não respondem pelo que ignorão”.[33] Não deixa de ser curioso, apesar de ter escapado à leitura de todos os biógrafos de Hipólito, que, em 1801, ele traduziu a obra de um dos (supostos) iluminados que vivia à sua época, Benjamin Thompson, conde de Rumford.[34] Outros seguiriam contestando as leituras de Barruel, como o maçom pernambucano frei Joaquim do Amor Divino Caneca que, em 1825, questionou: “Como é que podia Barruel profundar a história de todas as seitas secretas sem ser sócio de todas elas como ele não era?”.[35]
A tese da existência de uma conspiração dos Iluminados da Baviera continua tão frágil quanto na época em que Barruel publicou seu livro. É certo, porém, que, à mesma época, o território português tornou-se palco das ações de pedreiros-livres, muitos dos quais investigados por Cardoso. Ainda em 1799, o corregedor prendeu John Licok, mestre maçom e, segundo uma nota do relatório de 14 de abril, responsável por tumultos contra industriais em Manchester. Sobre a segunda afirmação, nada foi possível de apurar. John Licok, filho de Cristovão e Maria Licok, nasceu em Lanchester, Inglaterra, por volta de 1766 (55 anos em 1799), e era debuxador de padrões de chita. No seu processo junto ao Santo Ofício, Licok confirmou, alinhado ao relatório do corregedor, que havia ascendido ao grau de mestre maçom em Lisboa. Estava associado a James Gordon, que serviu na América inglesa, vindo para Portugal em 1797, na tropa auxiliar da Inglaterra, recebendo “os graos de Aprendis, official, e Mestre, na Loge estabelecida no sítio de Belem”.[36]
Para o corregedor, seu ofício era uma espécie de cruzada para defender a monarquia e a Igreja. Os pedreiros-livres, contudo, não eram os mouros, mas parte do alto escalão da sociedade portuguesa, presentes (ou infiltrados) nos quadros da nobreza, do exército e do clero.
Assim, a situação política no começo do século XIX era complexa e exigia cuidados por parte de Lopes Cardoso. Ele sabia que alguns elementos da nobreza portuguesa já eram iniciados na maçonaria, a exemplo do Marquês de Alorna e do Conde de Novion, entre outros, bem como militares de elevada patente. Consonante a isso, ele mesmo observou que a maçonaria e o jacobinismo possuíam diferenças entre si, registrando que “não são os princípios Maçonicos os germes desta Revolução”. É notório que a introdução da maçonaria em Portugal e Ilha da Madeira tem muita influência da maçonaria inglesa, de viés monarquista, limitando muito o espaço para o jacobinismo francês.[37] Por outro lado, Cardoso afirma que seguimentos da maçonaria em Portugal compartilhavam projetos sediciosos, “assinalados pela […] rebelião” e se identificavam com livros e autores que divulgavam ideais revolucionários franceses:
Não são os princípios Maçonicos os germes desta Revolução. Concedamos por hum pouco que assim seja. (a) Mas entretanto o que eu observo hé que homens assignalados, pela Impiedade, e Rebelião são os que mais se destinguem no zello Maçonico: o que eu observo hé que as líçoens de Mirabeau, de Diderot, de Freret, de Helvetins [sic], de Bolinbrochio, do Marquez de Argens, de Dupuiz, de Volney (b), e de hum sem numero desta estofa fazem a seo gosto, e estudo favorito; e familiarizados [sic] os Maçons co os destes princípios que se pode esperar delles. [A Bibliotheca Maçonica Portugueza compoem-se particularmente destes escriptos].[38]
É curiosa essa lista de autores cujos escritos formavam o que o corregedor denominou de Biblioteca Maçônica Portuguesa. Os oito autores indicados são Honoré-Gabriel Victor de Riquetti (conde de Mirabeu),[39] Denis Diderot, Nicolas Frerét, Claude Adrien Helvétius, Henry St. John (visconde de Bolingbroke), Jean-Baptiste de Boyer (Marquês d’Argens),[40] Charles François Dupuis, Constantin-François Chassebecuf (conde de Volney). A introdução de cada um desses autores nos espaços intelectuais luso-brasílicos merece estudo à parte, mas é possível identificar alguns dos livros desses autores relacionados com a maçonaria. O único inglês desse conjuto, St. John, é um dos fundadores do deísmo moderno.
A obra de Dupuis, com suas ideias de um “Cristo Solar”, somente em 1913 foi publicada em português. Desses autores elencados, o que mais circulou em Brasil e Portugal foi sem dúvida Volney. Embora Les ruines (1791)
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O CAÇADOR DE PEDREIROS-LIVRES: JOSÉ ANASTÁCIO LOPES CARDOSO E SUA AÇÃO CONTRA A MAÇONARIA LUSO-BRASÍLICA (1799-1804)
Pablo A. Iglesias Magalhães*
Universidade Federal do Oeste da Bahia
Barreiros – Bahia – Brasil

“Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau.
Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.











