Simon Walter Blackburn
Sempre fui fascinado por pensadores que equilibram com mestria a produção acadêmica rigorosa com a capacidade de falar ao público comum. Simon Blackburn é, para mim, o exemplo mais bem‑acabado desse ideal. Quando percorremos a sua obra, encontramos um filósofo que não tem medo das questões fundamentais — a verdade, a moral, a linguagem —, mas que também não se refugia numa torre de marfim. Ele escreve para ser lido, debatido e, sobretudo, compreendido.
Foi Blackburn quem nos mostrou que o quase‑realismo pode salvar o discurso moral do abismo do niilismo; foi ele quem democratizou a filosofia com o seu célebre Dicionário Oxford de Filosofia e com obras de divulgação que já venderam mais de 150 000 exemplares.
Neste artigo, convido‑o a conhecer a trajetória, as ideias e o legado desse que é, indiscutivelmente, um dos filósofos britânicos mais influentes da nossa era.
Infância e Formação
Simon Walter Blackburn nasceu a 12 de julho de 1944 em Chipping Sodbury, nas proximidades de Bristol, Inglaterra. Filho de Cuthbert Walter e Edna Blackburn, cresceu num ambiente que valorizava o conhecimento e a educação. Frequentou o Clifton College entre 1957 e 1962, onde já se destacou pela inteligência e pela paixão pelas humanidades.
Em 1962, ingressou no Trinity College, Cambridge, para estudar as chamadas “Ciências Morais” – a designação tradicional do curso de filosofia em Cambridge. Obteve o seu bacharelato em 1965 e completou o doutoramento em 1969 no Churchill College, também em Cambridge.
Carreira Académica
A trajetória de Blackburn como professor é impressionante tanto pela variedade de instituições como pelas posições de prestígio que ocupou:
1967–1969 – Junior Research Fellow no Churchill College, Cambridge.
1969–1990 – Fellow and Tutor in Philosophy no Pembroke College, Oxford.
1984–1990 – Director da revista académica Mind, uma das mais antigas e conceituadas publicações de filosofia do mundo.
1990–2001 – Edna J. Koury Distinguished Professor of Philosophy na Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill (UNC Chapel Hill).
2001–2011 – Bertrand Russell Professor of Philosophy na Universidade de Cambridge, uma cátedra que antes fora ocupada por Elizabeth Anscombe, G. H. von Wright, Wittgenstein e G. E. Moore.
Aposentou‑se da Universidade de Cambridge em 2011, mas permanece como distinguished research professor of philosophy na UNC Chapel Hill, onde leciona todos os semestres de outono, e como fellow do Trinity College, Cambridge. É também membro do corpo docente do New College of the Humanities.
Honras e Reconhecimento
A excelência do seu trabalho foi amplamente reconhecida:
2002 – Eleito Fellow da British Academy (FBA).
2008 – Eleito Foreign Honorary Fellow da American Academy of Arts & Sciences.
2009–2010 – Presidente da Aristotelian Society.
2004 – Proferiu as prestigiadas Gifford Lectures na Universidade de Glasgow, sob o título Reason’s Empire.
2015 – Eleito Honorary Fellow da Australian Academy of the Humanities.
O Pensamento de Blackburn: Quase‑Realismo e a Herança de Hume
O Quase‑Realismo
Blackburn é, acima de tudo, conhecido pela sua teoria do quase‑realismo (quasi‑realism) no domínio da meta‑ética. Partindo de uma posição inicial anti‑realista ou projectivista – segundo a qual os valores não são propriedades intrínsecas do mundo, mas sim projecções das nossas atitudes –, Blackburn argumenta que podemos, através de engenhosa manobra filosófica, “ganhar o direito” de usar a linguagem moral como se o realismo fosse verdadeiro.
Por outras palavras, embora não acreditemos que existam “factos morais” objectivos no mundo, podemos continuar a falar da bondade ou da maldade, a fazer juízos éticos e a tratar os valores como se fossem reais. A teoria, desenvolvida em obras como Spreading the Word (1984) e Essays in Quasi‑Realism (1993), permitiu ultrapassar o velho dilema entre realismo e irrealismo moral.
O Neohumeanismo
Ao longo de toda a sua obra, Blackburn assume‑se como um neo‑humeano – alguém que recupera e actualiza as ideias de David Hume. Tal como Hume, acredita que a razão é, e deve ser, escrava das paixões; que a motivação moral tem origem nas emoções e não no raciocínio puro. Em Ruling Passions (1998) apresenta uma teoria detalhada das razões para agir e da motivação moral, alicerçada na psicologia humana.
Obras de divulgação filosófica
Blackburn destacou‑se também como um dos grandes divulgadores de filosofia da sua geração.
O seu The Oxford Dictionary of Philosophy (1994, 2008) tornou‑se uma obra de referência mundial. Para o grande público, escreveu Think (1999), uma introdução à filosofia, Being Good (2001) – uma introdução à ética –, Truth: A Guide (2005) e Mirror, Mirror (2014), sobre o amor‑próprio. Juntos, estes livros venderam mais de 150 000 exemplares, prova do seu alcance junto do público não especializado.
Curiosidades sobre Simon Blackburn
Prefere “infiel” a “ateu”
Blackburn é patrono da Humanists UK (antiga British Humanist Association). Quando questionado sobre como definiria o seu ateísmo, respondeu de forma irónica mas rigorosa: “Prefiro o rótulo ‘infiel’ a ‘ateu’. Ser infiel significa simplesmente não ter fé; não tenho de provar nada. Não tenho fé no Monstro do Lago Ness, mas não ando por aí a tentar provar que ele não existe – embora existam argumentos esmagadores de que não existe”.Intelectual público activo
Participa regularmente em debates na BBC Radio 4, nomeadamente no programa The Moral Maze. Apareceu também em múltiplos episódios da série documental Closer to Truth.Opositor do Papa
Em Setembro de 2010, foi um dos 55 signatários de uma carta aberta publicada no jornal The Guardian contra a visita de Estado do Papa Bento XVI ao Reino Unido.Crítico da “ortodoxia de género radical”
Em 2023, foi um dos 240 académicos que assinaram uma carta à Comissão para a Igualdade e os Direitos Humanos, opondo‑se à “ortodoxia de género radical”.O jantar do colega judeu
Certa vez, Blackburn foi convidado para jantar por um colega judeu, sem saber que se tratava de uma refeição de sexta‑feira à noite com observâncias religiosas. Quando lhe pediram que usasse um chapéu para participar no ritual, recusou delicadamente. Este episódio deu origem a um célebre ensaio sobre religião e respeito.Especialista em David Hume
Além da meta‑ética e da filosofia da linguagem, Blackburn é considerado um dos maiores especialistas mundiais na obra de David Hume.Membro da Academia Americana
Foi eleito Foreign Honorary Fellow da American Academy of Arts & Sciences em 2008, uma das mais altas distinções atribuídas pela academia norte‑americana a académicos estrangeiros.O jornal Mind e a excelência académica
Dirigiu a revista Mind entre 1984 e 1990. Durante esse período, a revista consolidou a sua posição como uma das mais prestigiadas publicações de filosofia analítica do mundo.
Legado de Simon Blackburn
O legado de Blackburn é multifacetado e duradouro.
Na meta‑ética, o quase‑realismo continua a ser uma das posições mais discutidas e influentes do panorama contemporâneo. A teoria permitiu a muitos filósofos – e a leigos interessados – escapar ao falso dilema entre um realismo moral ingénuo e um irrealismo niilista. Ao defender que podemos falar de valores “como se” fossem reais, Blackburn abriu caminho a uma forma sofisticada de naturalismo moral que respeita tanto a intuição comum como as exigências da ciência moderna.
Na filosofia da linguagem e da mente, a sua obra projectivista influenciou profundamente o debate sobre a natureza da verdade e da representação. Os seus trabalhos sobre a “natureza da razão prática” e sobre a “motivação moral” são lecturas obrigatórias em qualquer curso avançado de filosofia.
Na divulgação da filosofia, Blackburn foi, talvez, o mais bem‑sucedido académico britânico da sua geração a levar a filosofia ao grande público – sem nunca sacrificar o rigor. O seu Oxford Dictionary of Philosophy é a obra de referência para estudantes e professores em todo o mundo de língua inglesa; os seus livros introdutórios (Think, Being Good, Truth: A Guide) ajudaram a formar uma geração de leitores interessados.
Como intelectual público, Blackburn assumiu sem complexos uma posição laica, humanista e crítica face aos excessos da religião institucionalizada. A sua defesa da separação entre a fé e a esfera pública, bem como a sua participação em debates sobre moral e política, fizeram dele uma voz respeitada e, por vezes, controversa – mas sempre lúcida e corajosa.
Por fim, o legado de Blackburn é também um legado de clareza. Num mundo em que a sofisticação académica muitas vezes se confunde com obscuridade, ele demonstrou que é possível ser profundo sem ser incompreensível. A sua obra permanecerá como um farol para todos aqueles que acreditam que a filosofia é, antes de mais, a arte de bem pensar e de bem viver.
Pesquisa e redação Ivair Ximenes Lopes
Fontes
Wikipédia, a enciclopédia livre – Simon Blackburn (em inglês, português, espanhol e catalão)
Gifford Lectures – Simon Blackburn: Biography
Humanists UK – Patron: Professor Simon Blackburn
Oxford Reference – Simon Blackburn
Stanford Encyclopedia of Philosophy – Quasi‑realism
PhilPapers – Simon Blackburn, Interview
British Academy – Fellow Profile: Simon Blackburn
American Academy of Arts & Sciences – Foreign Honorary Fellow listing
Closer to Truth – Simon Blackburn episodes
BBC Radio 4 – The Moral Maze

“Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau.
Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.











