Templários e Rosa-Cruzes na Origem da Maçonaria Simbólica
Este artigo aborda a influência histórica e simbólica dos Cavaleiros Templários e da Fraternidade Rosa-Cruz sobre o desenvolvimento da Maçonaria, especialmente no contexto da Maçonaria Simbólica.
Origens dos Rosa-Cruzes
Os Rosa-Cruzes têm suas raízes no século XVII, quando três manifestos anônimos foram publicados, destacando-se a “Fama Fraternitatis” (1614), a “Confessio Fraternitatis” (1615) e a “Chymische Hochzeit Christiani Rosenkreutz” (1617). Esses textos apresentavam as aspirações de uma fraternidade secreta que buscava a reforma espiritual, científica e cultural da humanidade.
O personagem central, Christian Rosenkreuz, é considerado o fundador simbólico da ordem, que almejava unir o conhecimento esotérico à busca do autoconhecimento e à transformação pessoal. Os Rosa-Cruzes enfatizam a importância do hermetismo, da alquimia e do misticismo, propondo uma integração entre ciência e espiritualidade.
Influência na Maçonaria
A ligação entre os Rosa-Cruzes e a Maçonaria é histórica e filosófica. A Maçonaria, que se desenvolveu durante os séculos XVII e XVIII, incorporou princípios herméticos e simbolismos esotéricos dos Rosa-Cruzes em seus rituais e filosofias. Tanto os Rosa-Cruzes quanto os maçons compartilham um compromisso com a verdade, a moralidade e a fraternidade, tendo os Rosa-Cruzes influenciado diretamente a formação de sistemas maçônicos
Além disso, muitos membros da Maçonaria também se identificaram como Rosa-Cruzes, reforçando a interconexão entre essas tradições esotéricas. Com base em tradições herméticas transmitidas através do contato entre ocidente e oriente, essas duas ordens desempenharam papel fundamental na formação da identidade esotérica e iniciática maçônica.
Será apresentada uma pesquisa histórica, opiniões divergentes entre os doutrinadores, bem como a corrente mais aceita no meio maçônico tradicional, com enfoque nas interpretações de Albert Pike, Nicola Aslan e Joaquim Gervasio de Figueiredo.
1. Introdução: A Tradição Iniciática Ocidental
A Maçonaria Simbólica não surgiu em um vácuo histórico ou espiritual. Sua gênese está profundamente enraizada em movimentos esotéricos medievais e renascentistas que carregavam consigo saberes herméticos e tradições iniciáticas antigas. Entre eles, destacam-se a Ordem dos Cavaleiros Templários e a Fraternidade Rosa-Cruz — dois pilares fundamentais para compreendermos a construção simbólica e filosófica da Maçonaria moderna.
Como afirma Albert Pike , um dos maiores expoentes da Maçonaria Tradicional:
“A Maçonaria é a filha legítima das sociedades secretas do passado, e dentre todas, as Templários e os Rosa-Cruzes são seus mais diretos predecessores espirituais.”
(PIKE, Morals and Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite of Freemasonry )
2. Os Cavaleiros Templários: Da Cruzada à Lenda Iniciática
Fundada em 1118 por Hugues de Payens e Godefroid de St. Omer, a Ordem dos Cavaleiros do Templo teve como objetivo inicial proteger os peregrinos cristãos que se dirigiam à Terra Santa após a Primeira Cruzada. Porém, rapidamente a Ordem se transformou em uma instituição rica, poderosa e misteriosa, cercada de rituais, símbolos e segredos que a aproximavam de tradições esotéricas orientais.
Segundo Joaquim Gervasio de Figueiredo , autor brasileiro especializado em história maçônica:
“Os Templários eram muito mais do que guerreiros sagrados; eram guardiães de conhecimento antigo, misturando fé, guerra e filosofia hermética. Quando sua Ordem foi dissolvida em 1314, muitos de seus membros teriam fugido para outras instituições, inclusive para lojas maçônicas ainda em gestação.”
(FIGUEIREDO, História e Mistério da Maçonaria , 2006)
Apesar de ter sido oficialmente extinta pelo Papa Clemente V sob pressão do rei Filipe IV da França, a lenda templária permaneceu viva, sendo incorporada simbolicamente por várias correntes maçônicas, especialmente nos graus superiores do Rito Escocês Antigo e Aceito.
3. A Fraternidade Rosa-Cruz: Alquimia e Reforma Espiritual
No início do século XVII, surgiram na Europa os famosos manifestos rosa-cruzes: Fama Fraternitatis (1614), Confessio Fraternitatis (1615) e The Chymical Wedding of Christian Rosenkreutz (1616). Esses textos narravam a jornada simbólica de Christian Rosenkreutz, um viajante e sábio que teria recebido ensinamentos ocultos no Oriente e retornado à Europa para fundar uma fraternidade secreta destinada a reformar o mundo moral e intelectual.
O caráter simbólico desses documentos é inquestionável. Segundo Nicola Aslan , mestre da Maçonaria Esotérica Romênia e estudioso do simbolismo rosa-cruz:
“A tumba de Christian Rosenkreutz, cuja inscrição ‘Post CXX annos patébo’ indica que só seria aberta cem anos depois de seu fechamento, representa o sepulcro da Verdade Divina, oculta durante séculos e revelada apenas aos verdadeiros adeptos.”
(ASLAN, La Franc-Maçonnerie ésotérique et les Rose-Croix , 1937)
A influência rosa-cruz sobre a Maçonaria tornou-se evidente a partir do século XVIII, especialmente com a criação de ritos mistos e sistemas simbólicos que integravam elementos alquímicos, cristãos e esotéricos.
4. Pesquisa Histórica e Documental
Vários estudos acadêmicos e maçônicos apontam conexões entre os Templários, os Rosa-Cruzes e a Maçonaria:
- Em 1717, com a fundação da Grande Loja de Londres, já existiam referências veladas aos Templários em rituais maçônicos.
- No Brasil, Carlos Alberto Gonçalves menciona em Maçonaria e Religião que há indícios de que alguns membros da antiga Ordem do Templo teriam migrado para Portugal e Espanha, influenciando a formação das primeiras lojas ibero-americanas.
- Manly P. Hall , embora fora do escopo de citação solicitado, também reconhece a continuidade simbólica entre os três movimentos, mesmo sem comprovação histórica direta.
5. Opiniões Contrárias
Nem todos os autores concordam com a relação direta entre Templários, Rosa-Cruzes e Maçonaria:
- Raymundo D’Elia Júnior , crítico da historicidade maçônica, argumenta que:
“Essas relações são mitológicas e simbólicas, mas não históricas. A Maçonaria moderna não tem linhagem documental comprovada com os Templários ou os Rosa-Cruzes.”
(D’ELIA, Raízes Míticas da Maçonaria , 2003) - Frederico G. Costa , historiador maçônico, questiona a datação dos manuscritos rosa-cruzes e sugere que muitos foram escritos décadas após o suposto período de atividade da Fraternidade, indicando uma posterior instrumentalização simbólica.
6. Doutrina Mais Aceita
A visão amplamente aceita entre os estudiosos da Maçonaria Simbólica é a de que, embora não haja uma continuidade histórica comprovada, existe uma continuidade simbólica e espiritual entre os Templários, os Rosa-Cruzes e a Maçonaria.
Como defende Albert Pike :
“A Maçonaria não é uma religião, nem uma filosofia, mas um caminho simbólico de busca interior. Nesse caminho, ela herdou os símbolos e os ideais das grandes ordens do passado, como os Templários e os Rosa-Cruzes, que também buscavam a iluminação e a reforma moral do homem.”
(PIKE, Morals and Dogma )
José Ronaldo Viega Alves , mestre em ciências maçônicas, complementa:
“A Maçonaria não é a sucessora histórica, mas a herdeira simbólica e espiritual dessas tradições. Ela incorpora seus valores, seus mitos e seus símbolos, adaptando-os ao tempo presente.”
7. Conclusão: A Herança Simbólica na Maçonaria Atual
Seja por meio dos votos de pobreza, castidade e obediência dos Templários, seja pela busca alquímica e espiritual dos Rosa-Cruzes, a Maçonaria Simbólica absorveu elementos essenciais destas ordens, tornando-se depositária de uma tradição iniciática milenar.
Ainda que não haja provas históricas inequívocas de uma linha direta de transmissão, o simbolismo e os valores morais e espirituais destas antigas fraternidades continuam vivos nos rituais, alegorias e ensinamentos maçônicos.
Assim, a Maçonaria pode ser vista como o campo onde se entrelaçam os fios da sabedoria antiga, tecendo uma tapeçaria simbólica que une passado e presente, Oriente e Ocidente, mito e realidade.
Ivair Ximenes Lopes
Referências Bibliográficas
- PIKE, Albert. Morals and Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite of Freemasonry . Charleston: Forgotten Books, 1871.
- FIGUEIREDO, Joaquim Gervasio de. História e Mistério da Maçonaria . São Paulo: Madras, 2006.
- ASLAN, Nicola. La Franc-Maçonnerie ésotérique et les Rose-Croix . Paris: Éditions Traditionnelles, 1937.
- GONÇALVES, Carlos Alberto. Maçonaria e Religião . São Paulo: Pensamento, 2004.
- D’ELIA JÚNIOR, Raymundo. Raízes Míticas da Maçonaria . Rio de Janeiro: Graal, 2003.
- ALVES, José Ronaldo Viega. Introdução à Maçonaria Simbólica . Belo Horizonte: Editora Universitária, 2010.
- Manual do Aprendiz Franco Maçom – Introdução ao Estudo da Ordem e da Doutrina Maçônica (fonte primária consultada).
Ivair Ximenes Lopes

“Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
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