As Religiões dos Sarracenos: Entre o Paganismo Antigo e o Islã
Introdução
O termo “sarraceno” foi amplamente utilizado durante a Idade Média por autores europeus para se referir aos povos árabes, especialmente aqueles que professavam o islã . No entanto, historicamente, o termo também foi aplicado de forma vaga e imprecisa a várias populações do Oriente Médio, incluindo árabes pagãos , cristãos orientais , muçulmanos , e até mesmo beduínos nômades .
Este artigo busca explorar, de maneira consistente e fundamentada, as religiões associadas aos sarracenos , enfatizando:
- O significado histórico e cultural do termo;
- As práticas religiosas pré-islâmicas no mundo árabe;
- A emergência do islã como religião dominante entre os sarracenos ;
- A visão medieval europeia sobre os “sarracenos” e suas crenças.
1. O Que Significa “Sarraceno”?
Origem do Termo
A palavra “sarraceno” vem do latim “Saracenus” , que provavelmente deriva da combinação de duas palavras semíticas:
- “Sara” (terra) + “Ken” (habitantes): algo como “habitantes das terras altas” ou “do deserto”.
- Na antiguidade, era usado pelos romanos para designar povos do deserto sírio e árabe.
Uso Medieval
Durante a Idade Média, especialmente nos períodos das Cruzadas (1096–1291) , os europeus passaram a usar o termo “sarraceno” como sinônimo de muçulmano , muitas vezes com conotação negativa ou demonizadora.
Importante: nem todos os “sarracenos” eram muçulmanos; alguns eram cristãos nestorianos, judeus ou seguidores de religiões tribais locais.
2. Religiões Pré-Islâmicas na Península Arábica
Antes da revelação do islã no início do século VII, a Península Arábica era um mosaico religioso. Os chamados “sarracenos” podiam pertencer a diversas tradições:
1. Paganismo Arábico
- Era a religião mais difundida antes do islã.
- Baseava-se na adoração de divindades locais , ídolos e espíritos ancestrais .
- Em Meca, o Kaaba abrigava mais de 360 ídolos, representando divindades tribais, dentre eles:
- Al-Lat : deusa da fertilidade
- Uzza : deusa da guerra
- Manat : deusa do destino
- Os árabes pagãos reconheciam Allah como um deus supremo, mas não o viam como único.
2. Cristianismo no Oriente Médio
- Havia comunidades cristãs em áreas como Najran (Arábia do Sul) , Palestina , Síria e Iraque .
- Seguiam principalmente o cristianismo nestoriano e jacobita (monofisita) .
- Alguns clãs árabes, como os Ghassanidas , eram cristãos e aliados do Império Bizantino.
3. Judaísmo na Arábia
- Comunidades judaicas estabelecidas desde tempos antigos viviam em Yathrib (mais tarde Medina) , Khaybar e outras cidades.
- Desempenharam papel importante no desenvolvimento econômico e intelectual da região.
4. Hanifismo
- Movimento espiritual minoritário que buscava uma religião monoteísta distinta do politeísmo local.
- Alguns historiadores sugerem que Maomé teria tido contato com essa corrente antes da revelação do Alcorão.
3. O Islã e a Unificação Religiosa dos Sarracenos
Surgimento do Islã
No ano 610 d.C. , segundo a tradição islâmica, o mercador Maomé ibn Abdullah recebeu sua primeira revelação do anjo Gabriel, marcando o início do islã.
- O islã pregava o monoteísmo estrito (crença em um só Deus, Allah), rejeitando o politeísmo e integrando elementos do judaísmo e do cristianismo.
- A mensagem inicial foi rejeitada em Meca, levando Maomé a migrar para Medina em 622 d.C. — evento conhecido como Hégira , que marca o início do calendário islâmico.
Expansão Rápida
- Após a morte de Maomé (632 d.C.), o islã expandiu-se rapidamente pela Península Arábica e além.
- Dentro de poucas décadas, o islã tornou-se a religião dominante entre os povos árabes e seus aliados, incluindo os que eram anteriormente chamados de “sarracenos”.
4. Visão Europeia Medieval: Os “Sarracenos” nas Cruzadas
Na visão medieval europeia, os “sarracenos” eram frequentemente retratados como:
- Infiéis e inimigos da Cristandade.
- Idólatras (mesmo sendo muçulmanos monoteístas).
- Adoradores de Maomé ou de figuras como Apolo, Saturno ou Zeus — mitos propagados por cruzadistas mal informados.
Representações Literárias e Artísticas
- Nas epopeias medievais, como “A Canção de Rolando” ou “As Crônicas de Turpin” , os sarracenos eram mostrados como heróis pagãos.
- Em manuscritos iluminados, apareciam com turbantes e armas exóticas, simbolizando o “outro” ameaçador.
5. Comparação Religiosa: Islã vs. Paganismo Arábico
6. Legado Cultural e Religioso
O islamismo trouxe uma nova identidade religiosa, política e social para os povos outrora chamados de sarracenos:
- Criou um império unificado sob uma única fé, o Califado .
- Promoveu o desenvolvimento científico, filosófico e teológico durante a Idade de Ouro Islâmica (séculos VIII a XIII).
- Influenciou profundamente a cultura europeia através da Espanha muçulmana (Al-Andalus) e contatos comerciais e diplomáticos.
Considerações Finais
A expressão “religiões dos sarracenos” é historicamente ambígua, pois engloba tanto o paganismo árabe antigo quanto o islã , uma das maiores religiões do mundo. Essa diversidade reflete a riqueza e a complexidade do mundo árabe antes e depois da revelação islâmica.
Ao longo da história, os “sarracenos” foram vistos ora como inimigos, ora como sábios e mediadores culturais entre o Ocidente e o Oriente. Seja como praticantes de religiões locais, seja como seguidores do islã, seu legado religioso continua vivo e influente até os dias de hoje.
Ivair Ximenes Lopes
Referências Bibliográficas
- Watt, William Montgomery. Muhammad: Prophet and Statesman . Oxford University Press, 1974.
- Donner, Fred McGraw. The Early Islamic Conquests . Princeton University Press, 1981.
- Hoyland, Robert G. Seeing Islam as Others Saw It: A Survey and Evaluation of Christian, Jewish and Zoroastrian Writings on Early Islam . Darwin Press, 1997.
- Armstrong, Karen. Islã: Uma História Sagrada . Record, 2003.
- Peters, F.E. The Monotheists: Jews, Christians, and Muslims in Conflict and Competition . Princeton University Press, 2003.
- Firestone, Reuven. Jihad: The Origin of Holy War in Islam . Oxford University Press, 1999.

“Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau.
Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.











