Trindades e Trilogias : Um Estudo Simbólico e Filosófico
Resumo Preliminar do Texto Base
O texto original discorre sobre a importância simbólica do número três, explorando trindades e trilogias nas diversas tradições religiosas, filosóficas e esotéricas, destacando paralelos entre culturas antigas como a egípcia, bramânica, caldaica, cristã e maçônica.
Destaca-se que os ternários expressam não apenas princípios cosmológicos, mas também fundamentos do pensamento simbólico da Maçonaria Regular, como as Luzes da Loja (Esquadro, Nível e Prumo) e os Pilares da Sabedoria, Força e Beleza.
O texto propõe que essas trindades são representações universais da realidade, do ser e da consciência, sendo constituintes fundamentais do pensamento iniciático.
I. Pesquisas Históricas e Fundamentação Filosófica
A recorrência do número três como fundamento simbólico é atestada desde as primeiras civilizações. Como destaca Albert Pike em Morals and Dogma (1871), “O três é o número da manifestação divina no mundo; é a tríplice expressão do Logos”. O ternário aparece como estrutura de organização do mundo, da sociedade e da espiritualidade. Nas antigas religiões egípcias, a trindade Osíris-Isis-Hórus representava o ciclo da vida, da morte e da regeneração.
Na Índia védica, temos Brahma (criação), Vishnu (manutenção) e Shiva (destruição), associados aos gunas — Sattva, Rajas e Tamas — como explica Rizzardo da Camino em A Tradição Maçônica e sua Filosofia Iniciática (2014), o que demonstra uma clara ligação entre filosofia oriental e simbolismo ocidental.
A tradição greco-romana também reverenciava ternários: Júpiter, Netuno e Plutão; ou ainda Platão, Aristóteles e Sócrates, cujos pensamentos sustentam boa parte da cosmovisão ocidental. No cristianismo, a Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo) representa a unidade de Deus em três pessoas distintas.
Já na Maçonaria Regular, a tríade manifesta-se em diversos níveis simbólicos: nas ferramentas (Esquadro, Nível e Prumo), nos cargos (Venerável, 1° e 2° Vigilantes), e nos pilares (Sabedoria, Força e Beleza), que, como lembra Nicola Aslan em O Simbolismo Maçônico (1960), “representam os fundamentos da arquitetura simbólica da Loja, cuja construção é também interna, espiritual”.
II. Opiniões Contrárias e Visões Céticas
Nem todos os estudiosos aceitam a ubiquidade simbólica do número três como algo de valor universal. Alguns críticos da leitura esotérica alegam que há um excesso de analogias forçadas entre culturas que, embora usem o número três, não compartilham significados simbólicos equivalentes.
Joseph Fort Newton, por exemplo, em The Builders (1914), admite a beleza e profundidade do simbolismo, mas alerta para o risco da sobreposição de significados: “Nem todo uso de um triângulo é símbolo da trindade divina. Algumas analogias são meramente didáticas ou estruturais.”
Há também escolas filosóficas modernas que rejeitam leituras simbólicas como desnecessárias ou arcaicas, defendendo uma racionalização do simbolismo maçônico, como argumenta Jefferson S. de Carvalho, que advoga por uma interpretação pedagógica, mais do que metafísica, dos símbolos.
III. A Doutrina Mais Aceita: Trilogias como Arquétipo Universal
Apesar das críticas, a doutrina mais aceita na Maçonaria Regular vê as trilogias como arquétipos universais, como afirmado por Joaquim Gervásio de Figueiredo: “Toda a estrutura ritualística e simbólica da Maçonaria é montada sobre o ternário, que representa equilíbrio e manifestação da Lei”. Este pensamento é ecoado por Albert Pike, Manly P. Hall, e C.W. Leadbeater, que entendem que o três não é apenas número, mas lei cósmica de manifestação.
A presença simultânea de três grandes Luzes, três Grandes Colunas e três Oficiais Principais em Loja não é acidental: expressa a ordem, o equilíbrio e a harmonia. Como aponta Leon Zeldis: “O ternário é o alicerce invisível de toda a estrutura simbólica maçônica”.
Do ponto de vista psicológico, a trindade Espírito-Alma-Corpo, mencionada no texto base, é paralela à tripartição freudiana do psiquismo: Id, Ego e Superego, sugerindo que, mesmo na ciência, a divisão ternária tem ressonância.
IV. Integração com o Texto Base: Ampliando a Reflexão Maçônica
A simbologia das três ferramentas — Esquadro, Prumo e Nível — não apenas estabelece regras de conduta ética e moral, como espelha a jornada do maçom: ascensão espiritual (Prumo), retidão moral (Esquadro) e equilíbrio social (Nível). Cada ferramenta representa um eixo da existência: verticalidade (relação com o Superior), horizontalidade (com o próximo) e angularidade (consciência do limite e da ordem).
As colunas Sabedoria, Força e Beleza correspondem, segundo Carlos Brasílio Conte, às dimensões da alma humana. A Sabedoria inspira; a Força executa; a Beleza harmoniza. São expressões dos três planos da consciência: superconsciente, consciente e subconsciente — um ponto central no texto base.
Como observa Alberto Mansur, “a Loja é um microcosmo ordenado por tríades: o passado, o presente e o futuro; o nascimento, a vida e a morte; a iniciação, a elevação e a exaltação.” O número três não é apenas estética ritualística: é essência espiritual da Ordem.
V. Considerações Finais: A Trindade como Fundamento Iniciático
A Maçonaria Regular utiliza o número três como expressão simbólica de unidade na diversidade. As trindades não são dogmas, mas mapas simbólicos que auxiliam o iniciado a compreender sua própria natureza e o universo à sua volta. Seja como Princípios Criadores, ferramentas de conduta, colunas de sustentação ou estados da alma, o ternário é um símbolo estruturante, refletindo tanto a tradição esotérica universal quanto os fundamentos da arte real.
Como ensinava Saint-Yves d’Alveydre, “a harmonia é o equilíbrio dinâmico entre os opostos, sempre mediado por um terceiro princípio”. A Maçonaria, como escola de aperfeiçoamento humano, reconhece neste terceiro elemento — o ponto de conciliação — a essência de sua prática simbólica e moral.
Autor Ivair Ximenes Lopes
Fontes e Bibliografia Consultada
Pike, Albert. Morals and Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite of Freemasonry. The Supreme Council, 1871.
Nicola Aslan. O Simbolismo Maçônico. Editora Aurora, 1960.
Rizzardo da Camino. A Tradição Maçônica e sua Filosofia Iniciática. Madras, 2014.
Manly P. Hall. The Secret Teachings of All Ages. Philosophical Research Society, 1928.
Joseph Fort Newton. The Builders: A Story and Study of Freemasonry. Macoy Publishing, 1914.
Leon Zeldis. A Maçonaria: História, Doutrina e Filosofia. A Trolha, 1996.
Joaquim Gervásio de Figueiredo. Dicionário Maçônico. A Trolha, diversas edições.
Carlos Brasílio Conte. A Simbologia na Maçonaria. Madras, 2011.
Alberto Mansur. O Livro do Aprendiz Maçom. Editora Maçônica A Trolha.
Carlos Alberto Gonçalves. Simbologia do Rito Escocês Antigo e Aceito.

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