Home / História / Religiões / Os maçons e a Criação de Estruturas Religiosas no Reino do Brasil

Os maçons e a Criação de Estruturas Religiosas no Reino do Brasil

Designer (54)

Os maçons e a Criação de Estruturas Religiosas no Reino do Brasil

A Maçonaria desempenhou um papel complexo e muitas vezes conflituoso no contexto das relações entre Igreja, Coroa e política no Brasil imperial, especialmente a partir do século XIX.

Embora não tenha existido uma maçonaria organizada no Brasil durante o período colonial (séculos XVI–XVIII), sua emergência e expansão no Império do Brasil (1822–1889) — especialmente entre elites políticas, militares e intelectuais — gerou tensões profundas com a Igreja Católica e, em certos momentos, com a própria Coroa.

Abaixo, apresentamos uma análise integrada ao mesmo quadro histórico do artigo anterior, mostrando como maçons, reis (especialmente D. Pedro I e D. Pedro II), a política do Reino/Império e a Igreja Católica estavam entrelaçados.

A Maçonaria no Brasil: Entre a Coroa, a Igreja e a Política (séculos XIX)

1. Origens e Inserção no Império

A Maçonaria chegou ao Brasil de forma organizada por volta de 1813, com a fundação da Loja “Comércio e Artes no Rio de Janeiro, ainda sob domínio português. Seu crescimento acelerou-se após a chegada da Corte portuguesa em 1808, que trouxe ideias iluministas, liberais e anticlericais.

  • D. Pedro I foi iniciado na Maçonaria em 1822, na Loja “Comércio e Artes”, recebendo o título de Grão-Mestre Geral da Maçonaria do Brasil.
    Sua adesão foi estratégica: a Maçonaria reunia setores da elite que apoiavam a independência do Brasil e se opunham ao absolutismo português.
  • A Maçonaria tornou-se um espaço de articulação política liberal, reunindo figuras como José Bonifácio, Gonçalves Ledo e outros líderes do movimento independentista.

Importante: Embora D. Pedro I tenha usado a Maçonaria como aliada política, afastou-se dela em 1823, sob pressão da Igreja e de setores conservadores, e chegou a proibir as lojas por decreto em 1824 — embora a proibição tenha sido pouco eficaz na prática.

2. D. Pedro II e a Maçonaria: Relação Ambígua

Diferentemente de seu pai, D. Pedro II nunca foi maçom, mas manteve relações estreitas com maçons ao longo de seu reinado. Muitos de seus ministros, conselheiros, generais e intelectuais eram membros ativos da Maçonaria, como:

A Maçonaria, nesse período, tornou-se um veículo de difusão do liberalismo, do republicanismo moderado, do abolicionismo e do laicismo. Apesar de D. Pedro II ser um monarca constitucional e defensor da ordem, tolerava a Maçonaria por seu papel na manutenção de uma elite política moderada e educada.

Contudo, essa convivência gerou tensões crescentes com a Igreja Católica, que via a Maçonaria como:

  • Inimiga da católica (condenada por várias bulas papais, como Ecclesiam a Jesu Christo, de 1821, e Humanum Genus, de 1884)
  • Promotora do secularismo e do anticlericalismo
  • Infiltrada no Estado, influenciando leis e nomeações

3. O Conflito com a Igreja: A Questão Religiosa (1872–1875)

O ponto de ruptura entre o Estado imperial e a Igreja foi a Questão Religiosa, diretamente ligada à presença de maçons no poder.

  • Bispos ultramontanos, como D. Vital de Oliveira (Olinda) e D. Antônio de Macedo Costa (Belém), proibiram a participação de maçons em sacramentos (batismo, casamento, enterro em cemitérios católicos), alegando que a Maçonaria era uma seita condenada pela Igreja.
  • O governo imperial, sob o gabinete de Visconde do Rio Branco, considerou essa atitude uma violação da autoridade do Estado e do regime do Padroado, que dava ao imperador o direito de controlar os assuntos eclesiásticos no Brasil.
  • Os bispos foram presos (1874), julgados e condenados — fato inédito em um país católico. A Santa Sé protestou, mas o Vaticano estava enfraquecido após a perda dos Estados Pontifícios (1870).

Consequência: A Questão Religiosa enfraqueceu a aliança entre Trono e Altar, abalou a legitimidade moral do Império e aproximou setores da Igreja de ideias republicanas — ironicamente, muitas delas também promovidas pelos maçons.

4. Maçonaria, Abolição e República

Nos anos 1880, a Maçonaria tornou-se centro de mobilização abolicionista e republicana:

  • Lojas maçônicas organizavam campanhas, financiavam jornais e pressionavam parlamentares.
  • Após a Lei Áurea (1888), setores conservadores (especialmente escravocratas) viram na Maçonaria e no governo imperial uma ameaça aos seus interesses.
  • Em 1889, a proclamação da República foi liderada por Deodoro da Fonseca, maçom e ex-ministro do Império, com apoio de outras figuras maçônicas.

Curiosamente, D. Pedro II foi deposto por homens que, em grande parte, haviam sido seus colaboradores — e muitos deles, maçons.

Conclusão: Um Triângulo de Tensões

No contexto do Reino e do Império do Brasil, a Maçonaria não era apenas uma sociedade secreta, mas um ator político central que:

  • Aliou-se à Coroa nos momentos de construção do Estado nacional (especialmente com D. Pedro I);
  • Conviveu com o Império de D. Pedro II, apesar das tensões com a Igreja;
  • Contribuiu para a crise final do regime monárquico, ao promover ideias liberais, abolicionistas e republicanas.

Enquanto a Coroa via na Maçonaria um instrumento de modernização e controle político, a Igreja Católica a via como uma ameaça existencial à e à ordem moral. Esse triângulo de forças — Coroa, Igreja e Maçonaria — moldou decisivamente a trajetória política e religiosa do Brasil no século XIX.

Autor Ivair Ximenes Lopes

Fontes Complementares sobre Maçonaria e Império

  1. AZEVEDO, José Antonio de. Maçonaria e Independência do Brasil. São Paulo: Ícone, 1993.
  2. FERRER, Aldrin Moura de. Maçonaria e República no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad, 2006.
  3. GOMES, Flávio dos Santos. História da Maçonaria no Brasil. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2003.
  4. CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Cia. das Letras, 1990.
  5. BULAS PAPAIS: Ecclesiam a Jesu Christo (Leão XII, 1821); Humanum Genus (Leão XIII, 1884).
  6. Relatórios da Questão Religiosa, Arquivo Nacional (Brasil), Fundo “Justiça”, 1872–1875.
  7. RIBEIRO, Gladys Sabina. A liberdade em jogo: os abolicionistas no parlamento imperial. Brasília: Senado Federal, 2001.

Essas fontes demonstram como a Maçonaria, embora marginalizada pela historiografia tradicional, foi um agente político decisivo nas transformações do Brasil imperial — e um elo crucial entre as esferas religiosa, monárquica e libera

MM Ximenes

"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter. No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.

Deixe uma resposta

A Maçonaria Regular

3
4
1
2

 

A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.

 No Brasil, no simbolismo, apenas três "potências" são reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.

 A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.

 Uma Loja regular deve estar vinculada a uma das três potências reconhecidas no Brasil e seguir normas específicas de regularidade.

Maçonaria Regular MS

glems
goms
gob ms
glems

 

A maçonaria regular no Mato Grosso do Sul é composta pelo Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul (GOB-MS) (GOB), Grande Loja Maçônica do Estado do Mato Grosso do Sul (GLEMS) (CMSB) e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso do Sul (GOMS) (COMAB).

MS Maçom


Nossas TAGs

Assine a Newsletter

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

Junte-se a 9.607 outros assinantes

Desclpa! Você não pode copiar conteúdo desta página.

Descubra mais sobre MS MAÇOM

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading