O primeiro mandamento na maçonaria: a palavra sagrada e a unidade do princípio divino
a) Resumo preliminar do texto base
O texto base relaciona a Palavra Sagrada do Aprendiz ao Primeiro Mandamento bíblico: “Eu sou o Senhor teu Deus; não terás outro Deus diante de mim“.
Essa analogia simboliza o reconhecimento da existência de uma única Realidade espiritual universal, fonte de todo o bem, poder e vida.
A iniciação maçônica conduz o candidato a essa consciência interior e ao rompimento com as ilusões e falsas dependências externas — os “falsos deuses” —, realizando um verdadeiro êxodo pessoal rumo à liberdade e independência espiritual.
b) Pesquisa histórica sobre o princípio do monoteísmo e o simbolismo do Primeiro Mandamento na maçonaria regular
Desde as origens da Maçonaria especulativa, o monoteísmo tem sido um dos pilares da doutrina, sobretudo na Maçonaria Regular, que exige crença em um Ser Supremo, o Grande Arquiteto do Universo. O Primeiro Mandamento, retirado da tradição judaico-cristã, é interpretado simbolicamente como o reconhecimento do Princípio Único, fonte imanente da vida e do bem, e que ultrapassa religiões e dogmas.
Albert Pike, em sua obra Morals and Dogma (1871), enfatiza que a verdadeira iniciação não é uma simples adesão a um culto, mas o despertar para uma Realidade espiritual única, indivisível e onipresente, que transcende todos os falsos ídolos — sejam eles materiais, ideológicos ou supersticiosos. Esta Realidade é a base do progresso moral e espiritual do maçom.
Para Nicola Aslan, o Primeiro Mandamento representa a unidade essencial do ser e o reconhecimento da soberania dessa força dentro do iniciado, que deve abandonar todo apego a forças externas ilusórias. Tal visão está em consonância com a tradição iniciática que associa a passagem do “Egito” — símbolo das paixões e da escravidão sensorial — à libertação por meio do conhecimento interno e da luz espiritual.
Joaquim Gervásio de Figueiredo destaca que a Maçonaria Regular vê no Primeiro Mandamento uma reafirmação da lei fundamental da ordem cósmica e moral, que é a adoração do princípio único e a rejeição das forças dispersivas que fragmentam a consciência humana.
c) Opiniões contrárias
Há críticas dentro do meio maçônico e filosófico que questionam a centralidade da noção de um único princípio em um mundo pluralista. Carlos Torres Pastorino e Frederico G. Costa apontam que a insistência num monoteísmo estrito pode colidir com a diversidade de crenças e interpretações espirituais existentes no âmbito maçônico, que inclui símbolos de várias tradições.
Além disso, alguns autores afirmam que a ênfase no “não terás outro Deus” pode ser interpretada de forma dogmática, o que contraria o espírito de liberdade e investigação que a Maçonaria propõe. Paulo S. R. Carvalho ressalta que o verdadeiro mandamento iniciático deve ser entendido como a busca da Unidade na diversidade, e não a negação de outras formas de religiosidade e espiritualidade.
d) Doutrina mais aceita na maçonaria regular
A doutrina mais aceita na Maçonaria Regular, segundo estudiosos como Leon Zeldis, Armando Righetto e Rizzardo da Camino, interpreta o Primeiro Mandamento como a expressão simbólica do reconhecimento do Grande Arquiteto do Universo como o único fundamento da vida, da ordem e da moralidade.
Este princípio não se limita a uma crença religiosa formal, mas é a base metafísica que orienta o maçom na construção do templo interior, na superação das ilusões materiais e na adesão ao ideal do Bem Supremo. Tal compreensão é fundamental para a iniciação e o progresso moral.
e) Integração do texto base com a pesquisa
O texto base ilustra com clareza a profunda ligação entre a Palavra Sagrada do Aprendiz e o Primeiro Mandamento, destacando a importância de reconhecer o Princípio único como fonte da vida e do bem. A pesquisa histórica e doutrinária confirma essa visão como uma pedra angular da Maçonaria Regular, fundamentada no monoteísmo simbólico que transcende religiões e cultos, concentrando-se na experiência interior do iniciado.
As críticas apontadas enriquecem o debate, mostrando que este princípio deve ser compreendido em sua dimensão simbólica e universal, evitando interpretações restritivas que possam limitar a pluralidade e a liberdade que a Maçonaria preza.
Assim, o reconhecimento do Primeiro Mandamento simboliza o despertar do Aprendiz para uma nova consciência, na qual ele abandona as falsas dependências do mundo exterior e se volta para a Luz interior, inaugurando sua jornada de liberdade, independência e fraternidade.
Autor Ivair Ximenes Lopes
Referências bibliográficas
Pike, Albert. Morals and Dogma. 1871.
Aslan, Nicola. Ritual e Iniciação. Ed. Aurora.
Figueiredo, Joaquim Gervásio de. Dicionário Maçônico. Ed. A Trolha.
Righetto, Armando. Simbolismo Maçônico. Ed. Maçônica.
Zeldis, Leon. A Maçonaria Explicada. Ed. A Trolha.
Carvalho, Paulo S. R. Maçonaria e Tolerância.
da Camino, Rizzardo. A Tradição Maçônica e sua Filosofia Iniciática. Ed. Madras.

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MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau.
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