Frederic Charles Bartlett e a Revolução da Memória Construtiva
O que acontece quando você pede a alguém para recontar uma história que ouviu? A resposta não é simples.
Essa foi a pergunta que motivou as investigações de Sir Frederic Charles Bartlett, um psicólogo britânico que dedicou sua vida a investigar os processos de memória. Ao se opor ao modelo vigente de sua época, que via o ato de lembrar como uma simples reprodução, Bartlett foi um visionário ao propor que o ato de lembrar é, na verdade, um processo ativo de reconstrução, moldado por nossa cultura, crenças e experiências de vida.
O artigo a seguir apresenta a biografia desse pesquisador fundamental, detalha seus experimentos clássicos e conceitos-chave, e reúne algumas curiosidades sobre um homem cujo trabalho influenciou desde a psicologia cognitiva até o estudo da inteligência artificial.
Biografia: Um Pioneiro entre Guerras e Livros
Frederic Charles Bartlett nasceu em 20 de outubro de 1886 em Stow-on-the-Wold, Gloucestershire, Inglaterra. Sua trajetória acadêmica inicial foi em filosofia, pela Universidade de Londres, onde se formou em 1909 e obteve seu mestrado em 1911. Sua vida, no entanto, tomou um novo rumo quando se transferiu para o St. John’s College, na Universidade de Cambridge, onde estudou psicologia sob a orientação de nomes como W. H. R. Rivers e C. S. Myers, obtendo seu doutorado com honras de primeira classe em 1914.
Embora Bartlett tenha sido barrado do serviço militar ativo na Primeira Guerra Mundial por problemas de saúde — uma pleurisia debilitante na juventude — o conflito foi um marco em sua vida. Com a partida de seus colegas seniores para a guerra, foi forçado a assumir a liderança do laboratório de psicologia de Cambridge, onde mergulhou de cabeça na docência e na pesquisa aplicada. Este trabalho de guerra culminou em seu primeiro livro, Psychology of the Soldier, em 1927.
Em 1922, tornou-se diretor do Laboratório Psicológico de Cambridge e, em 1931, foi nomeado o primeiro professor de psicologia experimental da universidade, posição que ocupou até sua aposentadoria em 1952.
A Segunda Guerra Mundial viu suas contribuições práticas novamente em destaque. Em 1944, fundou a Unidade de Pesquisa em Psicologia Aplicada do Conselho de Pesquisa Médica (MRC), concentrando seus esforços no treinamento e no design experimental para o governo britânico.
Seu trabalho, profundamente interdisciplinar, lhe rendeu inúmeros prêmios: foi eleito membro da Royal Society em 1932, condecorado com a Medalha Real em 1952, recebeu doutorados honoris causa de universidades como Atenas, Princeton, Londres e Lovaina, e foi cavaleiro da Coroa Britânica em 1948 pelos serviços prestados à Força Aérea durante a guerra. Frederic Bartlett faleceu em Cambridge em 30 de setembro de 1969, aos 82 anos.
Conceitos Fundamentais e o Experimento Clássico
A principal contribuição de Bartlett para a psicologia é a sua abordagem da memória. Em sua obra-prima “Remembering: A Study in Experimental and Social Psychology” (1932), ele desafiou o paradigma dominante de Hermann Ebbinghaus, que usava sílabas sem sentido em seus estudos, por considerá-lo artificial.
Bartlett, por sua vez, defendeu o uso de materiais complexos e culturalmente significativos para investigar o processo de memória em um contexto mais natural.
A partir de seu laboratório, desenvolveu sua Teoria dos Esquemas. Para ele, as memórias não são cópias fiéis da realidade, mas sim reconstruções mentais ativas, que são constantemente “coloridas” por nossas atitudes culturais, hábitos pessoais e experiências prévias.
O Experimento Clássico: “A Guerra dos Fantasmas”
Seu experimento mais famoso para demonstrar essa ideia foi o da “Guerra dos Fantasmas”. Ele utilizou 20 estudantes universitários britânicos e apresentou a eles uma história tradicional de uma cultura nativa americana chamada “A Guerra dos Fantasmas“, escolhida por ser unfamiliar e “estranha” para seus participantes.
Para analisar a transmissão da informação, ele utilizou um método de reprodução serial: o primeiro participante lia a história e a recontava por escrito; essa versão era lida pelo segundo participante, que escrevia sua própria lembrança, e assim por diante. Em outras palavras, recriava em laboratório o efeito do “telefone sem fio”.
Os resultados surpreenderam Bartlett e sua equipe:
Assimilação: Termos estranhos à cultura britânica eram alterados. “Caçar focas” se transformava em “pescar”. “Canoas” viravam “barcos”, e “remar” substituía a palavra “paddling”. Os participantes, em suma, faziam a história se encaixar em seus próprios esquemas culturais.
Omnissão: Os participantes suprimiam ou ignoravam sistematicamente detalhes que não conseguiam compreender. Elementos sobrenaturais, como o título da história, “Guerra dos Fantasmas”, eram frequentemente removidos da narrativa.
Nivelamento: O comprimento da história diminuía drasticamente. A história original, com cerca de 330 palavras, encolheu para uma média de 180 palavras nas reproduções, com os participantes eliminando o que consideravam informações supérfluas.
Teoria dos Esquemas (Esquemas Cognitivos)
A “Teoria dos Esquemas” é a espinha dorsal do pensamento de Bartlett. Para ele, os esquemas não são apenas estruturas de conhecimento que organizam nossas experiências, mas sistemas dinâmicos e flexíveis que nos permitem interpretar e agir no mundo.
Ele descreveu os esquemas como estruturas que integram componentes internos (crenças, valores) e externos (situações, ambientes culturais). Mais importante, Bartlett viu os esquemas como ferramentas que nos orientam para o futuro, não apenas arquivos do passado. Sua teoria da memória é construtiva: lembrar é sempre um ato de imaginação e recombinação, influenciado por esquemas de conhecimento preexistentes.
Essa influência cultural na memória demonstrou, como poucos estudos antes haviam feito, que o ato de recordar é ativo e construtivo, e não uma reprodução fiel de eventos passados.
Contribuições e Legado
A influência do trabalho de Bartlett, no entanto, não parou na memória. Em seu livro posterior, “Thinking: An Experimental and Social Study” (1958), ele estendeu suas ideias ao estudo do pensamento, tratando-o como uma habilidade mental de alto nível, de natureza fundamentalmente social.
Além disso, ele foi um grande incentivador da psicologia aplicada. Sua criação da Unidade de Pesquisa em Psicologia Aplicada em 1944 foi um marco, focando-se em problemas práticos como treinamento militar e aperfeiçoamento de habilidades, em uma abordagem que integrava conhecimentos da psicologia, antropologia e sociologia.
Essa abordagem multidisciplinar o levou a se autodenominar “um psicólogo de Cambridge”, uma vez que a especialização rígida não existia em sua formação. Hoje, as ideias de Bartlett são reconhecidas como um fundamento da psicologia cognitiva e da psicologia cultural.
Curiosidades e Fatos Menos Conhecidos
Autodidata por necessidade: Uma doença grave aos 14 anos o impediu de frequentar um internato, forçando-o a se educar sozinho em casa com a ajuda da biblioteca de seu pai.
Da Filosofia à Guerra: Inicialmente interessado em filosofia e antropologia, foi seu orientador, C. S. Myers, quem o convenceu a mudar para a psicologia experimental, um campo na época ainda emergente na Grã-Bretanha.
O “Acaso” da Carreira: Bartlett começou a trabalhar como assistente de psicologia de Cambridge em 1914 apenas para preencher a vaga deixada por Cyril Burt, que havia deixado a universidade. A eclosão da Primeira Guerra Mundial e a partida de seus colegas o catapultaram para uma posição de liderança que provavelmente não teria alcançado tão cedo sob outras circunstâncias.
Aplicações Práticas da Memória: Por ironia, durante a Primeira Guerra Mundial, enquanto ainda não havia publicado sua obra-prima sobre a natureza reconstruída da memória, ele trabalhava em projetos altamente práticos para o esforço de guerra, como o desenvolvimento de métodos para detectar sinais auditivos fracos no ruído, um trabalho crucial para detectar submarinos alemães.
Considerações Finais
Sir Frederic Bartlett foi um pioneiro cujas ideias inovadoras — a memória como um processo ativo e construtivo, a Teoria dos Esquemas, e a psicologia aplicada — anteciparam em décadas o que hoje é central para a psicologia cognitiva e cultural. Ao desafiar as visões mecanicistas de sua época, ele abriu novos caminhos para a compreensão da mente humana, influenciando áreas tão diversas como o estudo do testemunho ocular, a psicologia do esporte e até o desenvolvimento da inteligência artificial.
“A memória não é um repositório passivo; é uma oficina ativa.” — Sir Frederic Bartlett
Pesquisa e Redação Ivair Ximenes Lopes
📚 Referências e Fontes para Aprofundamento
- ROEDIGER, H. L. Introductory article: Bartlett, Frederic Charles. Washington University, St Louis, MO, USA. Disponível em: http://psychnet.wustl.edu/memory/wp-content/uploads/2018/04/Roediger-2003.pdf. (Perfil biográfico detalhado do psicólogo)
- FREDERIC BARTLETT. Britannica. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Frederic-Bartlett-psychologist. (Visão geral da vida e obra)
- FREDERIC BARTLETT. Wikipédia, a enciclopédia livre. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Frederic_Bartlett. (Resumo biográfico e lista de obras)
- FREDERIC CHARLES BARTLETT. Infopédia. Disponível em: [https://www.infopedia.pt/artigos/frederic−charles−bartlett](https://www.infopedia.pt/artigos/frederic−charles−bartlett](https://www.infopedia.pt/artigos/frederic-charles-bartlett). (Informações sobre sua carreira e teoria da memória)
- FREDERIC BARTLETT. Viquipèdia, l’enciclopèdia lliure. Disponível em: https://ca.wikipedia.org/wiki/Frederic_Bartlett. (Biografia detalhada, incluindo infância, formação e trajetória acadêmica)
- FREDERIC BARTLETT. Wikipedia, la enciclopedia libre. Disponível em: https://es.wikipedia.org/wiki/Frederic_Bartlett. (Detalhes sobre sua nomeação como professor e teorias)
- FREDERICK CHARLES BARTLETT. Treccani. Disponível em: https://www.treccani.it/enciclopedia/bartlett-frederick-charles/. (Perfil do psicólogo)
- FREDERICK CHARLES BARTLETT. Encyclopedie. Disponível em: https://www.encyclopedie.fr/definition/Frederick_Charles_Bartlett. (Informações sobre sua formação e carreira)
- A PSICOLOGIA SOCIAL DA EXPERIÊNCIA – A RELEVÂNCIA DA MEMÓRIA. Pro-Posições, v. 17, n. 2 (50), maio-ago. 2006. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/proposic/article/view/8643629. (Exploração da teoria dos esquemas de Bartlett e seu legado)
- 弗雷德里克·巴特莱特. 百度百科. Disponível em: https://baike.baidu.com/item/%E5%BC%97%E9%9B%B7%E5%BE%B7%E9%87%8C%E5%85%8B%C2%B7%E5%B7%B4%E7%89%B9%E8%8E%B1%E7%89%B9/4964344. (Biografia detalhada em chinês)
- THE WAR OF THE GHOSTS. Oxford Reference. Disponível em: https://www.oxfordreference.com/display/10.1093/oi/authority.20110803121021936. (Texto original da história usada por Bartlett)
- BARTLETT’S WAR OF THE GHOSTS STUDY. Save My Exams. Disponível em: https://www.savemyexams.com/gcse/psychology/aqa/19/revision-notes/memory/memory-as-an-active-process/bartletts-war-of-the-ghosts-study/. (Análise detalhada do experimento)
- SIR FREDERIC BARTLETT – THE WAR OF THE GHOSTS. *BBC Radio 4 – Mind Changers*. Disponível em: https://www.stage.bbc.co.uk/programmes/p00f8n47. (Documentário da BBC sobre o experimento)
- PSICOLOGIA COGNITIVA BARTLETT. Prezi. Disponível em: https://prezi.com/p/53_zfeqc883y/psicologia-cognitiva-bartlett/. (Apresentação sobre a Teoria dos Esquemas e sua origem cultural)
- THE CONSTRUCTIVE MIND. Cambridge University Press. Disponível em: https://www.cambridge.org/core/books/constructive-mind/. (Estudo integrativo da vida e obra de Bartlett

“Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau.
Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.











