Os maçons e a Criação de Estruturas Religiosas no Reino do Brasil
A Maçonaria desempenhou um papel complexo e muitas vezes conflituoso no contexto das relações entre Igreja, Coroa e política no Brasil imperial, especialmente a partir do século XIX.
Embora não tenha existido uma maçonaria organizada no Brasil durante o período colonial (séculos XVI–XVIII), sua emergência e expansão no Império do Brasil (1822–1889) — especialmente entre elites políticas, militares e intelectuais — gerou tensões profundas com a Igreja Católica e, em certos momentos, com a própria Coroa.
Abaixo, apresentamos uma análise integrada ao mesmo quadro histórico do artigo anterior, mostrando como maçons, reis (especialmente D. Pedro I e D. Pedro II), a política do Reino/Império e a Igreja Católica estavam entrelaçados.
A Maçonaria no Brasil: Entre a Coroa, a Igreja e a Política (séculos XIX)
1. Origens e Inserção no Império
A Maçonaria chegou ao Brasil de forma organizada por volta de 1813, com a fundação da Loja “Comércio e Artes” no Rio de Janeiro, ainda sob domínio português. Seu crescimento acelerou-se após a chegada da Corte portuguesa em 1808, que trouxe ideias iluministas, liberais e anticlericais.
- D. Pedro I foi iniciado na Maçonaria em 1822, na Loja “Comércio e Artes”, recebendo o título de Grão-Mestre Geral da Maçonaria do Brasil.
Sua adesão foi estratégica: a Maçonaria reunia setores da elite que apoiavam a independência do Brasil e se opunham ao absolutismo português. - A Maçonaria tornou-se um espaço de articulação política liberal, reunindo figuras como José Bonifácio, Gonçalves Ledo e outros líderes do movimento independentista.
Importante: Embora D. Pedro I tenha usado a Maçonaria como aliada política, afastou-se dela em 1823, sob pressão da Igreja e de setores conservadores, e chegou a proibir as lojas por decreto em 1824 — embora a proibição tenha sido pouco eficaz na prática.
2. D. Pedro II e a Maçonaria: Relação Ambígua
Diferentemente de seu pai, D. Pedro II nunca foi maçom, mas manteve relações estreitas com maçons ao longo de seu reinado. Muitos de seus ministros, conselheiros, generais e intelectuais eram membros ativos da Maçonaria, como:
- Rui Barbosa
- Joaquim Nabuco
- Deodoro da Fonseca (futuro proclamador da República)
- Mariano Procópio
- Saldanha Marinho
A Maçonaria, nesse período, tornou-se um veículo de difusão do liberalismo, do republicanismo moderado, do abolicionismo e do laicismo. Apesar de D. Pedro II ser um monarca constitucional e defensor da ordem, tolerava a Maçonaria por seu papel na manutenção de uma elite política moderada e educada.
Contudo, essa convivência gerou tensões crescentes com a Igreja Católica, que via a Maçonaria como:
- Inimiga da fé católica (condenada por várias bulas papais, como Ecclesiam a Jesu Christo, de 1821, e Humanum Genus, de 1884)
- Promotora do secularismo e do anticlericalismo
- Infiltrada no Estado, influenciando leis e nomeações
3. O Conflito com a Igreja: A Questão Religiosa (1872–1875)
O ponto de ruptura entre o Estado imperial e a Igreja foi a Questão Religiosa, diretamente ligada à presença de maçons no poder.
- Bispos ultramontanos, como D. Vital de Oliveira (Olinda) e D. Antônio de Macedo Costa (Belém), proibiram a participação de maçons em sacramentos (batismo, casamento, enterro em cemitérios católicos), alegando que a Maçonaria era uma seita condenada pela Igreja.
- O governo imperial, sob o gabinete de Visconde do Rio Branco, considerou essa atitude uma violação da autoridade do Estado e do regime do Padroado, que dava ao imperador o direito de controlar os assuntos eclesiásticos no Brasil.
- Os bispos foram presos (1874), julgados e condenados — fato inédito em um país católico. A Santa Sé protestou, mas o Vaticano estava enfraquecido após a perda dos Estados Pontifícios (1870).
Consequência: A Questão Religiosa enfraqueceu a aliança entre Trono e Altar, abalou a legitimidade moral do Império e aproximou setores da Igreja de ideias republicanas — ironicamente, muitas delas também promovidas pelos maçons.
4. Maçonaria, Abolição e República
Nos anos 1880, a Maçonaria tornou-se centro de mobilização abolicionista e republicana:
- Lojas maçônicas organizavam campanhas, financiavam jornais e pressionavam parlamentares.
- Após a Lei Áurea (1888), setores conservadores (especialmente escravocratas) viram na Maçonaria e no governo imperial uma ameaça aos seus interesses.
- Em 1889, a proclamação da República foi liderada por Deodoro da Fonseca, maçom e ex-ministro do Império, com apoio de outras figuras maçônicas.
Curiosamente, D. Pedro II foi deposto por homens que, em grande parte, haviam sido seus colaboradores — e muitos deles, maçons.
Conclusão: Um Triângulo de Tensões
No contexto do Reino e do Império do Brasil, a Maçonaria não era apenas uma sociedade secreta, mas um ator político central que:
- Aliou-se à Coroa nos momentos de construção do Estado nacional (especialmente com D. Pedro I);
- Conviveu com o Império de D. Pedro II, apesar das tensões com a Igreja;
- Contribuiu para a crise final do regime monárquico, ao promover ideias liberais, abolicionistas e republicanas.
Enquanto a Coroa via na Maçonaria um instrumento de modernização e controle político, a Igreja Católica a via como uma ameaça existencial à fé e à ordem moral. Esse triângulo de forças — Coroa, Igreja e Maçonaria — moldou decisivamente a trajetória política e religiosa do Brasil no século XIX.
Autor Ivair Ximenes Lopes
Fontes Complementares sobre Maçonaria e Império
- AZEVEDO, José Antonio de. Maçonaria e Independência do Brasil. São Paulo: Ícone, 1993.
- FERRER, Aldrin Moura de. Maçonaria e República no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad, 2006.
- GOMES, Flávio dos Santos. História da Maçonaria no Brasil. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2003.
- CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Cia. das Letras, 1990.
- BULAS PAPAIS: Ecclesiam a Jesu Christo (Leão XII, 1821); Humanum Genus (Leão XIII, 1884).
- Relatórios da Questão Religiosa, Arquivo Nacional (Brasil), Fundo “Justiça”, 1872–1875.
- RIBEIRO, Gladys Sabina. A liberdade em jogo: os abolicionistas no parlamento imperial. Brasília: Senado Federal, 2001.
Essas fontes demonstram como a Maçonaria, embora marginalizada pela historiografia tradicional, foi um agente político decisivo nas transformações do Brasil imperial — e um elo crucial entre as esferas religiosa, monárquica e libera

“Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau.
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