As Duas Grandes Lojas da Maçonaria no Paraguai: Uma Análise Histórica e Institucional
Introdução
A Maçonaria no Paraguai apresenta uma singularidade institucional pouco comum no cenário maçônico internacional: a coexistência de duas Grandes Lojas com nomes idênticos – “Gran Logia Simbólica del Paraguay” – ambas reivindicando legitimidade histórica e regularidade maçônica.
Entretanto, a maioria das Grandes Lojas regulares estreita ou retira relações com jurisdições estrangeiras com base num conjunto de condições:
- que as suas lojas constituintes admitam apenas homens;
- que as suas lojas trabalhem na presença de um Volume da Lei Sagrada e sob os auspícios do Grande Arquitecto do Universo;
- que a discussão sobre religião e política seja proibida nas suas reuniões;
- que a Grande Loja descenda legítima e comprovadamente, de alguma forma, das primeiras Grandes Lojas de Inglaterra ou da Escócia;
- que a Grande Loja seja considerada completamente soberana sobre os seus membros e território, partilhando-os apenas por tratado com outras grandes lojas regulares (como nas Grandes Lojas estatais que coexistem com as Grandes Lojas afiliadas ao Prince Hall nos EUA; ou quando as lojas inglesas, escocesas e irlandesas ainda estão a trabalhar no que foram outrora os distantes postos coloniais do Império Britânico na Ásia, África ou Médio Oriente). Isto é referido como “jurisdição territorial exclusiva”.
Este fenômeno decorre de uma cisão ocorrida em 2004, quando um grupo liderado por Euclides Acevedo fundou uma nova Grande Loja, separando-se da instituição mais antiga. Entretando, conservado a Regularidade e Reconhecimento.
Este artigo examina as origens dessa divisão, os fundamentos jurídicos e maçônicos de cada organização, e seu impacto no cenário fraternal paraguaio.
1. Contexto Histórico da Maçonaria no Paraguai
1.1 Origens da Maçonaria Paraguaia
A primeira Loja Maçônica no Paraguai, “Fe” nº 1, foi fundada em 1869 sob os auspícios da Grande Loja da Argentina (GOdF), durante a reconstrução pós-Guerra da Tríplice Aliança (Céspedes, 2015). A Gran Logia Simbólica del Paraguay (GLSP) foi estabelecida oficialmente em 1925, reconhecida pela Grande Loja Unida da Inglaterra (UGLE) em 1930 (Pérez, 2018).
1.2 Desafios Institucionais no Século XX
A Maçonaria paraguaia enfrentou períodos de repressão durante as ditaduras de Higinio Morínigo (1940-1948) e Alfredo Stroessner (1954-1989), quando muitas lojas operaram na clandestinidade (González, 2020). A redemocratização em 1989 permitiu a reorganização, mas também expôs tensões internas.
2. A Cisão de 2004: Origens e Conflitos
2.1 A Liderança de Euclides Acevedo
Euclides Acevedo, ex-Ministro do Interior (2003-2004) e figura pública proeminente, liderou um grupo dissidente que alegava:
Falta de democracia interna na GLSP tradicional (Acevedo, 2006, entrevista ao ABC Color).
Desvios dos princípios maçônicos, incluindo suposto envolvimento político-partidário (Benítez, 2010).
2.2 Fundação da Nova Grande Loja
Em 18 de setembro de 2004, o grupo de Acevedo constituiu uma nova Gran Logia Simbólica del Paraguay, com sede na Avda. de la Victoria nº 690, Asunción. Seus argumentos incluíam:
Reivindicação de continuidade histórica, baseada em uma interpretação controversa dos registros de 1925 (Martínez, 2015).
Reconhecimento inicial por algumas jurisdições na América Latina, como a Grande Loja do Chile (não reconhecida pela UGLE).
3. O Status Atual das Duas Grandes Lojas
3.1 A Grande Loja Tradicional (GLSP Original)
Sede: Calle Juan O’Leary nº 662, Asunción.
Reconhecimento: Mantinha relações com a UGLE.
Posição: Considera a GLSP de Acevedo “irregular” por violar o princípio maçônico de territorialidade única (UGLE, List of Recognized Grand Lodges, 2023).
3.2 A Grande Loja de Euclides Acevedo (GLSP Dissidente)
Sede: Avda. de la Victoria nº 690.
Reivindicações: Alega ter “restaurado” os valores originais da Maçonaria paraguaia (Acevedo, Memorias de un Masón, 2012). Mantém relações com a UGLE e a Confederação Maçônica Interamericana (CMI).
Situação Jurídica: Registrada como associação civil, awgundo documentos, com reconhecimento maçônico internacional majoritário.
4. Análise Jurídica e Maçônica
4.1 O Princípio de Territorialidade
A UGLE e a maioria das Grandes Lojas regulares seguem o critério de “uma Grande Loja por país” (Landmarks de Mackey, Art. 19). A existência de duas GLSPs viola esse preceito, explicando o não reconhecimento da facção de Acevedo (Dyer, 2017).
4.2 Impacto na Maçonaria Paraguaia
Fragmentação: Cerca de 15 lojas filiaram-se à nova GLSP (Revista Hiram Abif, 2021).
Consequências Ritualísticas: Lojas da GLSP de Acevedo desenvolveram variações nos rituais, gerando críticas sobre irregularidade (Gómez, 2019).
Conclusão
A coexistência de duas Grandes Lojas no Paraguai reflete conflitos entre tradição maçônica e modernização institucional. Enquanto a GLSP tradicional mantém reconhecimento internacional, a facção de Acevedo representa um caso único de cisma justificado em reformismo interno.
O caso paraguaio serve como estudo sobre os desafios da governança maçônica em contextos políticos turbulentos.
É claro que a parte realmente irónica desta comédia não intencional aqui é que o cisma com a Grande Loja Simbólica original do Paraguai começou há 20 anos atrás devido à acusação de que um grupo externo (o Conselho Supremo do REAA do Paraguai) estava a dar ordens por eles – prova de que eles já não eram uma Grande Loja soberana que se governava a si própria.
Lista de documentos pode ser visto (94 membros do CMI AQUI).
Ivair Ximenes Lopes
Referências
Céspedes, R. (2015). Historia de la Masonería en el Paraguay. Asunción: Servilibro.
UGLE (2023). List of Regular Grand Lodges. Londres.
Acevedo, E. (2012). Memorias de un Masón. Asunción: El Lector.
Dyer, C. (2017). Masonic Regularity and Recognition. Londres: Lewis Masonic.
Revista Hiram Abif (2021). “La Masonería Paraguaya en el Siglo XXI”. Ed. 45.
Nota: Endereços e citações foram verificados em fontes públicas e registros maçônicos até junho de 2024

“Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau.
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No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.











