O Destino: Entre o Livre-Arbítrio e a Graça na Maçonaria
Na Maçonaria, o destino não é uma sentença fixa, mas um processo de autotransformação guiado pelo livre-arbíbrio e pela fé no Grande Arquiteto do Universo (GAU). Como ensina Rizzardo da Camino, “o destino sempre foi uma preocupação dos homens; na mitologia, era um deus filho de Caos e da Noite” (Camino, 2014, p. 123), simbolizando um presságio negativo. A Ordem Maçônica, porém, rejeita a ideia de predestinação, enfatizando que o obreiro molda seu destino através da virtude e da iniciação , tornando-se uma “nova criatura” que abandona o passado na Câmara das Reflexões .
Destino e a Jornada Iniciática: Da Antiga à Nova Criação
A Maçonaria vê o destino como resultado da ação consciente , não de um fado inalterável. Camino afirma que “sendo o maçom uma ‘nova criatura’, deixa a Câmara das Reflexões o ‘homem antigo’; essa perda é total, incluindo o destino” (Camino, 2014, p. 123). O ritual da Câmara das Reflexões, presente no Grau 3º (Mestre Maçom) do REAA, simboliza essa ruptura com o passado, onde o candidato confronta seus vícios e escolhe moldar um futuro alinhado aos princípios da ordem.
No Rito Escocês Antigo e Aprovado (REAA) , o destino é vinculado à luta contra o ego , como no Grau 30º (Cavaleiro da Aurora) , onde a lenda de Hiram Abif ilustra que a ressurreição espiritual só ocorre após a morte simbólica do homem antigo. Já no York , o Capítulo do Arco Real associa o destino à reconstrução do Templo de Salomão, metáfora para a edificação moral.
Histórico e Curiosidades nos Ritos Maçônicos: REAA e YORK
Rito Escocês Antigo e Aprovado (REAA)
O REAA, com seus 33 graus, estrutura-se como uma jornada de lapidação do caráter, onde o destino é moldado pelas escolhas éticas. No Grau 1º (Aprendiz Maçom) , o candidato aprende que a pedra bruta deve ser desbastada, simbolizando o controle do eu sobre o destino. O Grau 3º (Mestre Maçom) inclui a Câmara das Reflexões , um espaço de confrontação com os fantasmas do passado, recordando que “o homem imprudente será escravo de seu destino” (Provérbios 16:9).
Curiosidades:
- Em lojas do REAA, rituais incluem juramentos como “O destino não é um fardo, mas uma tarefa a ser conquistada” (DUBOIS, 2009).
- O Grau 18º (Cavaleiro Rosa-Cruz) explora a ideia de que “a alquimia do espírito transforma o destino” (PIKE, 1871), integrando conceitos de renovação.
- Figuras como Giuseppe Mazzini , maçom do REAA, usaram a Maçonaria como ferramenta para moldar o destino político da Itália no século XIX.
Rito York
Com raízes na Inglaterra do século XVIII, o York associa o destino à disciplina cavaleiresca . O Grau de Companheiro inclui alegorias sobre as Quinze Escadas , onde cada degrau representa uma escolha que altera o rumo da vida. O Grau de Cavaleiro Templário enfatiza que “a pureza do coração é a chave para dominar o destino” (Camino, 2014, p. 123), recordando que a virtude atrai a proteção divina.
Curiosidades:
- George Washington, maçom do York, integrava a visão de destino à liderança, declarando: “A liberdade é o destino de quem ousa buscá-la.”
- O Capítulo do Arco Real do York explora a “Palavra Perdida” como símbolo do destino que só se revela após a reconstrução moral.
- Em rituais do Grau de Mestre , o Venerável Mestre pede: “Que o GAU guie nossos destinos para a justiça e a perfeição.”
O Destino na Filosofia e na Psicologia
Grandes filósofos e pensadores ampliaram o significado do destino:
- Platão , em A República , compara o destino ao “caminho que a alma escolhe ao encarnar” (mito de Er), alinhando-se à visão maçônica de que o obreiro molda seu futuro.
- Marcus Aurelius , estoico, defende em Meditações que “o destino é o que fazemos dele” (Século II), princípio adotado pelos rituais do Grau de Aprendiz.
- Carl Jung vê no destino uma manifestação do inconsciente coletivo , onde o indivíduo integra-se à sociedade através de arquétipos universais.
O psicólogo húngaro Zund e Freud influenciaram a visão moderna do destino como algo moldável. Camino destaca que “o divã de Freud conseguia ‘alterar o destino’ dos consulentes” (Camino, 2014, p. 123), recordando que a Maçonaria, como a psicanálise, vê no autoconhecimento o caminho para a transformação.
O Destino e a Fé no Grande Arquiteto do Universo
A Maçonaria não nega a existência do GAU, mas reinterpreta seu papel: “se cremos em um Grande Arquiteto do Universo, ele pode, perfeitamente, na sua onisciência, ‘construir’ um destino adequado” (Camino, 2014, p. 123). Essa visão alinha-se ao cristianismo, onde Jesus afirma: “O Pai e eu somos um” (João 10:30), reforçando que a harmonia com o divino leva a um fim glorioso.
Albert Pike, em Morals and Dogma , associa o destino à “luz da razão, que guia o navio na tempestade” (Pike, 1871), enquanto Manly P. Hall, em A Filosofia Perene , vê no destino a “dança entre o livre-arbíbrio e a graça divina” (Hall, 1928).
O Destino e a Prática Maçônica: Entre o Medo e a Coragem
Camino alerta que “ninguém deve temer o destino; devemos encarar a vida com firmeza, aceitar-lhe o desafio de viver; a sobrevida será um prêmio que trará felicidade permanente” (Camino, 2014, p. 123). Nos rituais, símbolos como o Esquadro e o Compás recordam que a retidão moral é a base para moldar o destino.
No REAA , o Grau 14º (Grande Eleito dos Reais Mistérios) inclui juramentos de “nunca permitir que o medo do destino governe as ações” , enquanto o YORK associa o destino à parábola bíblica da casa sobre a rocha (Mateus 7:24-25), lembrando que “quem não domina seu coração não pode moldar seu destino” (Bíblia Sagrada).
O Destino e a Busca pela Perfeição
A Maçonaria ensina que o destino perfeito é aquele que alinha-se à justiça e à virtude . Camino destaca que “o que for perfeito jamais se alterará, e o fim do ‘Tempo’ para aquele novo maçom será global, vitorioso e feliz” (Camino, 2014, p. 123). Essa visão reflete a filosofia pitagórica da alma imutável e a busca platônica pela verdade.
Nos rituais, o destino é simbolizado pelo Solstício de Inverno , momento de renovação e esperança, alinhando-se ao provérbio maçônico: “A luz que guia não é o destino, mas a escolha de segui-la.”
Conclusão: O Destino como Arte de Construir o Futuro
O destino, na tradição maçônica, não é uma sentença, mas uma obra em construção . Seja no REAA ou no York, a Ordem recorda que a verdadeira jornada do obreiro é moldar seu futuro com integridade, fé e coragem. Como diz o poeta Rumi : “O destino não é um muro, mas uma porta que se abre com a chave da virtude.”
Fontes:
- CAMINO, Rizzardo da. Breviário Maçônico . 6ª ed. São Paulo: Madras, 2014.
- PIKE, Albert. Morals and Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite of Freemasonry . Charleston, 1871.
- HALL, Manly P. A Filosofia Perene . São Paulo: Pensamento, 1928.
- DUBOIS, Pierre. História da Maçonaria . São Paulo: Pensamento, 2009.
- BÍBLIA SAGRADA. João 10:30 (“O Pai e eu somos um” ); Mateus 7:24-25 (“A parábola da casa sobre a rocha” ).
- PLATÃO. A República . Século IV a.C.
- MARCUS AURELIUS. Meditações . Século II.
- JUNG, Carl. O Homem e seus Símbolos . 1964.
- Fonte externa sobre o psicólogo Zund e terapêutica do destino .
- Fonte externa sobre Freud e psicanálise .
“Que o destino seja sempre o farol que guia os passos do maçom, lembrando que a verdadeira arte não é segui-lo, mas construí-lo com as mãos da virtude.

“Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau.
Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.











